UM VIZINHO PERFEITO
The perfect neighbor
Nora Roberts

Nora Roberts - MacGregors 09




Resumo:
O amor ainda era o maior legado dos Macgregor
Fazer parte da famlia MacGregor era o mesmo que estar destinado a encontrar um grande amor. Sim, porque para os descendentes daquele poderoso cl escocs, no havia 
como escapar do olhar carinhoso e mais do que casamenteiro de Daniel MacGregor, o patriarca da famlia. Dessa vez, sua "vtima" seria a esfuziante Cybil Campbell, 
uma de suas netas preferidas. Com aqueles belssimos olhos verdes e aquele jeito to especial de ser, claro que a menina estava mais do que pronta para o amor. E 
sendo ele um homem prevenido, e evidentemente, sbio com seus noventa e tantos anos, claro que tambm j tinha o pretendente perfeito para ela. Com sorte, Preston 
McQuinn se sentiria enfeitiado por aqueles olhos de pantera desde o primeiro instante. Mas antes teria de dar seu costumeiro e mais do que discreto "empurrozinho" 
para aqueles dois se convencerem tanto quanto ele de que haviam nascido um para o outro.


Autor:
Eleita pelo New York Times como uma das mais consagradas autoras de best-sellers, NORA ROBERTS , segundo o jornal Los Angeles Daily News, "uma artista da palavra, 
que cria seus romances e seus personagens com verve e dinamismo". J publicou mais de cem romances dos quais muitos foram traduzidos para mais de vinte e cinco idiomas, 
e outros se transformaram em filmes.
Somando este romance a sua lista de sucessos, Nora continua fiel ao estilo enrgico e incrivelmente romntico que conquistou o corao de suas leitoras desde 1981, 
com a publicao de seu primeiro livro. Com mais de 4O milhes de cpias de seus livros impressas por todo o mundo, e seis ttulos na lista de best-sellers do New 
York Times, Nora Roberts , sem dvida, um fenmeno literrio.


Copyright (c) 1999 by Nora Roberts
Originalmente publicado em 1999 pela Silhouette Books, diviso da Harlequin Enterprises Limited.
Ttulo original: The perfect neighbor
Copyright para a lngua portuguesa: 2000
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Digitalizao: Nia
Reviso: Caroline Santos


CAPTULO I

- Ento ainda no falou com ele?
- Hum? - Cybil Campbell continuou a trabalhar em sua mesa de desenho, marcando traos divisores no papel com uma experincia adquirida ao longo de anos. 
- De quem voc est falando?
Seguiu-se um longo suspiro de censura. Ao ouvi-lo, Cybil teve de se esforar para no rir. Conhecia muito bem Jody Myers, sua vizinha do andar de baixo, e sabia 
exatamente sobre quem ela estava falando.
- Do irresistvel sr. Misterioso do 3B, Cyb. Ele se mudou para c h uma semana e ainda no trocou uma palavra com ningum!  mistrio demais para mim. Seu apartamento 
fica bem em frente ao dele e voc nem tentou dizer "ol"? Pelo amor de Deus, mulher! Voc precisa fazer alguma coisa!
- Tenho andado muito ocupada ultimamente. - Cybil levantou a vista e arriscou olhar para Jody, que estava andando pelo estdio com ar impaciente, fazendo os cabelos 
loiros balanarem com veemncia. 
- Mal notei a presena dele.
Jody revirou os olhos, parecendo no acreditar no que estava ouvindo.
- No me venha com essa histria, Cyb. Notou a presena dele, sim.
Jody se aproximou da mesa de desenhos e inclinou-se por cima do ombro da amiga, ento torceu o nariz. Nada alm de algumas linhas azuis. Gostava mais quando Cybil 
comeava a esboar as figuras.
- Ele ainda nem ps o sobrenome na caixa do correio. E ningum o v sair do prdio durante o dia. Nem mesmo a sra. Wolinsky, e olha que ningum escapa quele olhar 
de falco.
- Talvez ele seja um vampiro.
- Uau... - Intrigada com a idia, Jody apertou os lbios. - Sabe que essa hiptese seria mesmo excitante?
- Excitante demais - anuiu Cybil, voltando a se concentrar no desenho, enquanto Jody retomava sua caminhada impaciente pelo estdio, falando sem parar.
Cybil nunca se importara em ter companhia enquanto trabalhava. Na verdade, at gostava disso. No era do tipo que gostava de isolamento e quietude. Talvez por esse 
motivo se sentisse to feliz vivendo em Nova York, em um prdio de apartamentos cheio de vizinhos animados e, quase sempre, muito barulhentos.
Aquele tipo de coisa a satisfazia no apenas em nvel pessoal, mas tambm servia de base para seu prprio trabalho.
De todos os moradores do prdio, Jody Myers era sua vizinha preferida. Trs anos antes, quando Cybil se mudara para o prdio, Jody era uma enrgica recm-casada 
que acreditava plenamente que todo mundo tinha de ser to feliz quanto ela. E felicidade, para Jody, era sinnimo de casamento.
Depois que se tornara me de Charlie, um adorvel beb de oito meses, Jody passara a se empenhar ainda mais em sua campanha casamenteira. E Cybil sabia muito bem 
que era a principal "vtima" da amiga.
- Nem mesmo o viu no corredor? - Jody quis saber.
- Ainda no.
Pensativa, Cybil pegou uma caneta e apoiou-a entre os lbios rosados e polpudos. Seus olhos expressivos eram de um profundo tom de verde, semelhante ao das guas 
de algumas praias privilegiadas ao redor do mundo. Os suaves matizes amarelados, que permeavam o estonteante tom de verde das ris, sugeriam a imagem das luzes do 
crepsculo sobre o mar. Seriam considerados "olhos de tigresa", no fosse o fato de viverem constantemente iluminados por um brilho de bom humor.
- Acho que a sra. Wolinsky est  perdendo a prtica. Eu o vi sair do prdio durante o dia, o que elimina a "hiptese vampiresca".
- Viu mesmo? - Jody se aproximou dela no mesmo instante, com ar de interesse. - Quando? Onde? Por qu?
- Quando? De madrugada. Onde? Indo na direo leste da cidade. Por qu? Por causa de uma crise de insnia. - Decidindo entrar na brincadeira, Cybil girou a cadeira, 
mostrando um brilho de divertimento no olhar.
- Acordei cedo e fiquei pensando nos biscoitos que sobraram da festa da outra noite.
- Biscoitos atmicos - brincou Jody.
- Sim. E no consegui voltar a dormir at provar outro deles. J que havia levantado e estava sem sono, decidi vir at aqui trabalhar um pouco e, em certo momento, 
acabei indo parar diante da janela. Foi quando o vi sair. Alis,  impossvel no not-lo. Deve ter um metro e oitenta, mais ou menos. E aqueles ombros...
As duas reviraram os olhos, imaginando como deveria ser tudo aquilo de perto.
- Bem, ele estava carregando uma espcie de mochila de ginstica e trajava jeans e camiseta pretos. Portanto, deduzi que ele estivesse saindo para o trabalho, em 
alguma academia. Ningum consegue ter aqueles ombros comendo batatinhas fritas e bebendo cerveja por a, meu bem.
- A-ha! - Jody estalou os dedos no ar. - Voc est interessada.
- No estou morta, Jody. Ele  lindo de morrer. E como se no bastasse isso, aquele ar misterioso e o traseiro perfeito moldado no jeans justo... - Cybil levantou 
as mos no ar. - O que mais uma mulher pode fazer, seno fantasiar?
- E por que s fantasiar? Por que no bate  porta dele e lhe oferece alguns biscoitos ou algo do gnero? D-lhe as boas-vindas como vizinha. Quem sabe, assim, conseguir 
descobrir o que ele faz l dentro o dia inteiro. Tente descobrir se ele  solteiro, no que trabalha... Se  solteiro... E o que... - Ela se interrompeu, levantando 
a cabea, em alerta. - Charlie est acordando.
- Eu no ouvi nada. - Cybil virou a cabea, mirando o ouvido na direo da porta. Concentrou-se, mas no ouviu nada. 
- Puxa, Jody, desde que deu  luz est com uma audio de morcego.
- Vou troc-lo e lev-lo para um passeio. Quer vir tambm?
- No, no posso. Preciso trabalhar.
- Nos veremos  noite, ento. O jantar ser s sete horas.
- Est bem.
Jody foi at o quarto de Cybil, onde havia deixado o filho dormindo, e o pegou no colo. Acenou para a amiga, ao passar pela porta do estdio, e saiu em seguida. 
Cybil sorriu consigo. Jody podia at ser meio excntrica, mas havia se tornado uma me maravilhosa.
Com uma careta, lembrou-se do jantar que teria pela frente. Um jantar tedioso com Frank, primo de Jody. Quando criaria coragem para dizer a Jody que parasse de tentar 
lhe arranjar um pretendente? Provavelmente no mesmo instante em que reunisse coragem para dizer o mesmo  sra. Wolinsky, concluiu. E  sra. Peebles do primeiro andar. 
Por que as pessoas insistiam em manter aquela obsesso de ficar lhe arranjando pretendentes?
Estava com vinte e quatro anos, era solteirssima e feliz por isso. No que no pensasse em formar uma famlia algum dia. Como qualquer garota, queria ter uma casa 
confortvel, com um jardim onde seus filhos pudessem brincar. Ah, e um cachorro... Sim, teria de haver um cachorro. Mas isso era coisa para o futuro. Gostava de 
sua vida no presente e no pensava em mud-la. No mesmo.
Mantendo os cotovelos sobre a mesa de desenho, apoiou o queixo sobre as mos unidas e se permitiu olhar atravs da janela e divagar um pouco. Devia ser o ar da primavera, 
pensou, que a estava fazendo se sentir to inquieta e cheia de energia.
Considerou a possibilidade de sair com Jody e o beb para se distrair um pouco, mas logo em seguida viu sua amiga j no porto do prdio, saindo para seu passeio. 
Suspirou. Bem, no estava mesmo com vontade de sair.
"Ento desenhe, Cybil Campbell", pensou consigo, voltando a se concentrar na mesa de trabalho, onde os primeiros esboos de sua tira de jornal aguardavam ser terminados.
- Amigos e vizinhos - leu o ttulo em voz alta.
Tinha uma mo bastante firme e treinada para desenhar, por isso os traos seguintes foram surgindo naturalmente, sem grande esforo. Sua me era uma .artista de 
sucesso, reconhecida internacionalmente. Seu pai, o gnio recluso por trs das famosas tiras de jornal do personagem "Macintosh". Juntos, haviam transmitido a ela 
e aos irmos o amor pela arte, o senso do ridculo e uma slida formao.
Mesmo depois de haver deixado a atmosfera de segurana da casa dos pais, em Maine, Cybil sabia que seria aceita de volta com todo carinho, se Nova York a rejeitasse.
Mas, felizmente, no fora o que acontecera. Havia mais de trs anos que vinha apresentando suas tiras cmicas em um famoso jornal local e seu trabalho estava ganhando 
cada vez mais reconhecimento. Sentia-se orgulhosa disso, orgulhosa da simplicidade, do contexto agradvel e do humor que conseguia criar com seus personagens, em 
situaes vividas no dia-a-dia. No tentava imitar a ironia de seu pai ou as stiras polticas que ele costumava fazer. Seu estilo era outro. Para ela, a vida era 
uma fonte de risos. Entrar em uma fila quilomtrica para ir ao cinema, encontrar um par de sapatos que combinasse com a roupa, sobreviver a outro almoo de negcios, 
esse tipo de coisa.
Enquanto muitos viam sua personagem, Emily, como uma criao autobiogrfica, Cybil a via sempre como uma maravilhosa fonte de idias, nunca como um reflexo de si 
mesma. Afinal, Emily era uma linda loira alta que vivia sempre com problemas para se manter nos empregos e para arranjar namorados.
Cybil, por outro lado, era morena, de estatura mediana, e tinha uma carreira bem-sucedida. Quanto aos homens, bem, eles no eram exatamente uma prioridade em sua 
vida para que ficasse se preocupando muito com isso.
Um ar de censura surgiu em sua expresso, fazendo-a estreitar os belos olhos verdes ao se flagrar tamborilando a caneta, em vez de estar usando-a para trabalhar. 
No estava conseguindo se concentrar. Passou a mo nos cabelos castanho-claros, mordeu o lbio bem delineado e deu de ombros. Talvez estivesse precisando mesmo parar 
um pouco e comer alguma coisa. Provavelmente um chocolate resolvesse seu problema.
Empurrou a cadeira para trs, colocando a caneta atrs da orelha, repetindo o gesto do qual vinha tentando se livrar desde a infncia. Ento deixou o estdio ensolarado 
e desceu para o andar de baixo.
Seu apartamento dplex era incrivelmente arejado e um pouco separado de seu local de trabalho. Alis, fora justamente esse o motivo que a levara a ficar ali quando 
se mudara para Nova York. Um longo balco separava a cozinha da sala, criando um espao aberto e agradvel para receber visitas. As janelas amplas permitiam que 
a luz do sol entrasse com vigor no ambiente, criando uma atmosfera saudvel. Nos primeiros dias em que se mudara para ali, o nico problema que tivera de enfrentar 
fora o barulho vindo da rua, que a mantinha acordada durante a maior parte da noite. Nova York nunca dormia, mas, aos poucos, ela acabara se acostumando com isso.
Com seu andar elegante, outra caracterstica herdada de sua me, Cybil encaminhou-se descala para a cozinha. Tinha pernas esguias, adquiridas na poca em que implorara 
para fazer aulas de bal, s para, pouco depois, enjoar e abandonar o curso.
Cantarolando baixinho, abriu a geladeira e examinou seu interior. Poderia preparar alguma coisa para si. Tambm havia tido lies de culinria na adolescncia, e 
s se cansara delas quando sua criatividade comeara a sobrepujar  de sua instrutora.
Suspirou, quando comeou a ouvir aquele som que j estava se tornando familiar. Atravessando as paredes do prdio e o corredor, a msica lhe chegou aos ouvidos com 
a mesma suavidade dos ltimos dias. Triste e sexy, pensou ela. Era assim que definia aquela espcie de lamento do sax alto. O sr. Misterioso do 3B no tocava todos 
os dias, mas Cybil gostaria que ele o fizesse.
Aquelas lnguidas notas prolongadas surtiam um efeito estranho em seu ser. Uma espcie de emoo que ela no sabia explicar. Bem, talvez porque a msica era sempre 
tocada com muita emoo.
Seria ele um msico em comeo de carreira, tentando encontrar seu lugar ao sol em Nova York? Sem dvida, devia ter sofrido alguma desiluso amorosa para tocar daquele 
jeito, pensou ela, enquanto tirava alguns ingredientes dos armrios. Devia haver uma mulher por trs de todo aquele sentimentalismo. Provavelmente uma ruiva deslumbrante 
que o enfeitiara com seus encantos sedutores, fizera-o abrir o corao e depois pisara nele, ainda vivo, vulnervel e pulsante, com seu salto de sete centmetros.
Poucos dias antes, havia inventado um contexto diferente para seu novo vizinho. Nele, o sr. Misterioso havia sado da casa de sua renomada famlia com dezesseis 
anos. Vivera nas ruas, tocando sax nas esquinas de Nova Orleans, uma de suas cidades preferidas, e recebendo alguns trocados por isso. Depois seguira em direo 
ao norte, enquanto aquela mesma famlia perseguidora, liderada por um tio insano, vasculhava o pas  procura dele.
No desenvolvera muito bem a idia do motivo pelo qual eles eram perseguidores, mas isso tambm no importava muito. Ele estava buscando seu lugar ao sol no mundo, 
confortado apenas por sua msica.
Tambm havia a possibilidade de ele ser um agente federal trabalhando disfarado. Ou um ladro de jias internacional fugindo de um agente do governo. Ou, quem sabe, 
um serial killer  procura da prxima vtima.
Sorriu consigo, ento olhou para os ingredientes que havia acabado de separar sem prestar muita ateno. Quem quer que ele fosse, ponderou com outro sorriso, pelo 
visto estava prestes a ganhar biscoitos feitos por ela.

O nome dele era Preston McQuinn. No se considerava particularmente misterioso, apenas reservado. De fato, fora justamente o desejo de privacidade que o levara, 
ironicamente, a ir parar bem no corao de uma das maiores cidades do mundo.
Felizmente, seria por pouco tempo, pensou ele guardando o sax na maleta prpria para o instrumento. Seria por pouco tempo. Com sorte, dali a alguns meses a reforma 
de sua casa na costa rochosa de Connecticut estaria terminada. Algumas pessoas diziam que o lugar parecia um forte, mas ele no se importava com isso. Pelo menos 
em um forte era possvel se ter paz e silncio durante semanas, caso fosse necessrio. Alm disso, ningum podia entrar no local sem permisso.
Comeou a subir a escada, deixando para trs a sala praticamente vazia. Costumava ficar ali apenas quando decidia tocar, pois a acstica do ambiente era tima. Ou 
ento para se exercitar, quando no tinha vontade de caminhar at a academia alguns quarteires adiante.
O segundo andar era o local onde ele passava a maior parte do tempo. Mas felizmente aquilo no duraria muito, pensou mais uma vez. Tudo que precisava enquanto estava 
ali era de uma cama, um guarda-roupa, iluminao adequada e uma mesa de escritrio com um tamanho suficiente para comportar seu notebook e os papis de trabalho 
que ele costumava usar. No quisera ter um telefone, mas sua agente insistira para que ele mantivesse pelo menos um telefone celular, para o caso de ela precisar 
entrar em contato com ele. Preston aceitara a idia, mesmo no gostando dela.
Sentou-se  mesa de trabalho, satisfeito por seus pensamentos estarem mais claros depois do breve exerccio com o sax. Mandy, sua agente, andava preocupada com o 
progresso de seu ltimo roteiro teatral. Mas, em sua mente, tudo j estava bem definido. A pea ficaria pronta quando tivesse de ficar, e nem um minuto antes. Fora 
assim que ele sempre trabalhara, e no seria quela altura de sua carreira que iria mudar de atitude, devido ao nervosismo de uma agente.
O problema com o sucesso, pensou ele, era o nvel de cobrana que ele trazia consigo. Ao fazer algo que as pessoas apreciavam, voc era sempre cobrado a repetir 
o feito, s que de maneira mais rpida e mais eficiente. Preston no dava a mnima para o que as pessoas queriam. Elas poderiam arrombar as portas do teatro para 
ver sua prxima pea, laure-lo com outro Pulitzer ou lhe pagar um caminho de dinheiro. Nada disso era importante para ele. Tambm no dava a mnima para crticas. 
Se o pblico no gostasse, que fosse  bilheteria e exigisse seu dinheiro de volta.
Para Preston, o trabalho em si era o mais importante. E isso dizia respeito apenas a ele e a mais ningum.
Financeiramente, estava seguro como sempre estivera. Mandy costumava dizer que isso era parte do problema. Sem a necessidade ou o desejo de ganhar dinheiro para 
incentiv-lo, ele havia se tornado arrogante e indiferente ao pblico. Por outro lado, dizia ela, isso tambm era o que o tornava um gnio da criao teatral. Preston 
no se importava com nada, e isso era o que fazia seu trabalho ser to especial.
Continuou sentado  mesa, pensativo. Porm, logo despertou do devaneio e passou a mo por entre os cabelos castanho-avermelhados. Seus olhos, de um azul intenso, 
perscrutaram as ltimas palavras que havia digitado. A expresso sria e os lbios ligeiramente apertados denotavam sua concentrao.
Com os rudos caractersticos da rua chegando-lhe aos ouvidos, Preston estava tendo de se esforar mais para voltar a penetrar na alma do homem que ele havia criado 
no texto mostrado na tela do computador. Um homem que lutava desesperadamente para superar os prprios desejos.
De sbito, o incmodo som da campainha o fez praguejar, desconcentrando-o mais uma vez. Pensou em continuar ali e no dar ateno, mas sua noo da natureza humana 
o fez mudar de idia, ao concluir que provavelmente o intruso continuaria insistindo at obter uma resposta. Por isso, decidiu despach-lo de uma vez por todas.
Imaginou que se tratasse da senhora do andar trreo. Aquela com olhos de guia, que parecia viver bisbilhotando a vida de todos. Ela j havia tentado abord-lo por 
duas vezes quando ele estava saindo para o clube  noite, mas no tivera xito. Preston sempre fora muito bom em escapar quele tipo de situao, mas aquela insistncia 
j estava comeando a aborrec-lo. Seria melhor bancar o mal-educado de uma vez e deixar que ela sasse falando mal dele, afinal, no era do tipo que se importava 
com isso.
Porm, ao espiar atravs do olho mgico, no se deparou com a mulher corpulenta que ele havia imaginado estar ali, mas com uma bela morena de cabelos castanhos e 
lindos
olhos verdes.

O que diabos ela poderia querer? Reconheceu-a como uma vizinha do mesmo corredor, cujo apartamento ficava quase em frente ao que ele estava ocupando. Depois de haver 
sido deixado em paz por quase uma semana, imaginara que a situao fosse continuar assim. O que, em sua mente, faria dela a vizinha perfeita. Mas, pelo visto, enganara-se 
mais uma vez.
Ainda aborrecido por ter sua paz perturbada, abriu a porta e apoiou-se nela. - Sim?
- Ol. - Oh, Deus, ele era a ainda mais bonito de perto, pensou Cybil, contendo a vontade de suspirar. 
- Sou Cybil Campbell, sua vizinha do 3A - apresentou-se com um sorriso amigvel, in- dicando a porta de seu apartamento.
Preston se limitou a arquear uma sobrancelha.
- Pois no?
Um homem de poucas palavras, concluiu Cybil, mantendo o sorriso. Desejou que ele se distrasse pelo menos por um instante, para que ela pudesse esticar o pescoo 
e dar uma espiada no interior do apartamento. Claro que no poderia tentar fazer isso com aquele olhar perscrutador centrado bem em seu rosto, sem nenhuma indicao 
de que iria se desviar.
- Eu o ouvi tocar h alguns minutos. Trabalho em casa e, voc sabe como ... O som atravessa as paredes.
Se ela fora at ali para reclamar do barulho, no iria conseguir nada, pensou Preston. Ele tocava quando sentia vontade de tocar, e isso no mudaria devido  mera 
reclamao de uma vizinha, por mais encantadora que fosse ela.
Continuou a observ-la com ateno. Nariz arrebitado, lbios polpudos, sensualmente curvados...
- Geralmente esqueo de ligar o aparelho de som quando estou trabalhando - continuou ela em um tom animado, interrompendo os pensamentos de Preston. - Por isso gosto 
de ouvi-lo tocar. Ralph e Sissy ouviam Vivaldi durante a maior parte do tempo. No deixa de ser agradvel, mas se torna montono quando isso  a nica coisa que 
voc ouve o dia inteiro. Eram eles que ocupavam o apartamento antes de voc se mudar. Ralph e Sissy - acrescentou ela, indicando o apartamento atrs dele. 
- Eles se mudaram para White Plains, depois que Ralph teve um caso com uma vendedora da Saks. Bem, ele no chegou a ter um caso de verdade, mas parecia estar pensando 
na possibilidade. Por isso Sissy deu-lhe o ultimato: se no mudassem de cidade, ela pediria o divrcio. A sra. Wolinsky deu seis meses de prazo para os dois continuarem 
juntos. Particularmente, acho que eles vo conseguir resolver o problema.
Dizendo isso, mostrou um prato com uma simptica decorao com detalhes amarelos cheio de biscoitos de chocolate cobertos por um plstico protetor, prprio para 
alimentos.
- Estes biscoitos so para voc - disse, estendendo o prato na direo dele.
Preston abaixou a vista para olh-los, dando a Cybil a breve oportunidade de espiar a sala vazia atrs dele. Pelo visto; ele no tivera condies nem mesmo de comprar 
um sof, pensou ela. Ento os introvertidos olhos azuis voltaram a fit-la.
- Por qu?
- Por que o qu?
- Por que me trouxe os biscoitos?
- Bem, fui eu mesma que os fiz. s vezes, cozinho para arejar um pouco a cabea, quando no estou conseguindo me concentrar no trabalho. Na maioria das vezes,  
cozinhando que eu consigo relaxar o suficiente para voltar a trabalhar. Mas se eu ficar com tudo isso, acabarei comendo tudo sozinha e vou me detestar por isso. 
- O brilho bem-humorado continuou presente nos olhos verdes. 
- No gosta de biscoitos?
- No tenho nada contra eles.
- Ento, sirva-se - falou Cybil, entregando o prato a ele. 
- E bem-vindo ao prdio. Se precisar de alguma coisa, estou sempre por aqui. - Indicou a porta do outro apartamento com um gesto vago. - Se quiser conhecer os outros 
vizinhos, tambm poderei apresent-lo a eles. Moro aqui h alguns anos e conheo todo mundo.
- No quero conhecer ningum - respondeu Preston, dando um passo atrs e fechando a porta.
Cybil ficou ali parada por algum tempo, atnita com o que acabara de acontecer. Em seus vinte e quatro anos de vida, nunca algum havia fechado a porta em sua cara, 
mas, mesmo tendo acabado de passar pela experincia, felizmente concluiu que aquilo no a afetara tanto assim.

No entanto, teve de se conter para no bater  porta e pedir seus biscoitos de volta. No iria descer to baixo, disse a si mesma, girando decididamente sobre os 
calcanhares e encaminhandose para seu apartamento.
Agora sabia que o sr. Misterioso era irresistivelmente atraente, que tinha o corpo de um deus grego e tambm que ele era to mal-educado quanto uma criana de dois 
anos necessitada de umas boas palmadas no traseiro. Mas tudo bem, tudo bem. Iria sobreviver quilo e aprender a ficar longe do caminho dele.
No bateu a porta de seu apartamento, para no dar a ele o gostinho de ouvir e deduzir que ela ficara irritada. Mas ao se ver no ambiente seguro de seu apartamento, 
virou-se para a porta e fez uma poro de caretas, mostrando a lngua e mexendo as mos ao lado das orelhas. E isso a fez se sentir incrivelmente melhor.
Contudo, a questo principal era que ele havia ficado com seus biscoitos, seu prato de sobremesa preferido e com uma boa dose do seu bom humor. E tudo isso sem que 
ela sequer soubesse o nome dele!

Preston no se arrependia das atitudes que tomava. Nem por minuto. Tinha quase certeza de que sua rudeza propositada manteria sua atraente vizinha a distncia por 
algum tempo. A ltima coisa que precisava era do comit local de boas vindas reunido  sua porta, principalmente sendo este liderado por uma bela morena falante, 
falante at demais, e com olhos de fada.

"Droga!", praguejou ele, em pensamento. Em Nova York, era de se supor que as pessoas ignorassem os vizinhos. Ao se mudar para ali, tinha quase certeza de que esse 
era o comportamento vigente, mas, pelo visto, enganara-se.
A sorte era que ela era solteira, segundo Preston pudera notar, pois se tivesse um marido, o pobre coitado provavelmente j estaria maluco com toda aquela tagarelice. 
O fato de ela trabalhar em casa e de haver deixado claro que estaria sempre por ali no era um detalhe l muito agradvel.
Como se no bastasse, tambm fazia os biscoitos de chocolate mais apetitosos que ele j tinha visto,        isso tambm no era nada promissor. De fato, era quase 
imperdovel.
Conseguiu ignorar os biscoitos por algum tempo enquanto trabalhava. Na verdade, era capaz de ignorar at mesmo um holocausto nuclear quando assunto em questo era 
lidar com palavras em um texto. Entretanto, assim que Preston se desconcentrou voltou a lembrar-se dos biscoitos que havia deixado na cozinha.
Continuou pensando neles durante horas, ao se vestir e enquanto massageava a nuca dolorida depois de horas sentado no mesmo lugar, em uma postura que sua professora 
do terceiro ano fundamental, irm Mary Joseph, classificaria como "deplorvel".
Por isso, quando foi  cozinha buscar sua merecida latinha de cerveja, no conseguiu deixar de olhar para o prato sobre a mesa. Abriu a latinha, tomou um gole de 
cerveja e continuou olhando para os biscoitos, pensativo. E se provasse alguns deles? Afinal, no havia motivo para jog-los fora, se j havia deixado bem claro 
para Cybil Campbell que no estava interessado em amizades.
Evidentemente, ela iria querer o prato de volta, e ele teria de esvazi-lo de alguma maneira. Foi ento que provou um deles e gemeu baixinho, aprovando o delicioso 
sabor. Depois comeu outro, com um suspiro de pura apreciao.
Quando j havia comido quase duas dzias, foi que se deu conta do que estava fazendo e praguejou. Olhou para o prato quase vazio com um misto de autocensura e de 
indignao. Ento foi para a sala e pegou seu sax. Seria mais saudvel fazer uma breve caminhada antes de ir para o clube.
Ao abrir a porta, ouviu Cybil se aproximando com passos firmes pelo corredor. Com ar de desagrado, ele deu um passo atrs, deixando apenas um pequeno vo aberto 
na porta. Mesmo a certa distncia, ouviu a voz dela e arqueou- uma sobrancelha ao notar que ela estava sozinha.
- Nunca mais! - protestou Cybil. - Nem que ela me ameace de morte. Nunca mais passarei por essa tortura novamente!  isso, e ponto final!
Preston notou que ela havia mudado de roupa. Estava vestida com uma pantalona e um blazer pretos, por cima de uma elegante blusa de seda lils. Um par de brincos 
de argola dourados deixaram-na com uma aparncia mais sensual.

Continuou falando sozinha, enquanto abria a bolsa do tamanho de um envelope do correio.
- A vida  curta demais para ter suas horas desperdiadas com uma pessoa to insuportvel. Ela no vai me fazer isso novamente. Sei como dizer "no", e  isso que 
farei da prxima vez. Preciso apenas praticar um pouco, s isso. Onde diabos est aquela chave?
O som de uma porta se abrindo atrs dela a fez se sobressaltar e virar-se de repente. Preston, notou que os brincos que ela estava usando no eram totalmente iguais 
e imaginou se aquilo seria um novo tipo de moda ou falta de ateno mesmo. Porm, ao se lembrar de que ela no estava conseguindo encontrar uma chave dentro de uma 
bolsa menor do que a palma de sua mo, optou pela ltima hiptese.
Cybil parecia refrescada, como se houvesse acabado de sair do banho, deixando para trs uma nuvem de um perfume maravilhoso. E o fato de Preston haver se sentido 
afetado por isso, deixou-o ainda mais aborrecido.
- Espere um pouco - pediu a ela, ento voltou ao apartamento para pegar o prato.
Cybil no tinha a mnima inteno de ficar ali esperando. Finalmente encontrou o esconderijo da chave: no canto do bolso interno, onde ela mesma a havia colocado 
justamente para se lembrar de onde encontr-la quando fosse necessrio.
Preston conseguiu alcan-la antes que ela entrasse. Saiu do apartamento pouco depois e fechou a porta atrs de si. Em uma mo, trazia a maleta do sax e na outra 
o prato onde Cybil havia colocado os biscoitos.
- Aqui est - disse a ela, jurando a si mesmo que no iria perguntar o que provocara aquele brilho de indignao nos olhos dela. Se o fizesse, era bem capaz que 
ela passasse a meia hora seguinte contando a histria a ele.
- De nada - ironizou ela, aceitando o prato.
Estava com a cabea doendo, depois de haver passado as duas ltimas horas ouvindo a conversa montona de Frank, primo de Jody. Mas do que estava reclamando?, pensou 
com sarcasmo. Afinal, agora estava sabendo tudo sobre o mercado de aes e sobre as aplicaes mais seguras que poderiam ser feitas nele. Levada pelo mau humor, 
decidiu dizer poucas e boas ao sr. Misterioso.
- Oua, se no quer fazer novas amizades, tudo bem. No preciso mesmo de mais amigos - declarou ela, balanando o prato para enfatizar o que dizia. 
- Na verdade, tenho tantos no momento que estou querendo me livrar de alguns deles. De qualquer maneira, no havia motivo para voc ser to rude. Tudo o que fiz 
foi me apresentar e lhe oferecer alguns malditos biscoitos!
Preston teve de se esforar para se manter srio.
- Malditos biscoitos deliciosos - confessou ele, arrependendo-se assim que viu um brilho de divertimento surgir nos olhos dela.
- E mesmo?
- Sim.
Dizendo isso, ele seguiu pelo corredor em direo  sada, deixando-a surpresa com aquela reao.
Foi ento que Cybil decidiu seguir seu impulso, um de seus hobbies preferidos. Destrancou rapidamente a porta de seu apartamento e deixou o prato sobre a mesinha 
de centro. Em seguida, saiu novamente e trancou a porta. Ento comeou a seguir o sr. Misterioso, esforando-se para no fazer nenhum barulho ao andar.
Seria um timo roteiro para uma nova aventura de Emily, pensou ela, contendo a vontade de rir. Claro que seria preciso criar um contexto onde Emily estivesse completamente 
apaixonada, concluiu, enquanto tentava descer a escada com rapidez e na ponta dos ps. Uma atitude como aquela no poderia ser justificada como normal, advinda de 
uma mera curiosidade. Teria de ser algo mais intenso, uma espcie de paixo desenfreada.
Ofegante sob o efeito de uma intensa expectativa, flagrou-se com a mente repleta de possibilidades. Ao sair do prdio, olhou rapidamente para os lados.
Ele j se encontrava no meio do quarteiro. Uma boa distncia, concluiu Cybil, comeando a segui-lo e disfarando um sorriso.
Em seu lugar, claro que Emily manteria um ar de mistrio, escondendo-se atrs de postes e nas esquinas, para o caso de ele se virar de repente e...
Com um sobressalto, escondeu-se de repente atrs de um poste, quando a "vtima" de sua perseguio arriscou um olhar por sobre o ombro. Levando a mo ao peito, Cybil 
inclinou-se ligeiramente para frente a tempo de v-lo virar a esquina.
Aborrecida por haver decidido usar saltos em vez de sapatos mais confortveis para o jantar, ela respirou fundo e seguiu na mesma direo onde ele havia virado.
Seu vizinho caminhou durante vinte minutos, at Cybil sentir os ps em chamas e todo aquele nimo inicial se desfazendo como uma nuvem assaltada por um sopro insistente. 
Teria ele aquela mania de caminhar todas as noites pelas ruas com o saxofone?
Talvez no fosse apenas mal-educado, mas tambm maluco. Provavelmente fora liberado de algum hospcio naqueles ltimos dias, e por isso no sabia ao certo como se 
dirigir s pessoas de uma maneira normal.
A famlia abastada e cruel o mantivera em uma espcie de cativeiro, afastando-o do resto do mundo para que ele no reivindicasse seus direitos sobre a herana da 
av falecida, que morrera sob circunstncias suspeitas, deixando toda sua fortuna para o neto. Por fim, era provvel que todos aqueles anos de cativeiro, tendo de 
lidar com um psiquiatra corrupto, haviam-no deixado meio amalucado.
Sim, seria exatamente isso que Emily deduziria, chegando  concluso de que somente seu amor puro e dedicado seria capaz de cur-lo. Ento todos os amigos e vizinhos 
tentariam dissuadi-la, tentando mostrar os riscos que ela estaria correndo. Mas Emily, sendo Emily, iria at o fim.

E antes que o sr. Misterioso pudesse...
Cybil parou de repente, quando ele entrou em um clube chamado Delta's.
Finalmente, pensou ela, afastando os cabelos para longe do rosto. Agora, tudo que precisaria fazer seria entrar ali, encontrar um canto escuro onde pudesse se ocultar 
e ver o que aconteceria em seguida.


CAPTULO II
O lugar tinha cheiro de usque e cigarro. No entanto, no chegava a ser necessariamente ofensivo, segundo Cybil pde notar. Era algo mais... atmosfrico, se  que 
se poderia chamar assim. O ambiente era permeado por uma iluminao suave, tendo como destaque o agradvel tom de azul dos holofotes que iluminavam o palco. Pequenas 
mesas redondas se distribuam por todo o salo, e embora a maioria delas estivesse ocupada, o nvel de rudo era bem baixo.
Cybil percebeu que as pessoas conversavam sussurrando, desfrutando a companhia umas das outras ou realizando novas conquistas.
Diante do espesso balco de madeira do bar,  direita da entrada, alguns clientes se mantinham ligeiramente inclinados sobre suas bebidas, como que protegendo-as 
de possveis invasores.
O ambiente lembrava o tipo de clube noturno que aparecia nos filmes em preto-e-branco da dcada de quarenta. Aquele tipo no qual a herona usava vestidos longos 
e justos, batom vermelho escuro e uma mecha de cabelos cado sobre o olho esquerdo, enquanto se mantinha no palco, iluminada por um nico foco de luz, interpretando 
canes a respeito de amores frustrados.
Enquanto cantava, os homens que a desejavam, e contra os quais ela fazia seu protesto, mantinham-se debruados sobre seus copos de usque, com os olhos parcialmente 
ocultos pelas abas de seus chapus.
Em outras palavras, pensou Cybil com um sorriso, o ambiente era simplesmente perfeito.
Esperando no ser notada, andou sorrateiramente junto a uma das paredes e sentou-se  mesa mais prxima. Ento passou a observ-lo atravs da nuvem formada pela 
fumaa dos cigarros.
Ele estava todo vestido de preto. Cybil no conteve um suspiro. O jeans e a camisa pretos ressaltavam ainda mais aquele ar sedutoramente msculo. A jaqueta preta 
de couro havia sido deixada sobre uma cadeira prxima ao palco. A mulher com quem ele estava conversando era uma linda negra trajando um macaco vermelho feito de 
um tecido brilhante e muito justo, evidenciando cada curva do corpo perfeito. Cybil calculou que ela devia ter mais ou menos um metro e oitenta de altura. Como se 
no bastasse toda aquela beleza, quando ela inclinou a cabea para trs, o rico som de seu riso se espalhou pelo ambiente.
Pela primeira vez, Cybil o viu sorrir. Mas aquilo no era apenas um sorriso,, pensou ela, encantada com a transformao na, expresso do atraente semblante masculino. 
Aquilo era um intenso raiar do sol aps uma noite sombria. Aquilo que o tornava to irresistivelmente atraente a seus olhos, no poderia ser chamado meramente de 
"sorriso". Era uma expresso repleta de afeio, divertimento e charme. Mesmo quela distncia, Cybil sentiu todo seu impacto. Com um suspiro, apoiou o queixo sobre 
a mo e sorriu, como se o sorriso houvesse sido dirigido a ela.
Imaginou que ele e a bela negra fossem amantes, e confirmou isso quando a mulher segurou o rosto dele entre as mos e o beijou enfaticamente. Claro que um homem 
magnfico como aquele tinha de ter uma amante, no mnimo, extica, concluiu Cybil. E o lugar perfeito para um encontro entre os dois seria um clube noturno permeado 
por fumaa de cigarro e msicas melanclicas.
Cybil suspirou alto, considerando aquilo tudo romntico demais.

No palco, Delta pousou a mo afetuosamente sobre o rosto de Preston.
- Ento, agora passou a ser seguido por mulheres, meu querido?
- Ela  maluca.
- Quer que eu a ponha para fora?
- No. - Preston no olhou para trs, mas podia sentir aqueles olhos verdes observando-o.
- Estou quase certo de que ela  uma maluca inofensiva.        
- Um brilho de divertimento surgiu nos olhos negros de Delta.
- Ento, vou s verificar se isso  mesmo verdade. Quando uma mulher comea a seguir um homem, meu querido,  melhor averiguar do que ela  capaz. Certo, Andr?
O homem negro e magro sentado ao piano parou de dedilhar as teclas por um instante e sorriu para ela, em resposta.
- Faa isso, Delta. Mas no assuste a moa. Olhando daqui, ela parece ser bastante inofensiva. Pronto para comear? - perguntou ele, dirigindo-se a Preston.
- Voc comea, eu acompanho.
Enquanto Delta descia do palco, os dedos longos de Andr comearam a exercer sua magia. Preston deixou-se levar pelo ritmo do piano, ento fechou os olhos, permitindo 
que a msica entrasse em seu ser.
Era assim que sempre acontecia. Aquilo sempre esvaziava sua mente das palavras, das pessoas e das cenas que geralmente a preenchiam. Quando ele tocava, era como 
se no houvesse nada alm da msica e do magnfico prazer de execut-la.
Certa vez, dissera a Delta que aquilo era como sexo, que tirava algo de voc mas lhe dava o dobro em troca. E que quando terminava, era como se houvesse sido rpido 
demais.
No fundo do salo, Cybil tambm se deixou levar pelo ritmo suave e contagiante da msica. Era diferente v-lo se apresentar de simplesmente ouvi-lo tocar, com o 
som abafado atravessando as paredes do prdio. V-lo ali no palco era algo mais poderoso, mais excitante, quase como um apelo sensual.

Aquela msica era um sonho. Do tipo perfeito para servir de fundo musical para um casal em pleno ato de amor. Deus, como ele tocava bem, pensou ela, mal contendo 
outro suspiro. Ser que ele faria amor com aquela mesma intensidade? O pensamento provocou-lhe um arrepio pelo corpo.
Estava to concentrada no que estava acontecendo no palco que no viu Delta se aproximar da mesa.
- Est gostando, meu bem?
- Hein? - Cybil levantou a vista, sorrindo com ar de distrao. - Oh,  maravilhoso. Quero dizer, a msica  maravilhosa. Causa uma espcie de nostalgia em mim.
Delta arqueou uma sobrancelha. A garota tinha um rosto lindo e at inocente. No parecia ser a luntica que Preston descrevera.
- Est bebendo ou apenas ocupando o lugar?
- Oh. - Cybil se deu conta de que um lugar como aquele se sustentava pela venda de bebidas. - Esta msica pede um usque - disse com outro sorriso. - Ento vou tomar 
um usque.
Delta arqueou a sobrancelha com mais nfase.
- Voc no parece ter idade suficiente para andar tomando usque por a, mocinha.
Cybil suspirou. Estava acostumada a ouvir aquele tipo de coisa. Sem dizer nada, abriu a bolsa e tirou seu documento de identidade.
Delta o examinou.
- Est bem, Cybil ngela Campbell. Vou pegar seu usque.
- Obrigada.

Satisfeita, Cybil apoiou o queixo sobre a mo mais uma vez e continuou ouvindo a msica. Ficou surpresa quando Delta voltou com dois copos de usque e sentou-se 
 mesa, a seu lado.
- O que est fazendo em um lugar como este, minha cara Cybil?
Ela abriu a boca para responder, mas, no mesmo instante, deu-se conta de que no poderia revelar que seguira seu misterioso vizinho at ali.
- Moro perto daqui, e acho que apenas segui um impulso. - Levantou o copo de usque e indicou o palco com ele. 
- Estou contente de ter vindo - disse e tomou um gole da bebida.
Delta apertou os lbios. A garota podia at parecer inocente, mas tomava usque como um homem.
- Se continuar andando sozinha pelas ruas,  noite, pode acabar tendo problemas, minha cara.
Um brilho de sagacidade surgiu nos olhos de Cybil, acima da borda do copo.
- No se preocupe, minha cara - respondeu ela, no mesmo tom.
Delta assentiu, considerando a resposta.
- Talvez no seja mesmo preciso eu me preocupar. Sou Delta Pardue - acrescentou ela, tocando o copo no de Cybil, em um brinde. - Este  meu clube.
- Gostei do seu clube, Delta.
- Ora, que bom - admitiu ela, com outra de suas ricas risadas. - Mas vejo que tambm gostou do meu homem, logo ali. No tirou seus olhos felinos dele desde que chegou.


Cybil moveu o usque no copo, pensando em como deveria atuar naquele jogo. Mesmo sabendo que poderia se cuidar nas ruas, ou em qualquer outro lugar, calculou que 
Delta era muito mais forte do que ela. Alm disso, estavam no territrio de Delta, e sua desvantagem era mais do que evidente. Aquele modo de dizer "meu homem" deixara 
a situao bem clara. De qualquer maneira, no havia motivo para estragar logo no primeiro encontro aquilo que poderia se transformar em uma boa amizade.
- Seu homem  muito atraente - admitiu, em um tom casual. - Confesso que  difcil no olhar para ele. Portanto, vou continuar apenas olhando se isso no a incomodar. 
Alm do mais, aposto que ele no tem olhos para outra mulher tendo algum como voc por perto.
Delta riu, exibindo os dentes alvos e perfeitos.
- Acho que no preciso realmente me preocupar. Sabe mesmo se cuidar, no , menina?
Cybil sorriu, tomando outro gole de usque.
- Sim, eu sei. - Decidindo mudar de assunto, ela acrescentou: - Gostei mesmo deste lugar. H quanto tempo voc o tem, Delta?
- Estou aqui h dois anos.
- E antes? Esse seu sotaque  de Nova Orleans, no ?        -
Delta inclinou a cabea de lado, com um sorriso.
- Tem bons ouvidos, garota.
- Tenho sim, mas foi fcil reconhecer seu sotaque. Tenho famlia em Nova Orleans e minha av foi criada l.

- No conheo nenhum Campbell... Qual  o sobrenome de solteira de sua me? - Grandeau.
Delta se encostou uma cadeira.
- Ei, conheo os Grandeau! Por acaso,  parente da srta. Adelaide?
- Ela  minha tia-av.
- Grande dama - asseverou Delta.
Cybil fez uma careta, tomando outro gole de usque.
- Impaciente, ranzinza e fria como um iceberg. Os gmeos e eu costumvamos pensar que ela fosse algum tipo de bruxa ou algo do gnero.
- Gmeos? - Delta se surpreendeu.
- Sim, meu irmo e minha irm so gmeos - explicou Cybil.
Aps uma breve pausa, Delta falou:
- Ela tem poder, mas apenas por causa do dinheiro e do sobrenome que carrega. Ento voc  parente dos Grandeau? Mas que agradvel surpresa. Quem  sua me?
- Genvive Grandeau Campbell, a famosa artista.
- Srta. Gennie. - Delta deixou o copo sobre a mesa e levou a mo ao peito, encostando-se na cadeira com um sorriso. 
- Quem diria que a filha da srta. Gennie algum dia visitaria minha boate. O mundo  mesmo pequeno.
- Conhece minha me?
- Minha me trabalhou como governanta para sua grandmre, minha cara.
- Mazie? Voc  filha de Mazie? Ah, meu Deus!

- Cybil tocou a mo de Delta, comovida. - Minha me falava de Mazie o tempo todo. Ns chegamos a visit-la uma vez, quando eu ainda era criana. Lembro que ela fez 
bolinhos maravilhosos para ns - acrescentou com um sorriso saudosista. - Sentamos na varanda da casa, tomando limonada enquanto comamos aqueles bolinhos divinos. 
Meu pai fez um desenho dela.
- Ela mandou emoldur-lo e pendurou o quadro na parede. - Delta riu. 
- Vivia toda orgulhosa dele. Eu estava na cidade quando sua famlia nos visitou. Estava trabalhando. Minha me falou daquela visita durante semanas. Ela gostava 
muito da srta. Gennie.
- Espere at eu contar a eles que encontrei voc. Como est sua me, Delta?
- Ela morreu no ano passado.
- Oh. - Cybil segurou a mo de Delta com mais firmeza. - Sinto muito. Muito mesmo.
- Ela teve uma boa vida. Morreu dormindo, portanto, acho que tambm teve uma boa morte. Seus pais compareceram ao funeral. Teve uma base familiar muito boa, Cybil.
- Sim, eu sei. O mesmo serve para voc - acrescentou ela, com um sorriso.

Preston no estava entendendo mais nada. L estava Delta, a mulher que ele considerava a mais sensata das criaturas, conversando com aquela maluca como se ambas 
fossem velhas amigas. Compartilhando o usque, as risadas e segurando a mo uma da outra como as mulheres costumavam fazer quando tinham muita amizade.
As duas j estavam ali, no fundo do salo, havia mais de uma hora. De vez em quando, Cybil comeava um daqueles que s poderia ser outro de seus monlogos, gesticulando 
muito e rindo. Ento Delta ouvia algumas palavras com ateno, e logo inclinava a cabea para trs, rindo com satisfao e balanando a cabea com ar de surpresa.
- Veja s aquilo, Andr - disse, inclinando-se sobre o piano.
Andr parou de tocar e acendeu um cigarro.
- Como velhas comadres - falou ele, aps a primeira baforada. - A garota  muito bonita, Preston. Tem uma animao fora do comum.
- Detesto pessoas animadas demais - resmungou Preston, j sem vontade de continuar tocando. Em silncio, comeou a guardar o sax. - At a prxima - despediu-se, 
ao terminar.
- At - foi a resposta de Andr.
Preston pensou em sair e ir direto para casa, mas sentiu-se irritado com a possibilidade de sua amiga estar sendo aborrecida por aquela luntica. Alm disso, seria 
bom mostrar  sua vizinha abelhuda que tambm estava de olho nela, e que sua perseguio no passara despercebida.
Quando parou ao lado da mesa onde as duas estavam acomodadas, Cybil se limitou a levantar a vista e sorrir para ele.
- Oi. No vai tocar mais? A msica estava maravilhosa.
- Voc me seguiu.

- Eu sei. Foi indelicado de minha parte, mas estou contente por t-lo feito. Adorei ouvi-lo tocar e nunca teria encontrado Delta se no tivesse vindo at aqui. Estvamos 
acabando de...
- Nunca mais faa isso - falou ele, antes de se encaminhar para a sada.
- Ooh, ele est mesmo uma fera. - Delta riu. - Esse olhar fuzilante  capaz de intimidar qualquer um.
- Preciso pedir desculpas a ele - declarou Cybil, ficando de p. 
- No quero que fique bravo com voc.
- Comigo? Mas...
- Voltarei logo - dizendo isso, Cybil deu um beijo estalado na face de Delta, fazendo-a pestanejar de surpresa. 
- No se preocupe, vou resolver isso.
Enquanto ela se afastava, Delta ficou observando-a por algum tempo, antes de soltar outra de suas sonoras risadas.
- No tem idia de onde est se metendo, menina. E nem meu querido Preston - acrescentou, com um brilho de divertimento no olhar.
Do lado de fora, Cybil saiu correndo pela calada.
- Ei! - gritou para Preston, que j se encontrava a certa distncia.
Ento se repreendeu por no haver sequer perguntado o nome dele a Delta, depois de todo aquele tempo de conversa.
- Ei! - repetiu, acelerando a corrida e conseguindo finalmente alcan-lo. 
- Sinto muito - comeou a falar, segurando a manga da jaqueta dele. 
- A culpa foi toda minha.
- E quem disse que no foi?
- Eu no deveria t-lo seguido. Mas foi um impulso, eu tenho dificuldade de resistir aos impulsos. Sempre tive. Alm disso, eu estava irritada por causa do idiota 
do Frank e... Bem, isso no vem ao caso agora. Eu s queria... Poderia diminuir um pouco o ritmo dos passos?
- No.
Cybil revirou os olhos.
- Tudo bem, tudo bem. Sei que est desejando que um piano caia sobre minha cabea, mas no precisa ficar bravo com Delta. Ns comeamos a conversar e acabamos descobrindo 
que a me dela trabalhou para minha av e que ela, Delta, conhece meus pais e alguns dos meus primos de sobrenome Grandeau. A partir da, no paramos mais de conversar.
Preston parou de repente e olhou para ela.
- Com tantos clubes noturnos em tantas cidades do mundo... - resmungou ele, fazendo-a rir.
- J sei: eu tinha logo de segui-lo at aquele e fazer amizade justo com sua namorada. Sinto muito.
- Minha namorada? Delta?
Para espanto de Cybil, ele sabia rir. Rir de verdade, fazendo o som grave de sua voz se espalhar pelo ar.
- Por acaso Delta parece ser namorada de algum? Puxa, parece que voc veio mesmo de outro planeta.

- Foi apenas uma suposio. Eu s no quis parecer indelicada, chamando-a de sua "amante".
O brilho de divertimento continuou nos olhos dele quando Preston voltou a fit-la.
- No deixa de ser uma idia engraada, mas a verdade  que aquele homem com quem eu estava tocando  o marido de Delta, um velho amigo meu.
- O homem alto e magro que estava ao piano?  mesmo? - Mordendo o lbio, Cybil pensou no lado romntico daquele contexto. - No  lindo? - disse quase para si mesma.
Preston se limitou a balanar a cabea e continuou a andar.
- O que eu quero dizer ... - Cybil recomeou a falar, confirmando a certeza que Preston tivera de que ela no havia terminado o raciocnio, e de que, como sempre, 
no o terminaria to cedo. 
- E que percebi que ela foi apenas verificar qual era minha inteno. Para ter certeza de que eu no iria aborrec-lo entende? Ento uma coisa acabou levando a outra, 
e voc sabe como ... S no quero que fique bravo com ela.
- No estou bravo com ela. Voc, por outro lado, j me deu razes mais do que suficientes para ficar bravo.
Cybil pareceu desapontada.
- Bem, sinto muito por isso. Prometo que o deixarei em paz, j que isso, aparentemente,  o que parece agrad-lo.
Preston ficou parado por um momento, observando-a se afastar pela rua deserta, em direo  calada oposta. Por fim, deu de ombros e virou a esquina, tentando se 
convencer de que ficara aliviado ao se livrar dela. Afinal, no era de sua conta se Cybil no se importava em se arriscar andando sozinha  noite. Alm do mais, 
se no houvesse decidido segui-lo de repente, no estaria usando aqueles saltos to altos e teria mais chance de correr, caso fosse necessrio, diante de algum perigo.
No, no iria se preocupar com isso.
Seguiu em frente com passos firmes, mas bastou percorrer alguns metros para girar sobre os calcanhares com um resmungo abafado. Iria apenas certificar-se de que 
ela chegaria em casa em segurana, s isso. Assim que tivesse certeza disso, lavaria as mos de qualquer responsabilidade e trataria de esquec-la.
Havia acabado de virar a esquina, quando se espantou com o que viu. Mais adiante, um homem surgiu das sombras e agarrou Cybil, que soltou um grito e comeou a lutar. 
Preston soltou a maleta do sax no mesmo instante e saiu correndo para ajud-la.
Entretanto, parou de repente ao ver que Cybil havia no apenas se livrado do marginal, como o atingira com um golpe certeiro do joelho em sua parte mais sensvel, 
fazendo-o cair gemendo de dor no cho.
- Eu s tinha dez mseros dlares aqui. Dez mseros dlares, seu imbecil! - gritou ela para o homem, enquanto Preston se aproximava. 
- Se precisava de dinheiro, por que simplesmente no pediu?
- Est ferida?
- Sim, droga. E por sua culpa! - protestou ela. - Eu no teria batido nele com tanta fora se no estivesse to furiosa com voc!
Notando que ela estava massageando a junta dos dedos da mo direita, que provavelmente havia sido usada antes do "golpe fatal" com o joelho, Preston lhe segurou 
o pulso.
- Deixe-me ver. Mexa os dedos.
- V embora.
- Vamos, obedea. Mexa os dedos.
- Ei! - gritou uma mulher abrindo a janela de uma casa do outro lado da rua. 
- Querem que eu chame a polcia?
- Sim - respondeu Cybil, movendo os dedos, como Preston lhe pedira. Ento gemeu quando ele tentou massage-los. 
- J estou bem, obrigada.
- Vtima polida, voc, no? - ironizou ele. - Pelo visto, no quebrou nada. Mas ser melhor fazer um exame mais detalhado.
- Muitssimo obrigada, doutor. - Cybil afastou a mo e levantou o queixo, indicando a rua com a outra mo. 
- Pode ir agora, eu estou bem.
Quando o homem cado na calada comeou a se mexer e a gemer, Preston o imobilizou com o p.
- Acho que vou ficar mais um pouco por aqui. Por que no vai pegar o sax para mim? Eu o deixei perto da esquina enquanto ainda estava sendo ingnuo o bastante para 
pensar que voc corria perigo.
Cybil quase mandou que ele mesmo fosse peg-lo, mas mudou de idia ao pensar que se tivesse de bater novamente naquele bandido talvez j no tivesse tanta fora 
quanto antes. Com o que lhe restava de dignidade, andou em direo  esquina e pegou a maleta que Preston deixara para trs.
- Obrigada - agradeceu ao se aproximar.
- Por qu? - indagou ele, surpreso.
- Por haver se preocupado comigo.
- No precisa agradecer.
Preston forou mais o p ao ver o marginal comear a praguejar, querendo se levantar. Somente quando a polcia chegou, dez minutos depois, foi que ele se afastou 
do bandido.
Cybil no teve nenhuma dificuldade em descrever o que havia acontecido, enquanto Preston rezava para que ela conseguisse ser breve o suficiente para que eles fossem 
liberados logo. Evidentemente, tinha noo de que sua esperana era v. Mas um homem podia sonhar, no podia?
Porm, sua esperana arrefeceu de vez quando um dos policiais uniformizados se voltou para ele.
- O senhor viu o que aconteceu aqui? Preston suspirou.
- Sim.

Portanto, j eram quase duas horas da manh quando ele e Cybil finalmente voltaram para casa. Continuava com aquele gosto horrvel do caf da delegacia na boca e 
com aquela dor de cabea que comeara quando o policial lhe fizera a primeira pergunta.
- Foi um bocado excitante, no foi? Todos aqueles policiais e marginais reunidos em um mesmo lugar... A certa altura, notei que a nica diferena entre eles era 
o fato de os policiais estarem uniformizados, por que os rostos intimidadores pareciam todos os mesmos. Por que ser que eles insistem em manter aquela expresso 
todo o tempo? Um sorrisinho no faria mal a ningum. Foi muito gentil da parte deles me mostrar a delegacia. Voc deveria ter nos acompanhado. As salas de interrogatrio 
parecem exatamente como aquelas que vemos nos filmes: escuras e assustadoras.
Preston tinha certeza de que ela era a nica pessoa do mundo que se interessava em fazer excurses por delegacias.
- Estou eltrica - anunciou ela. - Voc no est? Acho que no vou dormir to cedo. Quer alguns biscoitos? Ainda tenho uma poro deles.
Preston quase ignorou o convite enquanto tirava a chave do bolso, porm a sensao de vazio em seu estmago o fez lembrar-se que no havia comido nada nas ltimas 
oito horas. E aqueles biscoitos eram um pequeno milagre.
- Acho que vou aceitar.
- timo! - festejou Cybil, abrindo a porta e tirando os sapatos, antes de se dirigir  cozinha. - Pode entrar - disse por sobre o ombro. -
 Vou coloc-los em um prato, para que possa com-los no refgio de sua casa, mas tambm no precisa ficar esperando no corredor.
Preston entrou no apartamento, deixando a porta aberta atrs de si. No ficou surpreso ao ver um ambiente decorado com cores alegres e com detalhes chamativos. Andou 
pela sala, mantendo as mos nos bolsos, enquanto ouvia a voz de Cybil vinda da cozinha.
- Voc fala demais.
- Eu sei - respondeu ela, colocando os biscoitos no mesmo prato que emprestara antes para ele. - Principalmente quando estou nervosa ou eltrica.
- E alguma vez voc j se sentiu de outra maneira?
- Sim, mas isso  raro.
Preston viu uma srie de porta-retratos sobre a estante, vrios pares de brincos, um par de sapatos a um canto da sala, um romance sobre a mesinha de centro e sentiu 
um leve aroma de ma pelo ar. Tudo aquilo combinava com ela. Continuou examinando os detalhes da sala at parar diante de uma tira de jornal emoldurada e presa 
 parede.
- Amigos e vizinhos - leu o ttulo impresso e observou a assinatura no canto direito inferior da tira. Lia-se apenas "Cybil". - Isto  seu? - perguntou, no momento 
em que ela entrava na sala.

Cybil olhou para o quadro.
- Sim,  minha tira de jornal. No acho que voc seja do tipo que l as tiras cmicas do jornal, ou estou enganada?
Sabendo muito bem reconhecer uma pergunta pessoal quando uma lhe era dirigida, Preston olhou-a por sobre o ombro. Devia ser o sono, concluiu, que o estava levando 
a consider-la to atraente quela hora da noite.
- "Macintosh", de Grant Campbell - Preston leu outra tira emoldurada, pendurada ao lado da de Cybil. 
-  seu pai?
- Sim - ela assentiu.
Ler o sobrenome "Campbell" era o mesmo que ler "MacGregor", pensou Preston. No era mesmo uma interessante coincidncia?
Atravessando a sala, serviu-se de um dos biscoitos que Cybil havia colocado sobre o balco que separava a sala da cozinha.
- Gosto do estilo do trabalho dele.
- Tenho certeza de que ele ficaria lisonjeado em ouvir isso. - Cybil sorriu ao v-lo pegar outro biscoito. 
- Quer um pouco de leite?
- No. Voc tem cerveja?
- Com biscoitos chocolate?
Ela fez um ar de quem considerara aquilo muito esquisito, mas mesmo assim foi at a geladeira. Preston teve a chance de ver que estava muito bem abastecida quando 
Cybil se inclinou para examinar seu contedo, que tambm lhe deu a chance de ver o que uma cala preta sob medida era capaz de fazer a um traseiro feminino irresistivelmente
arredondado. De fato, s se deu conta de que havia contido a respirao quando Cybil se virou para ele com uma garrafa de Beck's Dark.
- Isto no serve? O Chuck gosta.
- Esse tal de Chuck tem bom gosto.  um namorado?
Enquanto pegava os copos para servi-lo, ela respondeu:
- Chuck  o marido de Jody. Jody e Chuck Myers do 2B - explicou ela. - Fui jantar com eles esta noite e com Frank, o primo excessivamente insuportvel de Jody.
- Por isso estava resmungando quando voltou para casa?
- Eu estava resmungando? - Cybil franziu o cenho, ento apoiou-se sobre o balco e comeu outro biscoito. Resmungar era outro dos hbitos dos quais ela no conseguia 
se livrar. 
-  provvel. Essa foi a terceira vez que Jody arranjou um encontro entre mim e Frank. Ele  corretor da bolsa. Trinta e cinco anos, solteiro e bonito, se voc for 
do tipo que aprecia tipos atlticos e msculos. Tem um BMW, um apartamento em Upper East Side, Westchester, uma casa de praia em Hamptons, s usa ternos Armani, 
aprecia a cozinha francesa e tem dentes perfeitos.
Divertindo-se com a maneira como Cybil estava descrevendo o sujeito, Preston tomou um gole de cerveja e perguntou:
- Ento por que j no est casada com ele e morando em Westchester? 
- Ah, voc acabou de descrever o sonho de Jody.

E vou lhe dizer por que no quero isso para mim. - Ela comeu outro biscoito. 
- Primeiro, no quero me casar ou ir morar em Westchester. Segundo, e mais importante, eu preferiria a morte a ter de me casar com Frank.
- O que h de errado com o sujeito?
- Ele... Ele me cansa! - desabafou ela, com uma careta de desagrado. 
- Oh, droga, acho que fui indelicada, no?
- Por qu? Soou sincera para mim.
- Sim, estou sendo completamente sincera. - Cybil pegou outro biscoito e o comeu, sentindo-se apenas um pouquinho culpada. 
- Ele  uma boa pessoa, mas acho que no leu um livro ou foi ao cinema nos ltimos cinco anos. Talvez tenha assistido a alguns filmes selecionados, mas no a um 
filme para se divertir, entende? Tudo que ele sabe fazer  criticar o cinema o tempo inteiro, ou melhor, durante os cinqenta e nove minutos de cada hora em que 
no fica falando das aplicaes da bolsa de valores.
- Eu nem conheo o sujeito e j me cansei dele.
O comentrio fez Cybil rir e pegar outro biscoito.
- Ele  conhecido por ter a mania de olhar o prprio reflexo na colher quando est sentado  mesa - continuou ela. - Para se certificar de que continua perfeitamente 
"irresistvel". E como se no bastasse tudo isso, ele beija como um peixe.
Preston arqueou uma sobrancelha.
- Como  isso exatamente?
- Ah, voc sabe... - Cybil fez um biquinho arredondado com os lbios e depois comeou a rir. -  possvel imaginar como os peixes beijam, mesmo que eles no faam 
isso. Mas se beijassem, seria como Frank. Quase consegui escapar sem ter de passar pela experincia esta noite, mas Jody, como sempre, deu um jeitinho de interferir.
- E no lhe ocorreu simplesmente dizer "no"?
- Claro que me ocorreu! Todo o tempo! - Cybil forou um sorriso, exasperada. - Mas parece que nunca consigo me expressar no momento certo. Jody me adora e, por razes 
que at a prpria razo desconhece, ela tambm adora Frank. Est convencida de que formamos um casal perfeito. E voc sabe como  quando algum que voc estima comea 
a fazer esse tipo de presso "para o seu bem".
- No, no sei.
Cybil inclinou a cabea. Ento lembrou-se da sala vazia no apartamento dele. Nenhum mvel, nenhum membro da famlia...
- A situao se torna muito inconveniente por que voc corre o risco de magoar algum, e isso no me agrada nem um pouco.
- Como est sua mo? - perguntou Preston, ao v-la massagear as juntas.
- Ainda est um pouco dolorida. Provavelmente terei dificuldade para trabalhar amanh. Mas tentarei transformar a experincia em uma boa tira cmica.
- No consigo imaginar Emily tendo coragem de nocautear um bandido - disse Preston.
- Ei, voc l minhas tiras! - exclamou Cybil, rindo com satisfao.
- Uma vez ou outra.

Ela era realmente encantadora, pensou Preston, admirando aquele lindo sorriso e o brilho de divertimento nos olhos incrivelmente verdes de Cybil. De sbito, flagrou-se 
imaginando como seria provar o sabor daqueles lbios rosados.
Era isso que acontecia quando um homem se dava a liberdade de ficar comendo biscoitos de chocolate no meio da noite na casa de uma linda mulher capaz de faz-lo 
ver o mundo sob uma nova perspectiva. Uma perspectiva que, para ele, ainda oferecia riscos.
- No tem o tom irnico de seu pai nem o gnio artstico de sua me, mas tem um talento inusitado para o absurdo.
Cybil riu com indignao.
- Ora, muitssimo obrigada pela crtica construtiva.
- No h de qu. - Preston pegou o'prato que ela havia separado para ele levar. 
- E obrigado pelos biscoitos.
Cybil estreitou o olhar enquanto ele se dirigia  porta. Bem, ele iria ver quanto talento ela tinha para o "absurdo" ao longo das prximas tiras.
- Ei!
Ele parou e olhou para trs.
- Ei, o qu?
- Voc tem nome, apartamento 3B?
- Sim, eu tenho um nome, apartamento 3A. McQuinn.
Dizendo isso, levantou no ar a latinha de cerveja e o prato, em sinal de agradecimento, e saiu, fechando a porta atrs de si.


CAPTULO III
Quando muitas idias a respeito de cenas e de pessoas preenchiam sua mente, Cybil era capaz de trabalhar at seus dedos comearem a doer e se recusarem a segurar 
adequadamente o lpis ou a caneta.
Nos dias em que isso acontecia, geralmente alimentava-se apenas com biscoitos e bebidas diet, por gostar de ter a sensao de que estava equilibrando as calorias 
em relao aos dias em que havia abusado delas.
No papel, a cada tira cmica, Emily e sua amiga Cari, que durante os ltimos anos vinha apresentando muitas caractersticas da personalidade de Jody, planejavam 
e arquitetavam mil maneiras de descobrir os segredos do sr. Misterioso. Iria cham-lo de "Quinn", mas no por muitos episdios.
Durante trs dias, Cybil mal saiu da mesa de desenho. Jody tinha uma cpia da chave de seu apartamento, por isso no era necessrio ficar se preocupando em atender 
 porta quando a amiga aparecia para uma visita. E Jody nunca fazia cerimnia para abrir a porta para a sra. Wolinsky, ou para algum outro vizinho que decidia visitar 
Cybil.

De fato, em um dado momento da terceira noite, havia tantas pessoas no apartamento de Cybil que foi possvel fazer at uma festinha informal, enquanto ela terminava 
de colorir a tira cmica que sairia no jornal de domingo.
Algum havia ligado o aparelho de som, mas a msica no a distraiu. Os risos e a conversao chegavam at seus ouvidos, vindos do andar de baixo, mas ela no se 
importava com isso. Gostava da animao de seus vizinhos, mesmo quando no podia compartilh-la.
Sentiu um delicioso aroma de pipoca e imaginou se algum levaria um pouco para ela. Encostando-se na cadeira, examinou o que j estava pronto em seu trabalho. De 
fato, no tinha a veia irnica de seu pai nem a genialidade artstica de sua me, mas tinha o que poderia ser considerado como um "talento inusitado".
Tinha a mo muito gil e precisa para o desenho. Sim, gostava do que fazia e do resultado final de seu trabalho. Mas gostava principalmente do fato de ele fazer 
as pessoas rirem.
Se McQuinn, do 3B, achava que ela ficara ofendida com o comentrio dele, estava muito enganado. Cybil estava mais do que contente com seu "talento inusitado para 
o absurdo".
Agitada pelo xito de trs dias de trabalho intenso, pegou o telefone assim que este comeou a tocar.
- Al?
- Ora, ora, se no  minha neta preferida. 
- Vov! - Cybil se encostou na cadeira, com um sorriso satisfeito. 
- Eu estava morrendo de saudade, mas no me venha com essa histria de "neta preferida", porque eu sei que voc diz isso para todos.
Tecnicamente, Daniel MacGregor no era av de Cybil, mas isso nunca a havia impedido de consider-lo como tal. Para ela, o amor ignorava tecnicidades.
- "Morrendo de saudade"? - Daniel repetiu. - Ento por que no me telefonou ou para sua av? Voc sabe quanto ela se preocupa com voc, a sozinha, nessa cidade 
imensa.
- Sozinha? - Com um sorriso, ela segurou o telefone no alto, para que o som da festa no andar de baixo de seu apartamento pudesse ser ouvido por seu av. -
 Parece mesmo que estou sozinha, vov?
- Est com seu apartamento cheio de pessoas de novo?
-  o que parece. E vocs, como esto? Est tudo bem por a? Quero saber tudo.
Os dois passaram a conversar a respeito da famlia. Cybil ouvia tudo com um brilho de divertimento no olhar, rindo e fazendo seus prprios comentrios de vez em 
quando. Ficou contente ao saber que havia uma reunio familiar marcada para dali a algumas semanas.
- Que bom! Mal posso esperar para ver todos novamente. Parece que faz tanto tempo que nos vimos, desde o casamento de lan e Naomi, no ltimo outono. Estou morrendo 
de saudade de vocs.
- Ora, ento por que esperar at a reunio de famlia? Voc sabe que estamos aqui o tempo todo.

- Talvez eu faa uma surpresa a vocs.
- Pois telefonei para fazer uma a voc - declarou Daniel, com seu costumeiro tom firme mas bem-humorado. - Aposto que ainda no sabe que nossa Naomi est esperando 
um beb. Teremos mais uma caixinha de presente sob nossa rvore no prximo Natal.
- Oh, vov, isso  maravilhoso! Vou telefonar para eles ainda hoje. E com Darcy e Mac prestes a ter o deles nos prximos dias, teremos uma poro de bebs para mimar 
nesse Natal.
- Para algum que gosta tanto de bebs, deveria estar preocupada em ter um tambm - insinuou Daniel.
O velho tema, mais do que conhecido por Cybil, fez com que ela comeasse a rir.
- Meus primos j esto cuidando disso muito bem, vov.
- Ah, se esto! - concordou ele. - Mas isso no a livra de sua incumbncia, mocinha. Voc pode at ser uma Campbell de nascimento, mas carrega a chama do amor dos 
MacGregor no corao.
- Bem, em ltimo caso, ainda me resta a chance de jogar tudo para o alto e me casar com Frank.
- Aquele sujeito com boca de peixe?
- No, vov. - Ela riu. 
- Ele s beija como um peixe. De qualquer maneira, sim,  ele mesmo. Poderamos dar algumas "trutinhas" como netos para voc.
Daniel fungou, impaciente.
- Voc precisa  de um homem, no de uma truta vestida com um terno italiano. Um homem com mais interesses na mente do que apenas dlares e investimentos. Algum 
que entenda de arte e que tenha juzo suficiente para mant-la longe de problemas.
- Sei me manter longe de problemas - lembrou Cybil, achando melhor no mencionar o incidente daquela fatdica noite. 
- Alm disso, vov no iria gostar que eu o roubasse dela, portanto, terei de me conformar em continuar sozinha, aqui, nesta imensa cidade.
Daniel riu alto, do outro lado da linha.
- Com todos os homens que existem em Nova York, no  possvel que no acabe encontrando um que lhe sirva. Voc sai para passear de vez em quando, no sai? No acredito 
que passe o dia inteiro sentada a, desenhando seus papis engraados.
- Tenho feito isso apenas ultimamente, porque tive uma tima idia e precisei aproveit-la logo. Estou com um vizinho novo, vov. Ele  meio taciturno e reservado. 
Bem, digamos que ele  "certinho" demais e que detesta que invadam o espao dele. Acho que ele est desempregado, embora toque sax de vez em quando em um clube aqui 
perto.  simplesmente o vizinho perfeito para Emily.
- S isso?
- Bem, ele passa o dia inteiro fechado no apartamento e no fala com ningum. O nome dele  McQuinn.
- Mas se ele no fala com ningum, como sabe o nome dele?
- Vov. - Cybil sorriu com ar travesso. -

Alguma vez j me viu desistir de falar com algum quando decido fazer isso? No que ele seja do tipo que se solta depois de alguns biscoitos de chocolate, mas, mesmo 
assim, consegui descobrir o nome dele.
- E o que achou dele? - indagou Daniel, fingindo um tom casual.
- Ele parece muito, muito incrvel. Capaz de deixar Emily maluquinha.
-  mesmo? - Daniel riu com satisfao.
Quando conseguiu saber tudo o que precisava da neta, Daniel fez a ligao seguinte. Cantarolando baixinho e examinando as unhas, lustrou-as sobre a camisa e sorriu 
quando Preston atendeu ao telefone com um impaciente:
- Sim, o que ?
- Ah, essa sua natureza dcil sempre me deixa surpreso, McQuinn. Chega at a me comover. 
- Sr. MacGregor?
Preston-se ajeitou na cadeira no mesmo instante. No havia como confundir aquele sotaque escocs. Mudando subitamente de humor, riu e afastou-se do computador.
- Isso mesmo, meu rapaz. Como est se saindo no apartamento?
- Muito bem. Quero lhe agradecer mais uma vez por me deixar us-lo enquanto minha casa continua naquela infinita reforma. Eu nunca conseguiria trabalhar com todo 
aquele barulho. - Dizendo isso, lanou um olhar de censura para a parede, enquanto o barulho do outro apartamento lhe chegava aos ouvidos. 
- No que a coisa esteja muito diferente por aqui esta noite. Minha vizinha parece estar comemorando alguma coisa.
- Cybil? Ela  minha neta, sabia? Uma garota muito socivel.
- At demais - falou Preston, quase em um resmungo. 
- No imaginei que ela fosse sua neta.
-Bem, apenas informalmente. Precisa se soltar um pouco, rapaz, e ir participar da festa.
- No, muito obrigado. - Ele preferiria saltar de pra-quedas, sem pra-quedas. 
- Acho que metade da populao do bairro deve estar l nesse momento. Este seu prdio, sr. MacGregor, est cheio de pessoas que preferem mais falar do que viver. 
E sua neta parece ser a lder da "gangue de tagarelas".
Daniel riu. Admirava a sinceridade de Preston McQuinn.
- Ela gosta apenas de ser amigvel com todos - disse, em defesa da neta.
- De qualquer modo, fico mais tranqilo em saber que voc est morando no apartamento em frente ao dela. Voc  um rapaz sensvel, Preston. Por isso no me importo 
em pedir que voc fique de olho nela. Cybil  muito ingnua s vezes, se  que entende o que eu quero dizer. Eu me preocupo com ela.
Preston riu, lembrando-se de quando a vira acertar uma boa ajoelhada nas "partes baixas" do bandido que tentara atac-la.
- Eu no me preocuparia se fosse o senhor. Pode acreditar.
- Bem, no vou mesmo me preocupar sabendo que voc est por perto. Minha Cybil... Ela  uma gracinha, no ?
- Linda como uma flor - anuiu Preston.
- E inteligente. Tambm  responsvel, embora s vezes parea levar a vida feito uma borboleta esvoaante. Ora, mas tambm no  possvel ser um iceberg e conseguir 
produzir uma tira cmica por dia para um jornal, no  mesmo? S tendo muito senso de humor, e isso  o que no falta  minha Cybil.
- Sem dvida, sr. MacGregor.
- Para trabalhar nesse tipo de coisa - continuou Daniel -,  preciso ser criativa, ter uma boa veia artstica e ser prtica o suficiente para encontrar temas nas 
situaes do dia-a-dia. Mas voc sabe de tudo isso melhor do que ningum, certo? Escrever roteiros de teatro tambm no  um trabalho fcil.
- No mesmo - concordou Preston, massageando os olhos cansados depois de horas diante do computador.
- Mas voc tem o dom, meu rapaz. Um dom raro que eu admiro muito.
- Esse dom tem sido mais como uma maldio para mim ultimamente, sr. MacGregor, mas obrigado pelo elogio mesmo assim.
- Precisa sair um pouco, arejar a mente, beijar uma bela garota... No que eu entenda muito do processo de escrever, embora tenha dois netos que se dedicam a isso, 
e muito bem por sinal. Deveria aproveitar mais o fato de estar a, em Nova York, antes de voltar para sua cidade e se fechar em sua casa.
- Talvez eu ainda faa isso.
- Oh, McQuinn? Poderia me fazer o favor de no mencionar a Cybil que eu lhe pedi para ficar de olho nela? Ela no gosta muito de superproteo. Mas  que a av dela 
vive preocupada com aquela menina e, voc sabe como , na idade em que estamos no  bom facilitar...
- Pode ficar tranqilo, sr. MacGregor. No direi nada a ela - Preston prometeu.
Ciente de que aquele barulho no o deixaria mesmo trabalhar, Preston saiu do apartamento. Tocou no clube de Delta, mas, dessa vez, nem mesmo a msica o distraiu 
dos pensamentos que andavam rondando sua mente.
De onde estava, sobre o palco, no era difcil imaginar Cybil sentada no fundo do salo, com o queixo apoiado sobre a mo, os lbios curvados em um sorriso e um 
brilho sonhador no olhar. De fato, ela conseguira invadir um de seus bens mais preciosos: a msica. E ele estava se sentindo profundamente irritado com isso.
O Delta era um de seus refgios. Havia noites em que ele viajava de carro de Connecticut a Nova York s para subir no palco com Andr e tocar at que toda sua tenso 
desaparecesse por meio da msica.
Ento voltava para casa ou, se j. fosse muito tarde, apenas se acomodava em um sof no fundo do Delta e dormia at a manh. Ningum o aborrecia no clube ou esperava 
que ele desse mais do que queria dar.
Mas depois que Cybil estivera ali, seu olhar insistia em se voltar para a mesa que ela havia ocupado, enquanto ele se flagrava imaginando se ela no estaria ali, 
observando-o com aqueles olhos de pantera.
- Rapaz - disse Andr, tomando um gole de gua da garrafa deixada ao lado do piano -, voc est mesmo esquisito esta noite.
- Sim, acho que sim.
- Geralmente, quando um homem fica com essa expresso,  porque h alguma mulher envolvida na histria.
Preston balanou a cabea, negando o fato mais para si mesmo do que para o amigo.
- No, no h nenhuma mulher. Estou preocupado com o trabalho.
Andr se limitou a dar de ombros enquanto Preston levava o sax novamente aos lbios. - Se  o que voc diz...
Preston chegou em casa s trs horas da manh, preparado para bater  porta do apartamento de Cybil e exigir silncio. Por isso, foi um alvio chegar e descobrir 
que a festa havia terminado. No se ouvia nenhum rudo vindo do apartamento dela.
Entrou em casa, trancou a porta e prometeu a si mesmo que aproveitaria ao mximo aquele momento de paz. Depois de preparar um caf forte, acomodou se novamente diante 
do computador, preparando-se para entrar na mente das personagens que estavam arruinando suas prprias vidas por no conseguirem seguir os impulsos de seus coraes.
O sol j estava alto quando ele parou de trabalhar, depois que o sbito surto de energia criativa que se apoderara de sua mente finalmente se desvaneceu. Concluiu 
que aquele fora o primeiro trabalho mais consistente que ele conseguira realizar na ltima semana, e decidiu comemorar isso caindo sobre a cama com a mesma roupa 
com que estava vestido.
No demorou muito para comear a sonhar. Um belo rosto com expressivos olhos verdes se apoderou da maioria das imagens que surgiram em meio a seu estado onrico. 
E juntamente com ele, uma voz insistente que parecia no parar mais de falar.
Por que tudo tem de ser to srio?, ela perguntou, rindo ao deslizar a mo sobre o peito dele.
Porque a vida  um negcio srio.
Mas esse  apenas um dos lados da moeda. E h muitas e muitas moedas em nossa vida. No vai danar comigo?
Ele j estava danando. Estavam no Delta, e embora o clube estivesse vazio, havia msica no ar. Uma msica suave e sensual.
No vou ficar de olho em voc. No conseguirei fazer isso.
Mas voc j est.
Preston apoiava o queixo no alto da cabea dela. Quando ela inclinou a cabea para trs e mordiscou-lhe o queixo com sensualidade, ele sentiu um arrepio pelo corpo.
Ficar de olho em mim no  tudo que voc quer fazer comigo, no ?
Eu no quero voc.
Ouviu-se uma risada leve como o ar.
Acha que adianta negar isso at mesmo em seus sonhos? Pode fazer o que quiser comigo em seus sonhos. No far diferena.
Eu no quero voc, ele repetiu, j deitando-se com ela sobre o cho.
Preston acordou ofegante e suando, enrolado entre os lenis. Depois de alguns segundos, quando sua mente finalmente comeou a clarear, no conteve o riso.
Cybil era mesmo uma ameaa, concluiu. De fato, a nica coisa que parecera mais sensata em seu sonho ertico fora o detalhe de ele repetir que no a queria.
Depois de passar as mos pelo rosto, olhou para o relgio ainda em seu pulso. J passava das quatro horas da tarde, e foi somente ento que ele se deu conta de que 
aquela fora a primeira vez que ele conseguiria dormir por oito horas na ltima semana. Que culpa tinha ele, se seu relgio biolgico andava meio maluco?
Ao chegar  cozinha, notou que teria de descer e comprar algo para comer. Tomou um banho e se barbeou pela primeira vez, depois de trs ou quatro dias sem faz-lo.
Pensou em comer algo fora, para ter uma refeio decente. Quem sabe assim teria mais nimo de enfrentar o horror de ter de fazer compras e ver todas aquelas pessoas 
armazenando carrinhos e mais carrinhos de comida no mercado.
J vestido e sentindo-se mais bem-disposto, abriu a porta.
Cybil abaixou a mo que havia acabado de levantar para tocar a campainha.
- Graas a Deus que voc est em casa.
Preston no conseguiu deixar de se lembrar do sonho que tivera havia poucas horas.
- O que foi?
- Voc precisa me fazer um favor.
- No, no preciso no.
- Mas  uma emergncia! - Ela o segurou pelos braos antes que ele pudesse se afastar. - E uma questo de vida ou morte! A minha vida e muito provavelmente a morte 
de Johnny, sobrinho da sra. Wolinsky. Sim, porque um de ns vai morrer se eu tiver de sair com ele! Foi por isso que eu disse a ela que j tinha um encontro esta 
noite.
- E voc acha que eu tenho algo a ver com isso porque...
- Oh, no seja ranzinza justo agora, McQuinn. No est vendo que sou uma mulher desesperada?! Oua, ela no me deu tempo de pensar, e eu sou pssima com mentiras. 
Quero dizer, no minto com muita freqncia, por isso no consigo mentir direito. Ela ficou insistindo em perguntar com quem eu ia sair, e eu no consegui pensar 
em ningum mais a no ser voc.
Cybil continuou de p bem diante dele, impedindo-o de sair. Preston respirou fundo, tentando se manter paciente.
- Vamos deixar uma coisa bem clara, est bem? - disse a ela. - Isso no  problema meu.
- No, eu sei que  meu. E com certeza teria inventado uma coisa melhor se ela no houvesse me pegado de surpresa, enquanto eu estava trabalhando e pensando em outra 
coisa. - Desesperada, Cybil passou a mo pelos cabelos. 
- Ela vai ficar me vigiando, entende? Vai querer se certificar de que eu vou mesmo sair com algum.
Dizendo isso, comeou a andar de um lado para outro massageando as tmporas, como que para estimular os pensamentos. Preston aproveitou o momento de distrao de 
Cybil e comeou a seguir em frente pelo corredor.
- Oua, tudo que ter de fazer ser me acompanhar para fora do prdio fingindo ser algum que est interessado em mim - falou ela, atrs de Preston. 
- Poderemos tomar um caf, ou algo do gnero, e passar algumas horas fora antes de voltarmos. Sim, porque ela tambm vai saber se no voltarmos juntos. Aquela mulher 
sabe de tudo! Prometo que lhe pagarei cem dlares por isso.
Ouvir aquilo o fez parar de repente.
- Quer me pagar para que eu saia com voc?
- No  bem assim, mas  quase - admitiu Cybil. - Sei que o dinheiro lhe ser til, e acho justo compens-lo pelo tempo que voc vai gastar. Cem dlares, McQuinn, 
por algumas horas. Ah, e eu pagarei o caf.
Preston se encostou na parede e ficou observando-a. A idia parecia to absurda que chegava a ser cmica.
- Nem um pedao de torta? - perguntou a ela. A risada de Cybil foi de puro alvio. - Torta? Voc quer torta? Pois ter sua torta.
- Onde est ele? - indagou Preston, olhando para o bolso dela.
- Ele? Ah... o dinheiro? Espere um pouco aqui.
Cybil entrou no apartamento e Preston pde ouvi-la andando de um lado para outro, abrindo e fechando gavetas e armrios.
- Deixe-me apenas me arrumar um pouco - disse ela, l de dentro.
- O cronmetro est correndo, garota.
- Tudo bem, tudo bem. Onde diabos est minha... A-ha! Dois minutos, s dois minutos. No quero que ela fique dizendo por a que saio com rapazes sem nem mesmo passar 
batom.
Preston teve de admitir: quando ela dizia dois minutos realmente eram dois minutos. Quando voltou, dois minutos depois, estava usando um par de sandlias de salto 
alto, batom cor-de-rosa e um par de brincos de argola. Segundo ele pde notar, quando ela lhe entregou o dinheiro, os brincos continuavam no combinando. Devia ser 
uma questo de preferncia mesmo, concluiu ele. Uma "inusitada preferncia pelo absurdo".
- Ficarei muito agradecida por isso - disse Cybil. 
- Sei que a situao deve estar parecendo ridcula, mas  que no tenho coragem de mago-la.
- Se os sentimentos da mulher valem cem dlares para voc, tudo bem. - Preston deu de ombros. 
- E melhor para mim - acrescentou, guardando o dinheiro no bolso de trs da cala. - Agora vamos. Estou faminto.
- Oh, quer jantar? Tambm posso lhe pagar um jantar. H um restaurante timo no final da rua, onde eles servem massas deliciosas. Tudo bem, vamos comear o teatrinho 
agora - avisou ela, enquanto se encaminhavam para a sada do prdio. 
- Finja que no sabe que est sendo observado por ela. Aja naturalmente e segure minha mo, est bem?
- Por qu?
- Ah, pelo amor de Deus, McQuinn! - respondeu ela por entre os dentes, entrelaando os dedos com firmeza entre os dele e sorrindo com ar sonhador. - Estamos saindo 
para um encontro, lembra-se? Nosso primeiro encontro. Faa um esforo e finja que est se divertindo.
- Mas voc s me deu cem dlares.
A ironia fez Cybil dar uma gargalhada.
- Puxa, voc  mesmo "duro", 3B. Vamos saborear uma refeio quente e ver se isso melhora seu humor.
De fato, melhorou e muito. Seria preciso ser um sujeito muito mais mal-humorado do que ele para conseguir resistir ao apelo de uma enorme travessa cheia de espaguete 
com almndegas, aliada  esfuziante companhia de Cybil.
- Maravilhoso, no  mesmo?! - falou ela, gostando de v-lo saborear o prato com tanta empolgao.
Provavelmente o coitado no tinha uma refeio decente havia semanas, pensou ela, lembrando-se do apartamento vazio. Talvez ele estivesse mesmo com dificuldades 
financeiras.
- Sempre como demais quando venho aqui - confessou. - Eles servem uma poro suficiente para meia dzia de adolescentes famintos, mas acho que  isso que d um certo 
charme ao lugar. Toda essa fartura. Depois, termino sempre levando para casa. o que sobrou e comendo demais tambm no dia seguinte. Mas dessa vez poder me salvar 
levando um pouco para sua casa - acrescentou ela, com um sorriso.
- Negcio fechado - respondeu Preston, tocando a taa de Chianti na dela.
- Sabe de uma coisa? Aposto que h dezenas de clubes noturnos na cidade que se mostrariam mais do que interessados em contrat-lo.
- Hum?
- Para tocar sax.
Cybil sorriu novamente para ele, que no resistiu ao impulso de observar aqueles lbios polpudos e convidativos.
- Voc  muito bom no que faz - continuou ela. - Aposto que conseguir arranjar um bom emprego logo, logo.
Divertindo-se com o comentrio, Preston levantou a taa novamente, sugerindo outro brinde. Ento a srta. Cybil Campbell pensava que ele era um msico desempregado? 
Bem, melhor assim.
- As oportunidades vm e vo - foi tudo que Preston falou.
- Voc toca em festas particulares? - Subitamente animada, ela se inclinou sobre a mesa. - Conheo uma poro de pessoas, e h sempre algum oferecendo uma festa.
- Imagino que isso seja mesmo muito comum no seu crculo social - ironizou Preston.
- Posso divulgar seu nome, se quiser. Importa-se de viajar?
- E para onde eu iria?
- Alguns dos meus parentes so donos de hotis - explicou Cybil. - Atlantic City no fica muito longe daqui. Acho que voc no tem carro, certo?
Preston conteve a vontade de rir, lembrando-se de seu Porsche "novinho em folha" guardado em uma garagem da cidade.
- No aqui comigo - foi sua resposta.
Cybil sorriu, mordiscando um pedao de po. 
- Bem, de qualquer maneira, no  difcil se deslocar de Nova York para Atlantic City.
Por mais divertido que aquilo estivesse sendo, Preston achou melhor amenizar um pouco as coisas. 
- Cybil, no preciso de algum para administrar minha vida.
Ela fez uma careta.
- Eu sei. Esse  um dos maus hbitos dos quais no consigo me livrar. - Sem parecer ofendida, ela partiu o pedao de po em dois e ofereceu um a ele. 
- Eu me envolvo demais com as coisas - admitiu. 
- Depois fico aborrecida quando as outras pessoas se metem na minha vida. Como a sra. Wolinsky, atual presidente do partido "Vamos Encontrar um Pretendente para 
Cybil". Isso me deixa furiosa.
- Porque voc no quer um pretendente - afirmou Preston.
- Oh, sei que encontrarei um no devido tempo. Vir de uma famlia grande meio que nos predispe... A mim, pelo menos... A querer ter uma tambm. Mas ainda h muito 
tempo para isso. Gosto de morar na cidade grande e de fazer aquilo que quero quando eu quero. Detestaria ter de me submeter a horrios rgidos, o que, definitivamente, 
no combina com meu trabalho de criao. No que o meu trabalho no exija um certo tipo de disciplina, mas sou eu quem a faz, do meu jeito. Como acontece com sua 
msica, imagino eu.
- Creio que sim - anuiu Preston.
O trabalho dele raramente se tornava um prazer, como o dela parecia ser. Mas sua msica, sem dvida, era feita por prazer.
- Ei, McQuinn - comeou ela, com outro de seus sorrisos marotos -, quantas vezes voc realmente j se soltou e respondeu a uma pergunta com mais do que trs frases 
curtas em uma mesma conversa?
Preston comeu o ltimo pedao de almndega de seu prato e olhou para ela.
- Gosto do ms de novembro. Geralmente, falo muito mais em novembro.  o tipo de ms de transitoriedade que faz com que eu me sinta mais filosfico.
- Trs de uma nica tacada - brincou ela. - E todas inteligentes. - Sorriu para ele. 
- Voc tem um senso de humor escondido em algum lugar, no tem? - Antes que ele pudesse responder, ela se recostou na cadeira com um suspiro e perguntou: 
- Quer sobremesa?
- Claro que sim - respondeu Preston, como se aquela fosse a resposta mais bvia.
Cybil sorriu.
- Tudo bem, mas no pea o tiramisu, porque serei forada a lhe implorar um pedao, depois dois e ento terminarei comendo metade dele e provavelmente entrarei em 
coma.
Sem desviar os olhos dos dela, Preston fez um sinal para o garom, com a autoridade casual de um homem acostumado a dar ordens. Aquilo fez Cybil franzir o cenho.
- Tiramisu - pediu ele, sem hesitar. - E dois garfos - acrescentou, fazendo Cybil rir alto. - Talvez entrando em coma, voc fale menos.
- Acho que nem assim - salientou ela, ainda rindo. - Falo at dormindo, sabia? Minha irm costumava ameaar pr um travesseiro na minha cabea.
- Acho que eu iria gostar de sua irm.
- Adria  maravilhosa. Provavelmente o seu tipo tambm. Contida, sofisticada e inteligente. Ela dirige uma galeria de arte em Portsmith.
Preston notou que estavam quase terminando de tomar a garrafa de vinho. O Chianti era mesmo muito bom, e provavelmente estava sendo a causa de ele se sentir to 
relaxado. De fato, no se sentia assim havia semanas. Ou meses. Talvez anos.
- Ento vai me apresentar a ela?
- Acho que ela iria gostar de voc - considerou Cybil, observando-o por sobre a borda da taa e apreciando a sensao de leveza que a bebida lhe dera. 
- Voc  bonito de uma maneira meio... Como posso dizer... Meio selvagem, acho. Alm disso, toca um instrumento musical, o que apelaria para o lado de Adria que 
 sensvel s artes.
E  auto-suficiente demais para trat-la como algum da realeza. Muitos homens fazem isso.
- E mesmo? - Preston se surpreendeu.
- Ela  to linda que eles no conseguem deixar de agir assim. Adria detesta esse tipo de atitude, por isso acaba sempre tendo de dispens-los. Provavelmente terminaria 
arrasando seu corao - completou Cybil, fazendo um gesto com o copo. 
- Mas a experincia seria boa para voc.
- No tenho corao - declarou ele, quando o garom chegou com a sobremesa. - Pensei que j houvesse deduzido isso.
- Claro que tem. - Com um suspiro de rendio, Cybil pegou o garfo e provou a primeira poro do doce, com um gemido de prazer. - S que voc o mantm guardado dentro 
de uma armadura, para que ningum possa feri-lo novamente - finalizou ela. - Deus, no  maravilhoso? No deixe que eu coma mais do que esse outro pedao, est bem?
Preston continuou a observ-la, aturdido com a preciso com que Cybil to casualmente o descrevera, sendo que nem mesmo aqueles que diziam am-lo haviam chegado 
to perto.
- Por que disse isso?
- Isso o qu? Eu no lhe disse para no me deixar comer mais disso? Est querendo me matar?
- Esquea. - Decidindo deixar o assunto de lado, Preston afastou o prato do alcance dela. - O restante  meu - disse e comeou a comer.
Felizmente, teve de ameaar dar uma garfada na mo de Cybil apenas uma vez.
- Nem sei como agradecer por voc haver me livrado de ter de sair com Johnny - disse Cybil, quando os dois voltavam para casa.
- Por que simplesmente no diz a toda essa gente que no est interessada em ter um namorado? - perguntou Preston, intrigado.
Ela suspirou.
- O problema  que no tenho coragem de magoar ningum, e acabaria fazendo isso ao dizer a verdade. Eles s querem o meu bem.
- Mas esto controlando sua vida, Cybil, mesmo que com a melhor das intenes.
- Oh, eu no sei o que fazer! - Ela exalou outro suspiro. - Veja meu av, por exemplo. Bem, na verdade ele no  meu av no sentido estrito da palavra. Ele  sogro 
de Shelby, irm de meu pai. Pelo lado da minha me, ela  prima das esposas de dois netos dele.  meio complicado, mas tentarei resumir ao mximo.
- Ser que terei mesmo o privilgio de presenciar esse milagre? - Preston arqueou uma sobrancelha.
- Pare de me provocar - ralhou Cybil, sem conter o riso. - Bem, a ligao familiar entre Daniel e Anna MacGregor e meus pais  mesmo complicada, ento para que me 
esforar em simplificar? Minha tia Shelby se casou com o filho deles, Alan MacGregor, voc j deve ter ouvido falar nele, da poca em que morava na Casa Branca.
- O nome no me parece estranho.
- E minha me, que antes tinha o sobrenome Grandeau,  prima dos irmos Justin e Diana Blade, que se casaram, respectivamente, com outros dois netos de Daniel e 
Anna MacGregor, Serena e Caine MacGregor. Por isso, Daniel e Anna so considerados como meus avs, entendeu?
- Acho que sim, mas j esqueci o motivo que nos levou a falar sobre isso.
- Oh, eu tambm. - Cybil comeou a rir, tendo de se apoiar nele para no perder o equilbrio. - Acho que tomei vinho demais. Deixe-me ver... Sim, j lembrei. Casamenteiros. 
Estvamos falando de pessoas casamenteiras,-o que meu av, que por acaso  Daniel MacGregor, mostra ser em todos os sentidos. Quando o assunto  arranjar casamentos, 
 ele quem dita as regras. O homem  uma verdadeira raposa, McQuinn. Voc nem imagina... - Cybil parou um instante e comeou a contar nos dedos. - Hum... At agora, 
acho que sete dos meus primos se casaram com pretendentes arranjados por ele.
- O que voc quer dizer com "arranjados"?
- No me pergunte como, mas ele meio que escolhe a pessoa certa para os netos e depois d um jeito de uni-los de alguma maneira, deixando a natureza seguir seu curso. 
Ento, antes que voc se d conta, j est a caminho do altar. No ltimo telefonema, ele me contou que meu primo, lan, e a esposa dele, que se casaram no ltimo 
outono, j esto esperando o primeiro filho. Meu av est nas nuvens.
- E algum j mandou ele parar de se meter na vida dos netos?
- Ah, constantemente - respondeu Cybil, lembrando-se das reprimendas da av. 
- Mas ele no d ateno. Tenho a impresso de que a prxima "vtima" ser Adria ou Mel, enquanto ele ainda estiver disposto a dar algum tempo de paz a meu irmo, 
Matthew.
- E quanto a voc?
- Ah, sou esperta demais para ele. Conheo todos seus truques e no pretendo me apaixonar to cedo. E voc, j esteve l?
- L onde?
- Na terra dos apaixonados, McQuinn. No seja to lento.
- Ora, no  um lugar,  uma situao. E no, acho que realmente no estive l.
- Mas acabar indo - falou Cybil, com ar sonhador. - Eventualmente... - Ela ia dizer mais alguma coisa, mas parou de repente. 
- Essa no! Aquele  o carro de Johnny. Pelo visto, ele acabou vindo mesmo de Nova Jersey. Droga, droga, droga! Muito bem, l vamos ns novamente com o plano. - 
Dizendo isso, virou-se para Preston, mas teve de se apoiar nele ao sentir uma onda de tontura. - Eu no deveria ter tomado aquela ltima taa de vinho, mas acho 
que ainda sou dona do meu destino.
- Pode apostar que sim, menina.
Cybil fez uma careta de desagrado.
- O suficiente para saber que o fato de voc me chamar de "menina" demonstra que est sendo arrogante e querendo parecer superior a mim, mas isso no vem ao caso. 
Teremos apenas de andar mais um pouco de mos dadas, at passarmos pela janela da casa dela. Com muita naturalidade, est bem?
- No vai ser fcil, mas verei o que posso fazer.
- Adoro essa sua veia sarcstica. Muito bem, estamos prontos e preparados. Agora vamos ficar s mais um pouco aqui porque ela est olhando - acrescentou Cybil, arriscando 
um -olhar na direo da janela da casa da sra. Wolinsky. - A qualquer momento a cortina vai se fechar. Tenho certeza.
O fato de a situao no oferecer nenhum risco, e de ele estar comeando a se divertir com tudo aquilo, manteve Preston no lugar. Segundos depois, olhou disfaradamente 
para trs, tentando notar se a mulher continuava  janela.
- Parece que ela no vai desistir assim to fcil. O que faremos agora?
Cybil moveu os olhos com rapidez, como que tentando pensar em algo.
- Ter de me beijar.
- O qu?!
- E ter de ser convincente - salientou ela. - Se formos convincentes, ela se convencer de que no estou realmente interessada em Johnny. Prometo que lhe pagarei 
mais cinqenta dlares por isso.
Preston teve de se esforar para continuar srio.
- Ento, vai me pagar cinqenta dlares para que eu a beije?
- Como um bnus - justificou Cybil. - Farei qualquer coisa para mandar Johnny de volta para Nova Jersey. Aja como se estivesse sobre o palco, representando. Isso 
no precisa significar realmente alguma coisa. Ela ainda est olhando? - perguntou, mudando de posio.

- Sim - respondeu Preston, mesmo sem olhar para a janela da sra. Wolinsky.
- timo, ento vamos l. Aja com romantismo, est bem? Posicione os braos assim, em torno de mim, incline-se um pouco e...
- Sei como beijar uma mulher, Cybil.
- Claro que sabe. Mas um pouco de ensaio no far nenhum mal...
Preston se deu conta de que a nica maneira de faz-la parar de falar seria agindo. Em vez de circundar os braos em torno dela, puxou-a de uma vez para si. A ltima 
coisa que viu antes de seus lbios esmagarem os dela, foram os expressivos olhos verdes se arregalarem de espanto.
Ele estava certo. Completamente certo, pensou Cybil. De fato, ele realmente sabia como beijar uma mulher. Teve de se apoiar nos ombros dele para no cair, pois seus 
ps mal estavam tocando o cho. Ento, para seu prprio espanto, deixou escapar um gemido.
Sentia a cabea zonza, como se, de repente, os dois estivessem em outro lugar, longe das pessoas e do mundo. Seu corao acelerado parecia estar batendo alto a ponto 
de ser ouvido, e seu corpo se tornara trmulo, vulnervel ao apelo sensual da proximidade mscula daquele que estava se tornando uma pessoa cada vez mais presente 
em seus pensamentos mais ntimos.
Era quase como no sonho, pensou Preston, s que melhor. Muito melhor. O sabor dos lbios de Cybil era adocicado e nico, incapaz de ser resgatado apenas pela imaginao. 
Depois de sabore-los com voracidade, afastou-a um pouco, mas somente para verificar se o ar de desejo estava to evidente no semblante dela quanto deveria estar 
no dele.
Cybil ficou olhando para ele, ofegante, ainda com os braos circundando seu pescoo.
- O prximo  meu - disse ele.
Ento Cybil se entregou mais uma vez quele turbilho de sensaes deliciosas e provocantes. No protestou quando ele insinuou a lngua por entre seus lbios e comeou 
a explorar os recantos mais secretos de sua boca.
Quando ele se afastou pela segunda vez, moveu-se to devagar que foi quase como se no quisesse faz-lo. Preston queria poder t-la ali mesmo, em meio  penumbra 
da noite e sob os olhares surpresos, e provavelmente escandalizados, dos transeuntes. Pouco lhe importava que olhassem. Queria saciar aquela sua sede pela energia 
sensual de Cybil. De fato, s se conteve por saber que uma atitude mais ousada acabaria assustando-a. Ele prprio estava assustado com sua reao. Era como se sempre 
houvesse guardado um vulco dentro de si que, de repente, resolvera entrar em erupo.
- Acho que isso ser suficiente - disse a ela.
- Suficiente? - repetiu Cybil, como se houvesse acabado de chegar de outro planeta.
- Suficiente para convencer a sra. Wolinsky.
- Sra. Wolinsky? - Ela balanou a cabea, tentando ordenar os pensamentos. - Oh, sim, claro. Puxa, voc  mesmo muito bom nisso, McQuinn.
Um sorriso relutante curvou os lbios dele. A sinceridade de Cybil era realmente encantadora, pensou Preston. E perigosamente irresistvel.
- Voc tambm  muito boa nisso, menina - respondeu ele, conduzindo-a em direo  entrada do prdio.
Cybil comeou a cantar enquanto trabalhava, fazendo um dueto com Aretha Franklin. Atrs dela, a janela aberta revelava um belo dia ensolarado, vez por outra assaltado 
pela leve brisa fria de abril e permeado pelo inevitvel rudo das ruas de Nova York.
No entanto, o sol do lado de fora no estava menos radiante do que o humor de Cybil. Virando-se para o espelho preso  parede, a seu lado esquerdo, tentou imitar 
uma expresso de espanto que pudesse ajud-la na caracterizao de sua personagem. Porm, tudo que conseguiu fazer foi sorrir. Sorrir com plena satisfao.
J havia sido beijada antes, claro. E tambm fora envolvida pelos braos de um homem. Entretanto, todas as experincias que tivera se comparavam a um mero "incendiozinho" 
local, se comparadas  exploso vulcnica que fora se ver nos braos de Preston.
Na noite anterior permanecera com aquela deliciosa sensao de zonzeira durante horas. Adorara cada um dos momentos daquela espcie de arrebatamento de sensualidade 
feminina. Poderia haver algo mais incrvel do que sentir-se vulnervel e forte, boba e sbia, confusa e esclarecida, tudo ao mesmo tempo?
E tudo que precisava fazer para sentir aquilo era fechar os olhos e deixar sua mente devanear, livre de qualquer censura. Imaginou o que ele estaria pensando, o 
que estaria sentindo. Ningum conseguiria ficar indiferente a um experincia daquela... magnitude. Um homem no poderia beijar uma mulher daquela maneira e no sofrer... 
digamos... algum efeito colateral.
Sofrer at que era uma palavra adequada, concluiu ela, pensando nas conseqncias em seu prprio corpo. Riu, suspirou alto, ento voltou a se concentrar no trabalho, 
cantando com Aretha Franklin as maravilhas de se sentir like a natural woman. Sim, estava mesmo se sentindo como mulher natural. Natural at demais. O beijo de McQuinn 
deixara um rastro de chama em seu corpo e, embora aquilo fosse delicioso, era tambm assustador ao mesmo tempo.
- Pelo amor de Deus, Cyb, est muito frio aqui!
Cybil levantou a vista.
- Oi, Jody. Ol, meu amor! - acrescentou, olhando para Charlie.
O beb olhou para ela com um sorriso sonolento, enquanto Jody se aproximava da janela, mantendo-o apoiado sobre seu quadril.
- Est sentada diante de uma janela aberta, e a temperatura no deve estar mais do que quinze graus l fora. - Jody fechou o vidro, com um arrepio de frio.

- Eu estava sentindo um pouco de calor - declarou Cybil, deixando o lpis de lado para apertar a bochecha rechonchuda de Charlie. 
-  milagroso, no, que os homens se transformem dessa maneira? Nascem como bebs lindinhos assim e depois... Uau! Transformam-se naquilo tudo.
Jody franziu o cenho, olhando a amiga com ar de curiosidade.
- Est com uma expresso meio engraada - disse ela. - Sente alguma dor? - Pousou a mo sobre a testa de Cybil, em uma atitude maternal. 
- No est com febre. Agora mostre a lngua.
Cybil obedeceu, ficando vesga ao mesmo tempo s para fazer Charlie cair na gargalhada.
- No estou doente. Estou  em estado de graa.
- Hum... - Jody apertou os lbios, no parecendo muito convencida. - Vou pr Charlie em sua cama para tirar uma soneca. Ele est at zonzo de sono. Depois prepararei 
um caf para ns duas e quero que me conte o que est acontecendo.
- Claro.
Voltando a adquirir o mesmo ar sonhador, Cybil pegou o lpis novamente e desenhou pequenos coraes sobre o papel. Ento se empolgou e comeou a desenhar outros 
maiores, esboando o rosto de McQuinn dentro de um deles.
Sim, ele tinha traos fortes e marcantes, mas que se amenizavam quando sorria. Ela adorava faz-lo sorrir. Alis, fazer as pessoas sorrirem era um de seus talentos.
Ficaria mais tranqila quando conseguisse arranjar um emprego para ele. Depois providenciaria um sof para aquela sala vazia, mas isso no seria difcil com seus 
contatos. Tinha muitos amigos que poderiam ajud-la a encontrar mveis prticos e por um bom preo. Queria ver McQuinn instalado com mais conforto, s isso. Claro 
que no havia nenhum interesse de sua parte, afinal, faria isso por qualquer pessoa. Ainda mais por um vizinho maravilhoso que beijava como um deus sado diretamente 
do sonho de toda mulher.
Satisfeita com seus planos, cruzou as pernas sob si e voltou a se concentrar no trabalho.

Depois de deixar Charlie no quarto, dormindo feito um anjinho, Jody desceu para o andar de baixo e abaixou o volume do aparelho de som. Ento, sentindo-se como se 
estivesse em sua prpria casa, foi at a cozinha e preparou o caf. Subiu a escada pouco depois, carregando uma bandeja com duas xcaras de caf e alguns biscoitos. 
Aquele pequeno ritual matinal era um de seus momentos preferidos do dia.
Considerava Cybil como uma irm e por isso fazia de tudo para v-la feliz. De fato, no se dava to bem nem com as prprias irms, que s sabiam viver reclamando 
da vida e dos maridos.
Deixando a bandeja sobre a mesa, entregou uma xcara de caf a Cybil.
- Obrigada, Jody.
- Fez uma tima tira esta manh. No acredito que Emily esteja disfarada com um casaco e um chapu, seguindo o sr. Misterioso por todo o distrito de SoHo. De onde 
ela tirou essa idia?
- Voc sabe que ela  uma criatura impulsiva e dramtica. - Cybil provou um biscoito. Era comum as duas se referirem a Emily e aos outros personagens como se fossem 
pessoas de verdade. 
- E abelhuda tambm. Ela simplesmente precisava saber.
- E quanto a voc? J descobriu alguma coisa sobre nosso sr. Misterioso?
- Sim - respondeu Cybil, com um suspiro. - O nome dele  McQuinn.
- Tambm ouvi dizer isso. - Instantaneamente alerta, Jody apontou o dedo para a amiga. 
- Ei, voc suspirou!
- No, s respirei mais fundo.
- No, voc suspirou. E por qual motivo?
- Bem, na verdade... - Cybil estava morrendo de vontade de falar sobre aquilo. 
- Ns... acabamos saindo ontem  noite.
- Vocs saram? Como um casal? - Jody puxou a cadeira mais para perto da amiga no mesmo instante. - Onde? Como? Quando? Detalhes, Cyb. Quero detalhes.
- Est bem, ento. - Cybil virou mais a cadeira, at ficarem uma de frente para a outra. - Voc sabe que a sra. Wolinsky est sempre querendo que eu saia com o sobrinho 
dela, no ?
- Ah, de novo?! - Jody revirou os olhos. - Ser possvel que ela no v que vocs no tm nada a ver um com o outro?
O imenso carinho que Cybil sentia pela amiga foi o que a impediu de dizer que aquilo tambm servia para ela e Frank.

- Bem,  que a sra. Wolinsky adora o sobrinho. De qualquer modo, ela arranjou outro encontro entre ns ontem  noite, s que eu no estava com a mnima vontade de 
ir. Mas voc ter de jurar que no vai dizer isso a ningum.
- Exceto Chuck.
- Tudo bem. Maridos esto excludos do voto de silncio nesse caso. Bem, o fato  que eu disse a ela que j tinha um encontro... com McQuinn.
- Voc tinha um encontro com ele?
- No, eu s disse isso porque fiquei desesperada. E voc sabe como comeo a gaguejar quando minto.
- Deveria praticar mais. - Jody comeu outro biscoito.
- Talvez. Mas assim que acabei de dizer isso, percebi que ela iria ficar olhando pela janela para se certificar de que eu ia mesmo sair com ele, por isso tive de 
apelar e fazer uma espcie de acordo com McQuinn. Dei cem dlares a ele e lhe paguei um jantar.
- Voc pagou a ele?! - Jody arregalou os olhos, mas estreitou-os em seguida, com ar especulativo. - Mas isso  brilhante. Se eu houvesse tido essa idia na poca 
da faculdade, quando no estava namorando ningum e nem tinha com quem sair, a histria teria sido outra, minha amiga. Como se decidiu pela quantia de cem dlares?
- Achei que parecia justo. Ele no est trabalhando regularmente, e achei que ficaria agradecido pelo dinheiro e pela refeio. At que nos divertimos - acrescentou, 
com um sorriso. - Foi realmente muito bom. S espaguete e boa conversa. Bem, na verdade, o encontro tendeu mais para o monlogo, porque McQuinn no  muito de falar.
- McQuinn - Jody repetiu o nome devagar. - Ainda soa misterioso. No sabe o primeiro nome dele?
- Ele no o disse em nenhum momento e nem me ocorreu perguntar. De qualquer maneira,  melhor assim. Acho que fui meio precipitada, Jody. Ele estava parecendo relaxado, 
quase amigvel, ento vi o carro de Johnny e entrei em pnico. Imaginei que a sra. Wolinsky no iria me deixar em paz se eu no demonstrasse com clareza que estava 
interessada em outra pessoa. Ento fiz outro acordo com McQuinn e ofereci a ele cinqenta dlares por um beijo.
Jody apertou os lbios, antes de tomar outro gole de caf.
- Deveria ter deixado claro que esse valor estava includo nos cem dlares - disse ela.
- No houve tempo - justificou Cybil. - J havamos definido o acordo e no havia mais tempo para renegociar. A sra. Wolinsky estava nos espiando atravs da janela. 
Ento ele me beijou bem ali, na calada do prdio.
- Uau! - Jody comeu outro biscoito. - E qual movimento de impacto ele usou?
- Ele me puxou de uma vez e colou meu corpo ao dele.
- Minha nossa! A puxada sbita. Oh, adoro esse movimento.
- Ento fiquei l, em meio aos braos dele e mal conseguindo me equilibrar na ponta dos ps, porque ele  alto.
- Sim, ele  bem alto - anuiu Jody, ainda mastigando o biscoito. - E atltico tambm.
- Realmente atltico, minha amiga. Quero dizer, seus msculos parecem rocha.
- Oh, Deus. - Jody lambeu os dedos, sem desviar os olhos da amiga. - Ento voc estava l, na ponta dos ps. E depois?
- Bem, ele... se inclinou.
- Ah, meu Deus... Uma puxada sbita com inclinao! - Em sua empolgao, Jody quase derrubou o outro biscoito que havia acabado de pegar. - Um movimento clssico. 
Quase nenhum homem utiliza isso hoje em dia, minha cara. Chuck fez isso em nosso sexto encontro, e foi assim que terminamos no meu apartamento, experimentando a 
comida de um fast food chins, na cama.
- Pois McQuinn agiu como um perito no assunto. Ento, quando eu estava sentindo a cabea girar, ele se afastou de repente e simplesmente olhou para mim.
- Homens - disse Jody, com ar de censura.
- E fez tudo novamente! - festejou Cybil.
- Um duplo?! No acredito! - Jody segurou a mo da amiga, quase dando um-pulo de alegria. - Voc recebeu um duplo, Cyb! H mulheres que passam a vida inteira sem 
sequer saber o que  isso! Sonham com isso, claro, mas nunca passam pela emoo de experimentar a puxada sbita com inclinao seguida de beijo, olhar intenso e 
beijo.

- Foi minha primeira vez - confessou Cybil. - E foi... maravilhoso!
- Tudo bem, tudo tem. Agora apenas a parte do beijo, certo? Apenas a parte dos lbios e das lnguas. Que tal foi essa parte?
- Muito ardente.
- Ah, meu Deus! Acho que terei de abrir a janela de novo. Estou comeando a suar.
Dizendo isso, levantou-se com um movimento sbito e abriu a janela, respirando fundo.
- Ento foi ardente. Muito ardente. Continue.
- Foi como ser... Sei l, devorada. Sabe quando seu corpo inteiro fica trmulo, um calor gostoso se espalha por seu corpo e... - Cybil moveu as mos, tentando encontrar 
as palavras certas para se expressar. - No sei como descrever.
- Tem de se esforar. - Aflita, Jody segurou-a pelos ombros. - Tente isso: -na escala de um a dez, que nota voc daria?
Cybil fechou os olhos.
- No h escala...
- Sempre h uma escala - Jody a interrompeu. - No  possvel...
- No, Jody, o que eu senti no se enquadra em nenhuma escala.
Jody deu um passo atrs.
- Deus meu... Preciso me sentar. - Jody sentou-se, passando a mo pela testa. - Voc experimentou um beijo que no se enquadra em nenhuma escala. Acredito em voc, 
Cyb. Mas muita gente no acreditaria. Muitas pessoas poderiam at zombar dessa afirmao, mas eu acredito no que disse.

Cybil sorriu.
- Eu sabia que poderia contar com voc.
- Sabe o que isso significa, no sabe? Significa que McQuinn arruinou sua vida. Agora, nem mesmo um beijo nota dez vai satisfaz-la. Voc vai sempre procurar um 
que no se enquadre em nenhuma escala.
- Isso j me ocorreu. - Pensativa, Cybil pegou lpis e comeou a tamboril-lo sobre a mesa. 
- Mas creio que ser possvel levar uma vida tranqila e feliz, alcanando com certa regularidade uma escala entre sete e dez, mesmo depois dessa experincia. O 
homem pode at ir  lua, Jody, viajar pelo espao e se ver em outro mundo por algum tempo, mas tem de voltar para a terra e continuar vivendo.
- Puxa, isso foi sbio. - Jody tirou um lencinho de papel do bolso da cala. - Quase herico.
- Obrigada - Cybil agradeceu e, com um de seus sorrisos marotos, acrescentou: 
- Mas, enquanto isso, no far nenhum mal bater  porta em frente de vez em quando, certo?

Cybil estava descendo para o andar de baixo, aps uma manh de intenso trabalho. Ao ouvir o familiar e agradvel som do sax, pensou em bater  porta de seu vizinho 
para lhe oferecer um caf, mas o som do interfone lhe interrompeu os pensamentos.
- Sim?
- Estou procurando o sr. McQuinn, do 3A - disse uma voz feminina.
- No, ele est no apartamento 3B.

- Oh, droga, ento por que ele no est respondendo?,
- Provavelmente porque no ouviu o interfone, j que est tocando sax - explicou Cybil.
- Ento poderia me anunciar, querida? Sou a empresria dele e j estou cansada de ficar aqui tocando esse interfone.
- Empresria dele? - Cybil repetiu.
Bem, se McQuinn tinha uma empresria, queria conhec-la. J havia pensado em indic-lo a vrias pessoas e talvez essa fosse sua chance de ajud-lo de alguma maneira.
- Claro, pode subir - dizendo isso, acionou o boto que destravava o porto de entrada.
Em seguida, abriu a porta de seu apartamento e ficou esperando do lado de fora. A mulher que saiu do elevador parecia muito profissional e bemsucedida, segundo Cybil 
notou- com certo espanto. O tailleur vermelho lhe atribua um ar de elegncia e sofisticao, assim como a pasta executiva de modelo feminino.
Cybil franziu o cenho. Ento por que o cliente dela parecia estar passando por dificuldades financeiras?
- Voc  a moradora do 3A?
- Sim, meu nome  Cybil.
- Sou Amanda Dresher, mas pode me chamar de Mandy. Obrigada por haver aberto o porto para mim, Cybil. Nosso "garoto" aqui no est atendendo ao telefone e, pelo 
visto, esqueceu-se de que tnhamos uma reunio  uma hora, no Restaurante Four Seasons.
- O Four Seasons? - Cybil se surpreendeu. Aquele era um dos restaurantes mais caros da regio. - No parque?
- Esse mesmo. - Com um sorriso, Mandy apertou a campainha do apartamento 3B. - Preston  muito talentoso, mas temperamental demais de vez em quando.
- Preston? - Cybil levou um instante para entender sobre quem ela estava falando. - Ah, Preston McQuinn. - Com um suspiro de indignao, acrescentou: - O autor de 
Rede de Almas.
- Isso mesmo - confirmou Mandy. - Vamos l, Preston, abra logo esta porta... - falou ela, tamborilando os dedos sobre a madeira. - Quando ele decidiu passar alguns 
meses na cidade, pensei que conseguiria ter mais acesso a ele. Mas, pelo visto, eu me enganei mais uma vez. Ora, at que enfim.
Ambas ouviram o rudo das trancas sendo abertas com gestos sbitos e, aparentemente, mal-humorados. Ento ele abriu a porta.
- O que diabos... Mandy?
- Voc perdeu o almoo - ironizou ela. - E no atendeu ao telefone.
- Eu me esqueci do almoo e o telefone no tocou.
- Voc carregou a bateria?
- Provavelmente no. - Preston continuou no mesmo lugar, olhando para Cybil, logo atrs de Mandy. 
- Entre - disse  empresria. - S me d um minuto, sim?
- Eu j lhe dei uma hora - ironizou Mandy, falando por sobre o ombro enquanto passava pela porta. - Obrigada mais uma vez, querida - ela agradeceu a Cybil.

- No h de qu. - Cybil forou um sorriso. Ento fuzilou Preston com o olhar. - Canalha - disse ela por entre os dentes, antes de entrar em seu apartamento e bater 
a porta.
- No h nenhum lugar para se sentar aqui? - protestou Mandy, atrs dele.
- No. Quer dizer, sim. No andar de cima - resmungou em resposta, tentando ignorar a onda de culpa que o atingiu. - No costumo ficar muito neste andar.
- Estou vendo. Quem  a garota que mora em frente?
- O nome dela  Cybil Campbell.
- Achei que ela me parecia familiar.  a criadora das tiras cmicas Amigos e Vizinhos, no ? Conheo o empresrio dela. O homem  louco por ela. Vive dizendo que 
ela  sua nica cliente  prova de ego e livre de neuroses. Nunca se queixa, no atrasa os prazos e est sempre lhe dando lucro com a venda de seus personagens em 
agendas, calendrios e outras coisas do gnero.
Diante do silncio de Preston, Mandy acrescentou:
- Imagino como seria bom ter um cliente livre de neuroses, que se lembrasse dos almoos de negcios e que me mandasse presentes no meu aniversrio.
- As neuroses fazem parte do pacote, mas sinto muito sobre o almoo.
O aborrecimento de Mandy cedeu lugar  preocupao.
- O que aconteceu, Preston? Parece alterado por algum motivo. O roteiro no est indo bem?
- No, ele est caminhando. E melhor do que eu esperava. O problema  que no tenho dormido muito bem ultimamente.
- Continua saindo para tocar seu sax at altas horas da noite?
- No.
Estava era passando as noites em claro pensando em Cybil, Preston admitiu para si mesmo. Andando de um lado para outro e desejando t-la em seus braos. S que agora 
ela devia estar profundamente magoada com ele.
- Bem, j que no teremos mesmo o almoo, que tal me oferecer um caf? - sugeriu Mandy.
- Ainda h um pouco na garrafa - disse ele. - Estava fresco s seis horas da manh.
- Ento, deixe-me preparar outro.
Depois de preparar o caf, com os ingredientes que j se encontravam sobre a pia, Mandy abriu alguns armrios,  procura de algo para comerem. Considerava o bem-estar 
de Preston como parte de seu trabalho.
- Meu Deus, Preston, por acaso est fazendo greve de fome? No h mais nada aqui, alm de restos de batatas fritas e do que um dia foi um po francs, mas que agora 
s serve para experimento cientfico.
- No fui ao supermercado ontem - explicou ele, sem conseguir deixar de pensar em Cybil. - Para jantar, geralmente fao um pedido a algum restaurante.
- Pelo mesmo telefone que voc no atende? - Eu vou recarregar a bateria, Mandy.

- Espero que sim. Se pelo menos ele estivesse funcionando, agora estaramos sentados a uma mesa do Four Seasons, tomando champanhe Cristal para comemorar. - Com 
um sorriso, acrescentou: - Fechei o contrato, Preston. Rede de Almas vai se transformar em um grande sucesso do cinema. Ter os produtores que quiser, o diretor 
que preferir e a opo de fazer o roteiro pessoalmente. Tudo isso regado a uma generosa quantia, claro.
- No quero que estraguem o roteiro - foi a primeira reao dele.
- Isso s depender de voc. - Mandy suspirou. 
- Para no correr o risco de que algo no o agrade, faa voc mesmo o roteiro.
Sem dizer nada, Preston se aproximou da janela, ainda tentando absorver a notcia. Um filme mudaria a perspectiva que a pea havia atingido no teatro, mas, por outro 
lado, geraria uma renda de milhes de dlares.
- No quero me envolver demais nisso, Mandy. Toda aquela loucura do cinema no me agrada.
Ela serviu duas xcaras de caf e se aproximou da janela, entregando uma a ele.
- Ento faa apenas o trabalho de superviso. Ou de consultoria, se preferir.
- Sim, acho que isso ser suficiente para mim. Providencie tudo, est bem?
- Pode deixar comigo. Agora, se voc conseguir parar de dar pulos de alegria, poderemos conversar sobre seu trabalho atual.
Preston curvou os lbios, sem conter o sorriso.

Levado por impulso, deixou a xcara sobre o parapeito da janela e segurou o rosto de Mandy entre as mos.
- Voc  a melhor e, com certeza, a mais paciente empresria desse ramo.
- Est absolutamente certo. Espero que esteja to orgulhoso de voc quanto eu estou. Vai dar a notcia  sua famlia?
- Deixe-me primeiro digerir a idia por alguns dias.
- A notcia vai se espalhar logo, Preston. No vai querer que eles a recebam por outros meios, no ?
- Tem razo - anuiu ele. - Vou ligar para eles. - Com um sorriso, completou: - Depois de recarregar a bateria do telefone, claro. Por que no samos para comemorar, 
tomando champanhe?
- Pensando bem, por que no? Ah, s mais uma coisa - falou Mandy, em um tom casual. - No vai me dizer o que est havendo entre voc e a bela garota do apartamento 
3A?
- No tenho certeza de que haja alguma coisa para dizer - respondeu Preston, em um resmungo.

Preston continuava a no ter certeza sobre aquilo quando bateu  porta de Cybil naquela mesma noite. Mas sabia que tinha de fazer alguma coisa a respeito daquela 
sombra de indignao e tristeza que vira nos olhos dela, horas antes.
No que aquilo dissesse respeito a ela de alguma maneira, lembrou a si mesmo. No pedira a ela que bisbilhotasse sua vida. De fato, fizera tudo para que ela se mantivesse 
afastada. Pelo menos at a noite anterior, concluiu ele, com um suspiro exasperado.
Sempre detestara agir por impulso, e fora justamente isso que fizera na noite anterior. Para comear, no deveria ter aceitado sair com ela. Ainda mais por um motivo 
to idiota. E muito menos beij-la, ainda que por um motivo louvvel: puro desejo.
Quando Cybil abriu a porta, Preston estava mais do que pronto para um pedido de desculpas.
- Oua, sinto muito - comeou, com um certo tom de impacincia. - De qualquer maneira, isso no era da sua conta. Vamos apenas esclarecer as coisas.
Ele fez meno de entrar, mas parou de repente quando Cybil o deteve, levando a mo a seu peito.
- No o quero na minha casa.
- No diga tolices, Cybil, foi voc quem comeou. Talvez eu tenha deixado as coisas sarem um pouco do controle, mas...
- Comecei o qu?
- Isso!
Preston levantou as mos, aborrecido pela falta de palavras e detestando ver aquela sombra de tristeza no olhar dela.
- Tudo bem, eu comecei - Cybil admitiu. - Nunca deveria ter levado biscoitos para voc. Sim, foi pura idiotice da minha parte. Tambm no deveria ter me preocupado 
em arranjar um emprego para voc e nem em lhe oferecer uma refeio decente, por pensar que voc no tinha condies de pagar uma.

- Droga, Cybil...
- Voc deixou que eu pensasse tudo isso! - ela o interrompeu, furiosa. - Deixou que eu acreditasse que estava passando por dificuldades, que era um msico desempregado, 
e aposto que deve ter rido muito disso. O brilhante e premiado roteirista Preston McQuinn, autor da magnfica pea Rede de Almas. Aposto que est surpreso por eu 
conhecer o seu trabalho. Uma idiota feito eu no anda por a lendo crticas sobre peas de teatro.
Preston continuou em silncio, e ela o fez dar um passo atrs.
- No  mesmo, Preston? O que uma "desenhistazinha" de tiras cmicas de jornal iria entender de arte? Ainda mais sobre teatro, sobre literatura sria? Deve ter rido 
muito  minha custa, no? Seu arrogante elitista! - A voz de Cybil falhou, sendo que ela havia prometido a si mesma que isso no aconteceria. - Eu estava apenas 
tentando ajud-lo.
- Mas eu no pedi sua ajuda. Eu no queria sua ajuda.
Preston notou que ela estava prestes a explodir em lgrimas. E quanto mais isso se evidenciava, mais furioso ele se sentia. Sabia muito bem como as mulheres usavam 
o choro para arrasar um homem, e no deixaria isso voltar a acontecer em sua vida.
- Meu trabalho diz respeito apenas a mim - acrescentou.
- Seu trabalho  produzido na Broadway e, se voc no sabe, isso o torna pblico - retrucou Cybil. 
- No tinha nada que andar por a fingindo ser um saxofonista.
- Toco sax porque gosto de tocar, s isso. No estava fingindo ser, alguma coisa, foi voc quem deduziu isso.
- E voc no fez a mnima questo de me esclarecer.
- E se eu tivesse feito isso? Eu me mudei para c em busca de um pouco de paz e tranqilidade. Queria ficar sozinho. Mas quando me dei conta, l estava voc me trazendo 
biscoitos, seguindo-me pela rua e me fazendo passar metade da noite em uma delegacia de polcia. Como se no bastasse, depois apareceu pedindo que eu sasse com 
voc para se livrar do olhar bisbilhoteiro de uma mulher de setenta anos, s porque no tem coragem de dizer a ela para no se meter em sua vida pessoal. E quando 
pensei que j tinha visto tudo que poderia ver, qual no foi meu espanto ao receber a proposta de ganhar cinqenta dlares por um beijo.
O sentimento de humilhao finalmente fez uma lgrima rolar pelo rosto de Cybil, enquanto uma espcie de n se formava em sua garganta.
- No comece com isso - disse Preston.
- Quer que eu no chore vendo-o me humilhar desse jeito? Vendo voc me fazer sentir idiota, ridcula e envergonhada? - Cybil no se importou com as lgrimas que 
comearam a molhar seu rosto. Simplesmente continuou a encarar Preston com toda sua indignao. - Sinto muito, mas no sou to fria assim. Ainda choro quando algum 
me magoa.
- Foi voc mesma quem pediu isso.
Preston tinha de dizer aquilo. De fato, ele estava desesperado para acreditar naquilo.
- Voc conhece os fatos, Preston - disse ela, num fio de voz. - Tem todos eles  sua disposio, mas insiste em ocultar seus sentimentos por trs deles. Levei biscoitos 
para voc porque pensei que poderia precisar de um amigo. J me desculpei por hav-lo seguido, mas posso me desculpar novamente.
- Eu no quero...
- Ainda no terminei - Cybil falou com tanta dignidade que o fez sentir uma onda de culpa. - Levei-o para jantar porque no queria magoar uma senhora muito doce 
e por pensar que voc poderia estar faminto. Gostei de sua companhia e senti algo diferente quando voc me beijou. Na verdade, pensei que voc tambm houvesse sentido. 
Portanto, voc est certo - ela assentiu, enquanto outra lgrima rolava por seu rosto. - Fui eu mesma quem pediu isso. Suponho que guarde todas suas emoes para 
o seu trabalho e que por isso no encontre uma maneira de aplic-las em sua vida. Sinto muito por voc. E sinto muito por haver pisado em seu solo sagrado. Nunca 
mais farei isso.
Antes que Preston pudesse pensar em algo para responder, Cybil fechou a porta. Ento ele ouviu as trancas sendo acionadas com fria. Girando sobre os calcanhares, 
voltou para seu apartamento e seguiu o exemplo dela, tambm fechando as trancas da porta.
Finalmente tinha o que queria, disse a si mesmo. Solido. Quietude. Cybil no voltaria a bater  sua porta, no o interromperia, no o distrairia e nem o envolveria 
em conversas das quais ele no queria participar. No lhe traria sentimentos com os quais ele no sabia o que fazer.
De p, na sala vazia, suspirou alto. Estava exausto daquilo tudo.


CAPTULO V
Preston s estava conseguindo dormir por alguns breves cochilos. E estes eram invadidos por sonhos, sempre envolvendo Cybil de alguma maneira. Via-se em lugares 
estreitos e era sempre como se ela o houvesse levado at ali. Ento ela se aproximava e o sonho se tornava perigosamente ertico, fazendo-o acordar excitado e furioso 
ao mesmo tempo.
Tambm no estava conseguindo comer. Era como se nada o satisfizesse, como se nada parecesse to saboroso como a refeio que os dois haviam compartilhado noites 
antes. Passara a se sustentar de caf, at sentir seus nervos  flor da pele e o estmago queimando em protesto.
Mas estava conseguindo trabalhar. Quando suas emoes ficavam tumultuadas, seus surtos de criatividade se tornavam mais intensos. Era quase doloroso ter de arrancar 
aqueles sentimentos de seu prprio corao, transferindo-os para as atitudes de seus personagens, mas era assim que ele trabalhava. Sempre fora. Arrancando seus 
prprios sentimentos e fazendo-os dar vida e personalidade quelas pessoas, por meio das palavras. Em sua mente, era como se j visse a pea sendo encenada no palco, 
com toda aquela avalanche de emoes sendo trocada entre os atores e o pblico.
A certa altura, Preston lembrou-se do que Cybil havia lhe dito antes de fechar a porta. Que ele devia usar todas as emoes no trabalho, esquecendo-se de aplic-las 
 prpria vida.
Ela tinha razo, e talvez fosse melhor assim. Para ele, havia muito poucas pessoas nas quais poderia confiar. Seus pais, sua irm... Ainda que sua necessidade de 
atender s expectativas deles agisse em sua vida como uma faca de dois gumes.
Havia tambm Delta e Andr, amigos leais que no esperavam dele mais do que poderia oferecer. Mandy, que sempre lhe chamava a ateno nos momentos certos e que o 
ouvia quando ele precisava de algum para desabafar.
No precisava de mais ningum. Muito menos de uma mulher que, de um momento para outro, poderia decepcion-lo. No passaria novamente por isso. Aprendera a lio 
da primeira vez e ainda mantinha muito vvidas na lembrana todas as conseqncias que as atitudes de Pamela haviam provocado em sua vida.
Com todas suas mentiras, decepes e traies, ela meio que o deixara imunizado quanto quele tipo de armadilha sentimental. Uma lio dura como aquela, aprendida 
aos vinte e cinco anos, no era algo fcil de se esquecer na vida de um homem. Desde que percebera a tolice que era acreditar no amor, nunca mais perdera tempo procurando 
por ele.
Ainda assim, no conseguia parar de pensar em Cybil.
Tinha ouvido ela sair vrias vezes naqueles ltimos trs dias. E tambm flagrara-se distrado com o som de risos, vozes e msica vindos do apartamento dela. Cybil 
no estava sofrendo, disse a si mesmo. Ento por que ele estava?
Sentimento de culpa, concluiu. Havia magoado uma pessoa especial, ainda que sua atitude no houvesse sido necessria ou intencional. Havia-se deixado levar pelo 
charme de Cybil, mesmo relutantemente. No tivera inteno de mago-la ou de faz-la se sentir a pior das criaturas. As lgrimas de uma mulher ainda surtiam um forte 
apelo em seu ser, por mais que ele soubesse quanto elas podiam ser sinal de falsidade e de manipulao.
No entanto, as lgrimas Cybil no haviam lhe parecido falsas ou manipuladoras. Muito pelo contrrio.
Por fim, convenceu-se de que no resolveria seu problema, enquanto no esclarecesse aquilo tudo de uma vez. No havia se desculpado devidamente. Sim, iria pedir 
desculpas mais uma vez, agora que Cybil havia tido algum tempo para refletir sobre o que havia acontecido.
No havia motivo para os dois se tornarem inimigos, claro que no. Afinal, ela era neta de um homem que ele admirava e respeitava muito. Alm disso, duvidava que 
Daniel MacGregor ficasse satisfeito se soubesse que ele havia feito sua querida neta chorar. E a opinio de Daniel MacGregor importava muito para ele. Sempre importara.

Sabia que ela estava fora, pois a tinha ouvido fechar a porta algum tempo antes. Talvez fosse melhor ficar esperando-a, para no perder a chance de falar com ela 
enquanto ainda estava movido por aquela onda de determinao.
Porm, provavelmente teria desistido se visse a expresso furiosa de Cybil meia hora depois, quando ela entrou no elevador, vindo do mercado. Estava aborrecida com 
o simples fato de ter de passar diante da porta de Preston. Detestava o fato de ter de se lembrar dele ao passar por ali, de como agira feito uma idiota, e pior: 
de quanto ele a fizera sentir-se uma idiota.
Equilibrando os dois pacotes que trazia nos braos, tentou encontrar logo a chave na bolsa, para no correr o risco de passar muito tempo no corredor. O elevador 
fez o caracterstico rudo indiscreto ao parar em seu andar, mas ela continuou procurando a chave depois de sair dele.
Ento enrijeceu o maxilar e estreitou o olhar ao notar a presena de Preston no final do corredor.
- Oi, Cybil. - Preston nunca vira um olhar to glido a ponto de deix-lo desconcertado. - Ah, deixe-me ajud-la com isso.
- No preciso de sua ajuda, obrigada - replicou ela, rezando para encontrar logo a maldita chave.
- Precisa sim, se vai mesmo ficar a vasculhando a bolsa.
Preston tentou sorrir, antes de comear uma espcie de cabo-de-guerra por causa de um dos pacotes. Por fim, conseguiu tir-lo de Cybil. 
- Escute aqui, j disse que sinto muito. Quantas vezes terei de dizer isso at que voc se convena de que estou sendo sincero?
- V para o inferno! - bradou ela. - Quantas vezes terei de dizer isso at que voc comece a sentir o calor das chamas?
Cybil finalmente encontrou a chave e colocou-a na fechadura.
- Agora me d meu pacote.
- Eu o levarei para voc.
- J disse para me dar maldito pacote - mandou ela, por entre os dentes. Os dois voltaram a "brincar" de cabo-de-guerra, at ela deixar escapar um suspiro resignado. 
- Ento, fique com ele!
Ela abriu a porta com um movimento abrupto, mas antes que pudesse fech-la, Preston a segurou e entrou sem maiores dificuldades. Os dois se entreolharam, estreitaram 
os olhos e Preston teve a impresso de ver um brilho de vingana nos olhos dela.
- Nem pense nisso - avisou ele. - No estou usando cueca de ferro.
Ainda assim, Cybil pensou na possibilidade de causar algum dano. Mas desistiu ao concluir que isso s o faria sentir-se mais importante do que ela estava determinada 
a faz-lo se sentir. Ento, limitou-se a girar sobre os calcanhares e tirar os tnis cor-de-rosa, como costumava fazer ao chegar em casa. Em seguida foi at a mesa 
e colocou sobre ela o pacote que estava carregando. Quando Preston fez o mesmo, ela assentiu.
- Obrigada. Quer uma gorjeta?
-- Muito engraado. Primeiro vamos acertar isso. - Preston pegou a carteira no bolso, tirou dela uma nota de cem dlares e a entregou a Cybil. 
- Aqui est.
- No vou aceitar o dinheiro de volta. Voc fez por merec-lo.
- No vou aceitar seu dinheiro por aquilo que acabou se tornando uma piada de mau gosto.
- Piada de mau gosto?! - A sombra de frieza nos olhos dela se transformou em chamas verdes. 
- Ento foi isso para voc? Bem, mas no estou surpresa. J que tocou no assunto, acho que ainda estou lhe devendo cinqenta dlares, no?
Preston enrijeceu o maxilar quando ela abriu a bolsa e comeou a procurar o dinheiro. Aquilo j estava indo longe demais.
- No me provoque, Cybil. Pegue o dinheiro de volta de uma vez.
- No.
- Eu disse para pegar esse maldito dinheiro de volta. - Dizendo isso, ele lhe segurou o pulso e colocou o dinheiro palma da mo dela. 
- Agora... - interrompeu-se, atnito, quando a viu rasgar a nota de cem dlares em pedacinhos e jog-los no ar.
- Pronto! Problema resolvido.
- Essa foi uma atitude muito idiota - Preston a censurou.
- Idiota? Bem, para que quebrar a regra, no  mesmo? Pode ir embora agora.
A voz dela estava to estridente e furiosa que Preston teve de se conter para no pestanejar.
- Muito bom, muito eficaz - disse ele. - A dama da voz supersnica finalmente apareceu.

Quando ela voltou a falar, em um tom ainda mais abrupto, conseguiu sobressalt-lo.
- Muito eficiente mesmo - ironizou Preston.
Furiosa demais para continuar o combate verbal, Cybil simplesmente foi at a mesa e comeou a esvaziar os pacotes. Se insultos e gritos no estavam funcionando, 
talvez ignor-lo desse algum resultado.
De fato, talvez at houvesse funcionado se Preston no tivesse visto suas mos trmulas, quando ela colocou uma caixa sobre a mesa. Ver aquilo, levou-o a sentir 
mais uma vez aquela onda de culpa que vinha experimentando nos ltimos dias.
- Cybil, sinto muito. - Ele a viu hesitar, ento pegar uma latinha de sopa e coloc-la sobre a mesa. 
- A situao me escapou do controle e eu no fiz nada para corrigir meu erro. Eu deveria ter feito alguma coisa.
- No precisava ter mentido para mim. Eu teria deixado voc em paz.
- Eu no menti, pelo menos no comecei. Mas deixei que voc, continuasse pensando algo que no era verdade. Quero minha privacidade. Preciso dela.
- Pois agora a tem. Afinal, no fui eu quem acabou de passar pela porta do apartamento de outra pessoa.
- No, no foi voc. - Preston enfiou as mos nos bolsos, ento tirou-as novamente e apoiou-as sobre a mesa. 
- Eu magoei voc, e no queria ter feito isso. Sinto muito pelo que aconteceu.
Cybil fechou os olhos, sentindo que o muro que havia levantado para se proteger comeara a ruir.

- Por que mentiu?
- Porque pensei que isso a manteria em seu prprio lugar. Porque senti que sua proximidade era um pouco perigosa demais para mim. E porque, no ntimo, parte de mim 
desejava que voc continuasse querendo me ajudar a encontrar um emprego. - Preston hesitou ao v-la encolher os ombros. - Cybil, eu no quis ofend-la. Mas como 
poderia no me divertir vendo-a me oferecer cem dlares para jantar com voc? E tudo isso para no magoar uma velhinha de setenta anos e poder, ao mesmo tempo, oferecer 
uma boa refeio a um saxofonista desempregado. Aquilo foi muito... doce de sua parte. E isso no  algo muito comum de eu dizer, pode acreditar.
-  humilhante - resmungou ela, pegando o outro pacote e se encaminhando para a cozinha.
- No deixe que seja. - Preston deu a volta pelo balco, de modo que os dois ficaram na cozinha. - A situao s teve aquele efeito desastroso porque deixei que 
a coisa fosse longe demais. Assumo a culpa por isso. Se eu tivesse lhe contado a verdade durante o jantar, como deveria ter feito, aposto que voc teria rido muito 
de tudo. Mas, em vez disso, eu a fiz chorar e no consigo me perdoar por isso.
Cybil permaneceu onde estava, diante da geladeira. No imaginara que Preston fosse se importar tanto com aquilo, e que se desculpar houvesse se tornado uma questo 
to essencial para ele. Mas, pelo visto, enganara-se. E ela simplesmente no conseguia resistir  completa sinceridade de algum.

Respirando fundo, disse a si mesma que talvez valesse a pena tentar fazer as pazes com ele.
- Quer uma cerveja?
Preston relaxou os ombros no mesmo instante.
- Claro que quero.
- Foi o que eu imaginei. - Cybil pegou uma garrafa, colocou-a sobre a pia e comeou a procurar um copo para ele. 
- Deve estar com sede. Eu nunca tinha ouvido voc falar tanto de uma s vez desde que nos conhecemos.
Quando se virou para ele com o copo de cerveja, Preston estava com um brilho de divertimento no olhar.
- Obrigado - agradeceu ele, aceitando o copo.
- Mas estou sem biscoitos.
- Ainda h tempo de fazer alguns.
- Talvez. - Cybil comeou a examinar as compras. 
- Para ser sincera, eu estava pensando em preparar uma torta. - Arriscando um olhar por sobre o ombro, arqueou uma sobrancelha. 
- Nunca comemos torta juntos.
-  verdade.
A viso foi sensual demais para sua paz de esprito, pensou Preston. Cybil estava vestida com um camiso branco de algodo e com uma cala justa de um bonito tom 
de azul-claro. Porm, o detalhe mais provocante era o fato de ela estar descala. A viso dos ps delicados, com as unhas pintadas de cor-de-rosa, provocou-lhe uma 
onda de excitao. As preferncias exticas de Cybil, como aquela de usar dois brincos de argola em uma mesma orelha e uma simples pedrinha de brilhante na outra, 
deixavam-no quase sempre encantado. Cybil era uma surpresa constante. Deliciosamente inesperada.
Quando ela se virou para continuar esvaziando o pacote de compras, Preston lhe segurou o pulso com a mo que se encontrava livre. 
- Estamos de bem novamente? - Parece que sim.
- Ento h algo mais que preciso lhe dizer. - Ele colocou a garrafa cerveja sobre a pia. 
- Sonhei com voc.
Foi a vez de Cybil sentir a boca secar. 
- O qu?
- Sonhei com voc - repetiu Preston, aproximando-se dela o suficiente para que Cybil se encostasse contra a parede.
Pelo menos dessa vez era ela que estava contra a parede, no ele, pensou Preston.
- Sonhei que estava tocando voc. - Sem desviar os olhos dos dela, ele roou a ponta dos dedos sobre os seios dela. 
- E acordei sentindo o sabor dos seus lbios.
- Ah, meu Deus.
- Voc disse que sentiu algo quando a beijei, e que achou que eu tambm havia sentido. - Enquanto falava, foi deslizando as mos devagar at os quadris dela. 
- Voc estava certa.
Cybil engoliu em seco, sentindo as pernas trmulas.
- Estava?
- Sim. E quero sentir aquilo novamente.
Ela se endireitou junto  parede quando ele se aproximou mais.

- Espere!
Preston parou os lbios a centmetros dos dela.
- Por qu?
Cybil no soube ao certo o que dizer.
- Eu no sei.
Os lbios dele se curvaram em um de seus raros sorrisos.
- Mande que eu pare quando achar que deve - sugeriu ele, antes de tom-la nos braos.
Foi a mesma coisa de antes. Cybil no tinha certeza de que voltaria a sentir todas aquelas sensaes maravilhosas se Preston voltasse a beij-la, mas foi exatamente 
isso o que aconteceu. No entanto, era como se todo seu ser estivesse preparado e esperando por aquele turbilho de sensaes. Jody tinha razo, pensou ela. Preston 
havia arrasado sua vida. Nunca mais ela conseguiria exigir menos do que aquilo.
Linda, receptiva, doce, carinhosa... Cybil era tudo isso. Tudo aquilo que ele havia esquecido de que tanto precisava estava bem ali, em seus braos, concluiu Preston. 
Queria t-la para si. E com uma urgncia que nem mesmo ele esperava sentir.
- Quero beij-la, Cybil - disse, com voz rouca. Roando os lbios sobre a curva sensvel do pescoo delicado, acrescentou: - Aqui, bem aqui...
Cybil fechou os olhos.
- No.
Aquela era a ltima coisa que ela esperava ouvir sair de seus prprios lbios, com as mos de Preston passeando por seu corpo e levando-a a desejar ir alm, muito 
mais alm. Ainda assim, porm, ouviu-se repetir:
- No. Espere.
Preston levantou a cabea, fitando-a com os olhos enevoados de desejo.
- Por qu?
- Porque eu... - Cybil se interrompeu com um gemido, quando Preston pousou a mo em concha sobre um de seus seios.
- Eu te quero, Cybil - sussurrou ele, junto ao ouvido dela. - E sei que voc me quer.
- Sim, mas... - Ela abriu e fechou as mos sobre os ombros dele, lutando contra a onda de desejo que a estava invadindo. 
- H certas coisas que no me permito fazer por impulso. Sinto muito, mas essa  uma delas.
Cybil exalou um suspiro trmulo. Preston estava muito perto, pensou, observando os detalhes daquele rosto bonito. Perto demais.
- No se trata de um jogo, Preston.
Ele arqueou uma sobrancelha, surpreso por ela haver sido to perspicaz em deduzir seus pensamentos.
- No? No - afirmou em seguida, entendendo o que ela quisera dizer. 
- Voc no aceitaria esse tipo de jogo, no ?
Algum aceitara antes dela. E provavelmente magoara Preston por isso, deduziu ela, lamentando por ele.
- No sei. Nunca agi assim antes.
Ele deu um passo atrs e se afastou, parecendo recobrar o controle enquanto ela ainda continuava trmula.
- Preciso de um tempo antes de me sentir suficientemente segura para compartilhar minha intimidade com outra pessoa. Fazer amor  uma espcie de presente que no 
deve ser banalizado. Pelo menos na minha opinio.
As palavras de Cybil o tocaram de alguma maneira e, por motivos que nem ele mesmo conseguiu entender, levaram-no a se acalmar.
- E ouvir isso de voc significa que devo recuar? - perguntou Preston, enfiando as mos nos bolsos, para conter a vontade de voltar a toc-la.
- Significa que eu quero que voc entenda por que estou dizendo "no", mesmo estando morrendo de vontade de dizer "sim", sendo que ambos sabemos que voc poderia 
facilmente me levar a dizer "sim".
A chama de desejo se reacendeu nos olhos dele.
- Sua sinceridade chega a ser perigosa, sabia? - - disse a ela.
- Voc precisa que eu lhe diga a verdade. - Cybil nunca conhecera algum que precisasse tanto ouvir a verdade. 
- E no minto para algum com quem eu esteja pensando em compartilhar minha intimidade.
Preston fitou-a nos olhos, parecendo surpreso com o que ouvira. Tinha noo de que poderia seduzir Cybil, mas usar esse artifcio s serviria para arruinar algo 
que nem ele mesmo ainda estava seguro de que existia.
- Voc precisa de tempo - Preston afirmou. 
- Tem idia de quanto?
Ela exalou outro suspiro trmulo, mas acabou curvando os lbios em um sorriso incerto.
- No posso dizer com certeza. Mas garanto que voc ser o primeiro a saber quando eu estiver pronta.
- Ento, por enquanto, vamos ficar apenas com isso...
Cybil se surpreendeu quando ele se aproximou e roou os lbios nos dela. Ela manteve os olhos abertos, esforando-se para no se render s sensaes. Porm, foi 
impossvel ignorar a onda de calor que invadiu seu corpo.
- Hum... Sim, acho que, provavelmente, isso v funcionar - respondeu.
- Vamos esperar uma semana - sugeriu Preston, aprofundando o beijo ao ponto de levar Cybil a se afastar subitamente. Ao faz-lo, ela levou a mo ao peito dele.
- Duas semanas - disse a ele.
A ltima coisa que Preston esperava fazer em um momento de desejo to intenso era comear a rir.
- No sei se agentarei, mas poderei tentar - respondeu.
- Otimo.
Enquanto Cybil se esforava para recuperar o flego, ele pegou novamente a cerveja.
- Bem, com toda essa... - Ela gesticulou, esforando-se forando-se para encontrar as palavras certas. - No sei se preparo alguma...
- Comida? - sugeriu Preston, lisonjeado pela maneira como seu beijo a afetara.
- Comida, isso mesmo. Bem, pensei em preparar...
Preston ficou esperando que Cybil terminasse a frase, mas Cybil se limitou a levar as mos s tmporas e olhar para o fogo.
- O jantar?
- Isso. Isso mesmo, o jantar. Engraado como as palavras nos escapam de vez em quando, no? Vou preparar o jantar. - Virou-se para a pia, mas logo em seguida voltou 
a se dirigir a ele. 
- Quer ficar para o jantar?
Preston tomou um gole de cerveja e encostou o quadril na pia.
- Posso v-la cozinhar?
- Claro. Pode se sentar ali e at me ajudar a picar alguns legumes, se quiser.
- Est bem. - Pensando na viso interessante que teria, Preston deu a volta pelo balco e sentou-se em um banquinho, diante dela. 
- Voc cozinha muito?
- Sim, acho que sim. Gosto de cozinhar. Para mim, cozinhar  um processo inesperado, com todos aqueles ingredientes envolvidos, o calor e o tempo corretos, a mistura 
de aromas, texturas e sabores...
- Alguma vez j cozinhou nua?
Cybil estava inspirando o aroma de um mao de manjerico, mas parou de repente.
- Preston, isso foi uma piada? Se foi, no imagina quanto estou orgulhosa de voc. Nunca o vi fazer uma piada.
- No, no foi piada. Estou falando srio.
Ela riu, surpreendendo-o ao se inclinar e dar-lhe um beijo estalado nos lbios. Aquela imprevisibilidade de Cybil era o que mais o enfeitiava. Tanto que o levou 
a sorrir.

- E ento? Costuma fazer isso?
- Nunca quando estou dourando pedaos de frango, que  o que pretendo fazer.
- Tudo bem. Tenho uma tima imaginao. Ela riu novamente. Mas limpou a garganta ao notar o brilho de seduo nos olhos de Preston. 
- Acho que quero um pouco de vinho. Voc quer? - Ao v-lo levantar o copo de cerveja, murmurou: 
- Oh, claro.
Em silncio, tirou a garrafa de vinho da geladeira e voltou-se para ele, rindo. 
- Ter de parar com isso. 
- Parar o qu?
- De me fazer sentir como se eu estivesse nua. V pr uma msica no aparelho de som, para ouvirmos - sugeriu, indicando a sala com um gesto. 
- Oh, e tambm abra uma janela, porque est meio quente aqui. Depois me d algum tempo para voltar a pensar direito e poder pensar em algo para dizer.
- Voc nunca teve problemas para falar.
- Sei que quer fazer isso soar como um insulto para mim, mas no . Considero-me uma perita na arte da conversao.
- Ah, ento  assim que passaram a chamar os tagarelas agora?
- Ora, est mesmo muito engraadinho esta noite, no?
 E nada poderia t-la deixado mais satisfeita, , concluiu Cybil, em pensamento.
- Deve ser a companhia - respondeu Preston, indo at a sala. Ento arqueou uma sobrancelha, enquanto examinava os CDs. 
- Tem um timo gosto para msica.
- No esperava isso?
- Na verdade, no esperava encontrar Aretha Franklin, Fats Waller e B.B. King. Se bem que tambm h muita "tralha" aqui.
- E o que voc considera como "tralha"? - indagou ela,
Em resposta, ele apareceu no corredor e mostrou um CD intitulado Greatest Hits da Famlia Partridge.
Cybil conteve a vontade de rir.
- Tudo bem, reconheo que no  nenhum clssico, mas esse CD me foi dado por um amigo muito querido.
- Com um amigo desse, quem precisa de inimigos? - Preston resmungou em resposta.
Com um sorriso, Cybil recomeou a picar os legumes que seriam servidos com o frango.
- Durante um perodo da adolescncia, at fiz parte de uma banda, sabia? - disse a ele.
-  mesmo? - Preston se surpreendeu, enquanto colocava B.B. King para tocar.
- Hum-hum. Eu fazia o vocal principal e tocava guitarra. - Ela sorriu para ele, que voltou a se sentar junto ao balco da cozinha.
- Voc tocava guitarra? - Preston riu. Cybil era mesmo uma constante surpresa.
- Sim. Uma Fender vermelha, linda de morrer. Minha me ainda a guarda no lugar que antes era meu quarto, junto com sapatinhos da poca em que eu ainda era beb, 
meu kit de qumica, os desenhos que eu fazia quando costumava dizer que ia ser designer de moda e tambm os livros sobre animais que eu colecionava antes de descobrir 
que, para me tornar veterinria, teria de fazer experincias de laboratrio com os bichinhos.
- Comeando a cortar cenouras, acrescentou:
- Tudo isso fez parte da minha busca.
Preston estava encantado. Cybil era mesmo fascinante.
- Guitarras vermelhas e kits de qumica fizeram parte de sua busca?
- Eu no conseguia decidir o que ia ser. Tudo que eu comeava a fazer parecia muito divertido no incio, mas logo eu me cansava daquilo. Sabe cortar cenouras em 
cubinhos?
- No. Nunca pensou que acabaria fazendo o que faz hoje em dia?
Cybil suspirou, comeando a cortar a cenoura em cubinhos.
- No - admitiu ela. - Mas gosto muito do que fao, embora eu tenha muito trabalho. De qualquer maneira,  muito divertido. Voc no gosta de escrever?
- No completamente.
Cybil olhou para ele, surpresa.
- Ento por que faz isso?
- Porque no consigo me imaginar fazendo nenhuma outra coisa. Essa  minha nica busca - respondeu Preston.
Ela assentiu com um sorriso. Entendia-o muito bem.
- Tambm  assim com minha me - disse a ele. - Ela nunca pensou em fazer outra coisa, exceto pintar. s vezes, quando fico olhando ela trabalhar, noto quanto  
doloroso para ela ter uma viso e ter de se esforar ao mximo para conseguir retratar na tela aquilo que ela quer comunicar. Mas quando ela termina um trabalho, 
quando este se mostra suficientemente bom, ela se realiza. A satisfao, ou talvez o choque de ver o que ela  capaz de fazer,  que surte esse efeito nela. Deve 
ser assim com voc tambm.
Cybil levantou a vista, ento notou que Preston a estava observando com um olhar perscrutador.
- Sempre se surpreende quando demonstro saber algo a respeito de um assunto que voc no esperava, no ?
Dizendo isso, colocou a tigela com os legumes picados sobre o balco. Preston segurou-lhe o pulso, antes que ela pudesse de virar.
- Se isso ainda acontece,  porque sou eu quem no consegue entend-la, Cybil. E  provvel que eu continue a mago-la por isso.
- Mas  ridiculamente fcil me entender!
Preston riu.
- Era isso que eu pensava antes, mas estava enganado. Voc  um labirinto, Cybil. Com dezenas de caminhos e curvas inesperadas.
Um belo sorriso se insinuou nos lbios dela.
- Esta  a coisa mais bonita que voc j me disse.
- No sou do tipo que vive se derramando em gentilezas. Teria sido melhor me manter fora de sua vida, deixando que eu continuasse trancado no meu apartamento.
- Acho que at eu mesma j me convenci disso - admitiu ela. - Porm... - Pousou a mo no rosto dele, com gentileza. 
- Voc parece haver se tornado minha nova busca.
- At ela deixar de ser divertida e voc deix-la de lado?
A expresso de Preston se mostrou muito sria. Ele parecia preparado demais para acreditar no pior.
- Preston, voc est falando demais e trabalhando de menos. Sabe cortar batatas em formato de palitos?
- No tenho a mnima idia de como fazer isso.
- Ento olhe e aprenda, meu caro. Da prxima vez, quero que voc prepare o jantar. - Cybil pegou uma batata descascada e cortou-a com destreza, formando palitos. 
Ento arriscou um olhar para ele. - Ainda estou nua?
- Voc quer estar?
Ela riu e tomou um gole do vinho que deixara ao lado.
Levava muito tempo para preparar um simples jantar quando se era distrada por uma conversa agradvel, por olhares provocantes e toques sedutores.
Levava muito tempo para comer uma simples refeio quando o perigo de se apaixonar e a vontade de fazer amor com o homem sentado  sua frente se tornavam cada vez 
mais evidentes.
Cybil reconheceu os sinais: as batidas aceleradas de seu corao, o insistente calor pelo corpo acumulando-se deliciosamente entre suas pernas... Tudo isso aliado 
a sorrisos irresistveis e a suspiros incontidos era um forte indcio de que seria muito fcil se entregar ao amor.
Imaginou como seria se deixar levar. Provavelmente maravilhoso.
Levava muito tempo para se despedir quando se era arrebatada por longos beijos provocantes  porta de seu apartamento. E mais tempo ainda para conseguir pegar no 
sono quando seu corpo ardia de desejo e sua mente se encontrava repleta de imagens erticas.
De fato, s conseguiu dormir quando o som do sax vindo do outro apartamento finalmente cessou. Somente ento se entregou ao sono. E com um sorriso nos lbios.


CAPITULO VI
Com os cabelos ainda molhados do banho da manh, Preston entrou na cozinha e sentou-se no banquinho que Cybil havia feito questo de lhe emprestar. Enquanto comia 
cereais com banana, tambm mandados por Cybil, depois que ela vira que seus armrios se encontravam vazios, comeou a ler distraidamente o que estava escrito na 
caixa de cereais.
Segundo ela, at mesmo um ignorante em questes de cozinha, aparentemente ele prprio, seria capaz de preparar uma tigela de cereais com banana.
Preston havia decidido no tomar aquilo como ofensa, mesmo no se considerando to ignorante assim em matria de cozinha. Afinal, havia conseguido preparar uma salada 
na noite anterior, no havia? Tudo bem que Cybil fizera maravilhas com aqueles legumes e os pedaos de frango, mas isso era um mero detalhe.
De fato, ela cozinhava muito bem. Do jeito que as coisas estavam indo, ele acabaria deixando de lado os sanduches rpidos que estava acostumado a preparar para 
si mesmo.
Pensativo, olhou na direo da sala e franziu o cenho ao avistar o esquisito sapo de bronze segurando uma lmpada de non de formato triangular. Ainda no estava 
muito certo que como Cybil o convencera a comprar aquilo, e nem de como ela o levara a pagar  sra. Wolinsky uma boa quantia por uma cadeira reclinvel de segunda 
mo, da qual a mulher estava querendo se livrar. E com razo. Afinal, quem diabos iria querer ter na sala de casa uma cadeira reclinvel com detalhes em verde e 
roxo?
No entanto, l estava a cadeira em sua sala. Felizmente, apesar da horrvel aparncia, ela era bastante confortvel.
Mas quando se possua uma cadeira e um abajur, claro que tambm precisava de uma mesa. A sua era um modelo Chippendale, e estava precisando desesperadamente de uma 
reforma. Mas, como Cybil salientara, por isso mesmo  que seu preo havia sido uma barganha. Por acaso, ela tinha um amigo que restaurava mveis por hobby, e que 
poderia resolver aquele problema.
Tambm por acaso, tinha uma amiga que era florista, o que explicava a presena daquele vaso com belas margaridas sobre o balco da cozinha.
Um outro amigo, pelo visto ela tinha uma legio deles, pintava cenas das ruas de Nova York e as vendia em uma calada. No seria interessante colorir um pouco as 
paredes do apartamento com algo assim? Sugerira Cybil.
Ele respondera que no queria colorir nada, ,mas, mesmo assim, l estavam trs aquarelas originais "colorindo" sua sala. E Cybil j havia comeado a falar em tapetes.

No entendia direito como ela conseguia aquilo, pensou, voltando a se concentrar no desjejum. Simplesmente, ficava falando sem parar, at convenc-lo a tirar a carteira 
do bolso e comprar alguma quinquilharia.
Mas ambos estavam conseguindo se manter em seus prprios espaos. Se bem que no sbado ela havia "invadido" seu apartamento com baldes, esfreges, vassouras e s 
Deus sabia mais o qu. Se ele ia mesmo morar ali, dissera ela, o lugar deveria ao menos ser limpo. Por isso, ele terminara passando trs horas de uma tarde chuvosa 
limpando o cho e as janelas, quando deveria estar escrevendo.
Naquele dia, Cybil quase fora parar em sua cama. Por muito pouco, ele no a deitara na cama e a seduzira, quando ela ficara boquiaberta com o estado em que se encontrava 
o quarto. Cybil era desejvel at mesmo quando ficava brava.
Ao ver toda aquela baguna, ela comeara a lhe dar um verdadeiro sermo a respeito de como ele deveria zelar mais por seu local de trabalho que, pelo visto, tambm 
era o lugar onde ele dormia.
Por que diabos mantinha as cortinas fechadas daquela maneira? Por acaso gostava de cavernas? Tinha alguma objeo religiosa quanto a ajeitar lenis de cama?
Em meio ao discurso inflamado de Cybil, ele a abraara de surpresa e a fizera se calar com o mais prazeroso dos mtodos. E se, a caminho da cama, eles no houvessem 
tropeado em uma verdadeira montanha de roupas usadas, duvidava que eles houvessem terminado a tarde indo  lavanderia.
Apesar das inconvenincias, a atitude de Cybil tinha l suas vantagens, admitiu ele. Gostava de se verem um lugar limpo e arejado, embora quase nunca notasse quando 
este se tornava bagunado. Gostava de se deitar em uma cama forrada com lenis limpos e perfumados, embora a idia lhe parecesse ainda melhor diante da possibilidade 
de compartilh-la com Cybil. Alm disso, era realmente difcil encontrar motivo para reclamar ao abrir os armrios da cozinha e v-los repletos de mantimentos.
Tomou um gole de caf, lembrando-se de que deveria perguntar a Cybil por que o seu sempre ficava com aquele sabor esquisito, como se faltasse alguma coisa. Ento 
pegou o jornal, e foi direto  seo de tiras cmicas, para ver o que ela havia feito dessa vez.
Leu por alto, franziu o cenho, ento recomeou a ler a tira com mais ateno.

Cybil j estava trabalhando. Deixara a janela do estdio aberta, j que, aparentemente, a primavera havia decidido deixar a cidade com uma temperatura mais amena. 
Uma brisa deliciosa estava entrando no ambiente, juntamente com o inevitvel rudo vindo da rua.
Depois de desenhar as medidas dos quadrinhos no papel, deixou a rgua de lado, passando a se concentrar no que iria desenhar no primeiro deles. Inclinando ligeiramente 
a cabea, olhou para oquadrinho com ar pensativo. Ele tinha o dobro do tamanho daquele que iria aparecer no jornal, dali a alguns dias. J tinha mais ou menos em 
mente o que iria desenhar. O cenrio, a situao e o tema que iriam preencher aqueles cinco quadrinhos e dar ao leitor do jornal a oportunidade de rir um pouco durante 
o desjejum.
O esquivo sr. Misterioso, agora conhecido como Quinn, encontrava-se em sua caverna, escrevendo um grande roteiro para o teatro americano. Com seu jeito irresistivelmente 
msculo e sexy, Quinn se encontrava to concentrado em seu prprio mundo que estava alheio ao fato de Emily se encontrar escondida na sada de incndio, utilizando 
um binculo para tentar ler o que ele estava escrevendo.
Riu consigo, pois,  sua maneira, sabia que suas perguntas e indiretas sobre como estava indo a ltima pea de Preston eram uma verso mais civilizada do voyeurismo 
de sua contraparte. Aos poucos, comeou a esboar os primeiros traos de sua interpretao profissional de Preston.
Por uma questo de estilo, tinha de exagerar certos detalhes na aparncia e nas atitudes dele. O porte alto, o corpo atltico, o rosto atraente e o olhar penetrante, 
tudo servia de base para seu trabalho. O lado bem-humorado das tiras vinha quase sempre do detalhe de ele no saber o que fazer com as coisas que Emily "aprontava".
Quando a campainha tocou, Cybil ps o lpis atrs da orelha, em um gesto automtico, imaginando que Jody se esquecera de pegar a chave.

Ao se levantar, tomou um ltimo gole de caf, antes de se encaminhar para o andar de baixo.
- J estou indo - falou, ao se aproximar da porta.
Ao abri-la, sentiu o corao acelerar e teve de se esforar para conter um suspiro. Preston estava com os cabelos midos do banho e sem camisa. "Ah, meu Deus, veja 
s esse peito...", pensou ela, mal resistindo ao impulso de passar a lngua pelos lbios.
Ele estava trajando um jeans desbotado e se encontrava descalo. O rosto... Ah, aquela seriedade sempre a encantava, embora parecesse intimidadora.
- Oi - cumprimentou-o, com um sorriso. - Ficou sem sabonete para o banho? Quer um emprestado?
- O qu? - Preston franziu o cenho. 
- No, no  isso. - Ele se esquecera de que estava apenas parcialmente vestido.
 - Quero lhe fazer algumas perguntas a respeito disso - declarou, mostrando o jornal.
- Claro. Entre. - Seria mais seguro, pensou Cybil. Jody chegaria a qualquer momento, e pelo menos a impediria de "atacar" Preston, em algum momento de fraqueza. 
- Por que no se serve de uma xcara de caf e sobe at meu estdio? Estou trabalhando e o andamento dos quadrinhos est indo muito bem.
- No quero atrapalhar, mas...
- No vai atrapalhar - falou ela, por sobre o ombro, j comeando a subir a escada. 
- H canela em pau em um potinho ao lado da cafeteira, se quiser pr um em seu caf.
- Eu...
"Oh, droga", pensou Preston, indo se servir do caf e decidindo pr um pedacinho de canela na xcara.
Nunca havia subido aquela escada antes, pois nunca fora at ali enquanto Cybil estava trabalhando. Ao passar pela porta do quarto dela, rendeu-se  curiosidade de 
parar um instante e olhar para a grande cama forrada com um lenol cor de marfim e cheia de almofadas brancas. Abaixo dos ferros trabalhados da cabeceira foi onde 
ele se imaginou segurando as mos dela, enquanto finalmente fazia tudo que desejava fazer com ela.
O perfume feminino que vinha do quarto o fez respirar mais fundo. Um perfume adocicado e sedutor, prprio de ambientes femininos. Ela mantinha ptalas de rosas secas 
em uma tigela transparente, um livro sobre a mesinha-de-cabeceira e algumas violetas no peitoril da janela.
- Encontrou tudo?
Preston se sobressaltou.
- S-sim. Oua, Cybil... - Ele entrou no estdio. 
- Meu Deus, como consegue trabalhar com todo esse barulho?
Ela mal levantou a vista do papel.
- Que barulho? Ah, esse. - Pegou outro lpis e continuou desenhando, como que esquecida daquele que se encontrava atrs de sua orelha. 
- Gosto de ouvir msica enquanto trabalho, mas passo a maior parte do tempo sem ouvir nada.
O aposento tinha uma aparncia eficiente e criativa, com suas diversas prateleiras repletas de instrumentos para desenho e pintura. Preston reconheceu uma aquarela 
do amigo de Cybil pendurada em uma das paredes, e a elegncia estilstica da me dela em dois outros trabalhos pendurados na parede oposta.
Em um dos cantos, via-se uma escultura de metal de formato complexo, algumas violetas no peitoril da janela e um confortvel div cheio de almofadas prximo a ela.
O modo como Cybil ocupava a sala, porm, no transmitia um aspecto de eficincia. Sentada  mesa de desenho, com as pernas cruzadas sob o corpo, exibindo parte dos 
ps com as unhas pintadas de cor-de-rosa, o lpis atrs de uma orelha e duas argolas de tamanhos diferentes na outra, ela era a prpria imagem do inusitado. Perigosamente 
sexy, pensou Preston.
Curioso, aproximou-se por trs de Cybil e espiou o que ela estava fazendo. Uma atitude que o deixaria furioso se fosse ele quem estivesse trabalhando.
- Para que servem todas essas linhas azuis? - perguntou a ela.
- Para marcar a escala e a perspectiva. Fazer isso requer alguns clculos, antes de se comear o trabalho propriamente dito. Trabalho com tiras de cinco quadrinhos 
- explicou ela, sem parar de fazer os esboos. 
- Costumo coloc-los no papel dessa maneira, trabalhar o tema da piada e desenvolv-lo de modo que ele tenha comeo, meio e fim dentro dos cinco quadrinhos.
Preston continuou observando em silncio. Satisfeita com o resultado do primeiro quadrinho, Cybil passou para o seguinte e continuou a falar:

- Primeiro fao esse tipo de esboo para ver se a idia vai dar certo.  uma espcie de ensaio, para que eu tenha realmente certeza de que o tema poder ser desenvolvido 
nos cinco quadrinhos. Feito isso, comeo a desenhar mais detalhes, antes de fazer o contorno final e de pint-los.
Preston franziu o cenho, observando o primeiro esboo com mais ateno.
- Por acaso, este sou eu?
- Hum... Por que no se senta? Est bloqueando a luz.
- O que ela est fazendo ali? - Ignorando a sugesto, ele apontou o segundo quadrinho. - Est me espionando? Voc est me espionando?
- No diga tolices. Nem h uma sada de incndio em seu quarto.
Ela olhou para o espelho e fez vrias expresses faciais, antes de recomear a desenhar.
- E quanto a isso? - perguntou Preston, mostrando o jornal a ela.
- Isso o qu? Puxa, seu perfume  maravilhoso - disse Cybil, voltando-se para ele e inalando seu perfume. 
- Que sabonete  esse?
- Vai pr esse sujeito tomando banho nos prximos quadrinhos? - Quando Cybil apertou os lbios, como que considerando a questo, Preston balanou a cabea negativamente. 
- Nem pensar. Achei at divertido quando voc comeou essa pardia a meu respeito, mas...
Ele se interrompeu ao ouvir a porta da sala se abrir e fechar, no andar de baixo.
- Quem ? - perguntou a Cybil.

- Provavelmente Jody e Charlie. Ento se reconheceu nos quadrinhos? - Cybil parou de desenhar e olhou para ele, com um sorriso. 
- Algumas pessoas nem se reconhecem neles, sabia? Talvez por no terem autoconscincia suficiente. Mas tive a impresso de que voc se reconheceria assim que visse 
os desenhos. Oh, ol, Jody! E a est Charlie.
- O-oi - balbuciou Jody.
Deparar-se com um belo homem com o peito nu no era uma questo fcil nem mesmo para uma mulher casada e feliz no casamento.
- Hum, oi - repetiu ela. - Estamos atrapalhando alguma coisa?
- No. Preston veio apenas me fazer algumas perguntas a respeito dos quadrinhos.
- Oh, adorei esse novo personagem - afirmou Jody. - Ele deixou Emily maluquinha! Mal posso esperar para ver o que vai acontecer em seguida.
Ela comeou a rir quando Charlie soltou um sonoro "Pa!" e estendeu os bracinhos na direo de Preston.
- Ele chama todo homem de "Pa". Chuck no gosta muito quando o v fazer isso, mas Charlie nem se importa com as reprimendas do pai. J est demonstrando que vai 
ter personalidade forte - acrescentou ela, com um sorriso de me orgulhosa.
- Entendi. - Distraidamente, Preston passou a mo pelos cabelos do beb. 
- Vim apenas esclarecer algumas coisas a respeito do que est acontecendo nos quadrinhos - explicou ele, voltando-se tando-se novamente para Cybil.

- Pa! - Charlie repetiu, estendendo os bracinhos mais uma vez para Preston, com um sorriso sonolento.
- Quo prximo da realidade  o seu trabalho? - indagou Preston, pegando o beb no colo, em um gesto automtico.
Cybil se comoveu com a cena.
- Voc gosta de crianas.
- No. Costumo jog-las pela janela do terceiro andar sempre que tenho uma chance - respondeu ele, com impacincia. Ento comeou a rir quando Jody lhe lanou um 
olhar apavorado. 
- Relaxe, ele est seguro. Meu interesse  saber o que significa isso aqui - acrescentou, apontando o jornal e ajeitando Charlie no colo.
- Oh, o detalhe da "escala" - respondeu Cybil. - Bem, essa  realmente a primeira parte. As duas conversaro sobre a segunda parte amanh. Acho que vai ficar bom.
- Eu e Chuck camos na gargalhada quando lemos isso essa manh - comentou Jody, mais relaxada ao ver Preston acariciando o beb j adormecido em seus braos.
- Voc desenhou essas duas mulheres...
- Emily e Cari - disse Cybil.
- Agora sei quem elas so - respondeu Preston, estreitando o olhar para ela e Jody. - Elas esto falando... No - corrigiu-se. 
- Esto classificando a maneira como Quinn beijou Emily alguns dias antes! - bradou, indignado.
- Hum-hum - confirmou Cybil. - Ento Chuck se divertiu? - perguntou ela  amiga. 
-Fiquei pensando se os homens tambm iriam entender ou se essa seqncia seria mais compreendida apenas pelas mulheres.
- Oh, sim, ele morreu de rir.
- Com licena. - Com o que lhe restava de pacincia, Preston levantou a mo. 
- Eu s gostaria de saber se vocs duas ficam comentando seus encontros ntimos e classificando-os com notas de um a dez, antes de oferecer isso para o pblico americano 
se divertir durante o desjejum.
- Classificando? - Cybil arregalou os olhos para ele, com ar inocente. 
- Pelo amor de Deus, Preston, isso  apenas uma tira cmica de jornal. Est levando esse assunto a srio demais.
- Ento essa histria de "no existir escala"  apenas uma piada?
- O que mais poderia ser?
Ele a observou por um instante.
- No quero correr o risco de, quando finalmente fizer amor com voc, ter de passar depois pela situao desagradvel de ver meu desempenho ser avaliado nas tiras 
cmicas do jornal pela manh.
- Oh-oh. Oh, bem. - Jody levou a mo ao peito, parecendo embaraada. 
- Acho que vou levar Charlie para tirar uma soneca no sof l de baixo.
Dizendo isso, tirou o beb com cuidado dos braos de Preston e se retirou em seguida.
- Francamente, Preston - disse Cybil, rindo e tamborilando o lpis sobre a mesa. 
- Esse evento seria digno de ir parar no caderno especial do jornal de domingo.

- Isso  uma ameaa ou uma brincadeira? - Quando ela apenas riu, ele se aproximou perigosamente e beijou-a nos lbios. 
- Mande sua amiga embora e descobriremos logo, logo.
- No. No quero que ela v embora. Foi pensando que ela poderia aparecer a qualquer momento que no o beijei assim que voc chegou.
Preston estreitou o olhar.
- Est querendo me provocar?
- No exatamente - respondeu ela, sentindo a pulsao acelerada. 
- Precisa ir agora. Depois de tanto tempo de trabalho, encontrei uma distrao com a qual no consigo lidar, e essa distrao  voc.
Sem dar ouvidos ao pedido, Preston se inclinou mais uma vez e beijou-a nos lbios.
- Quando falar disso... - Ele capturou o lbio inferior de Cybil delicadamente entre os dentes e provocou-a com sensualidade. 
- Espero que sua descrio seja precisa.
Dizendo isso, dirigiu-se  porta e virou-se uma ltima vez para ela, fitando-a por sobre o ombro.
- Sem escala? - perguntou ele, dando-se conta de que at gostara da brincadeira.
Ver seu beijo ser considerado em uma escala acima de dez no deixava de ser lisonjeador. Ao ver Cybil reagir apenas com um impotente gesto de mos, comeou a rir. 
E ainda estava rindo quando desceu a escada em direo  porta da sala.
- Posso entrar agora? - sussurrou Jody, colocando a cabea no vo da porta entreaberta do estdio de Cybil.

- Ah, meu Deus, Jody. O que vou fazer aqui? - Aturdida, Cybil colocou um segundo lpis atrs da orelha, derrubando o primeiro sem nem parecer se dar conta disso. 
- Pensei que no iria haver nenhuma conseqncia. Quer dizer, o que h de mal em se deixar levar pelo encantamento de um homem bonito, atraente e irresistvel?
- Deixe-me pensar... - Jody sentou-se diante da mesa de trabalho da amiga. 
- Nenhum mal! Absolutamente nenhum mal.
- E se voc acabar se apaixonando um pouquinho por ele, isso far parte do jogo, certo?
- Absolutamente certo.
- Mas o que fazer quando voc vai um pouco alm do limite?
Jody franziu o cenho, preocupada.
- Voc foi alm do limite?
- Acabei de fazer isso - Cybil respondeu.
- Oh, querida. - Em um gesto carinhoso, Jody deu a volta pela mesa e abraou a amiga. - Tudo bem. Acabaria acontecendo, mais cedo ou mais tarde. 
- Eu sei, mas sempre pensei que aconteceria mais tarde.
- Todos ns pensamos isso.
- Preston no vai gostar de saber que eu me apaixonei por ele. Vai ficar aborrecido com isso. - Apoiando a cabea no ombro da amiga, Cybil exalou um suspiro trmulo. 
- Tambm no estou muito contente com isso, mas acabarei me acostumando.
- Claro que sim. Coitado do Frank. - Com um suspiro, Jody afagou o ombro da amiga e se afastou um pouco. 
- Ele nunca a interessou de verdade, no  mesmo?

Cybil balanou a cabea negativamente.
- Sinto muito.
- Ora. - Jody dispensou seu primo preferido com um gesto de mo. 
- O que vai fazer?
- Ainda no sei. Para ser sincera, estou pensando em sair correndo e me esconder em algum lugar - confessou, forando um sorriso.
- Isso  para covardes.
- Tem razo. Seria uma atitude covarde. E que tal dar tempo ao tempo e ver se isso passa?
Jody balanou a cabea, rindo da ingenuidade da amiga.
- Sua boba. Quando se  atingido pela flecha de cupido, meu bem, a cura no vem assim, to facilmente.
Cybil respirou fundo.
- Ento, que tal irmos fazer compras?
- Agora, sim, comeou a falar com sensatez. - Com um breve gesto de comemorao, Jody se encaminhou para a porta. 
- Vou ver se a sra. Wolinsky pode ficar com Charlie, ento enfrentaremos esse problema como mulheres de verdade.

Cybil comprou um vestido novo. Um modelo preto, bsico e discretamente colado ao corpo que fez Jody revirar os olhos e dizer:
- Ele est perdido.
Cybil tambm comprou um bonito par de sapatos pretos com saltos altos, finos e transparentes. Ah, e lingerie tambm, claro. Do tipo que uma mulher usa quando espera 
ser admirada por um homem e que o faa sentir vontade de tir-la. De fato, sentiu um arrepio pelo corpo, ao imaginar Preston deslizando aquelas mos firmes sobre 
seu corpo, retirando-lhe a lingerie com vagarosa sensualidade. Escolheu um conjunto de lingerie branca para usar sob o vestido preto. Era excitante a idia de surpreend-lo.
Depois escolheu flores, velas para o candelabro e um timo vinho. Ingredientes delicados para despertar um outro tipo de apetite. Um apetite primitivamente voraz.
Quando chegou em casa, estava mais esperanosa e bem mais calma. Havia algo a ser feito, e pelo menos isso incutiu um foco a seus pensamentos. Sim, queria passar 
o restante do dia preparando cada detalhe, porque a noite teria de ser perfeita.
Escreveu um bilhete para Preston  enfiou-o por baixo da porta do apartamento dele. Depois trancou-se em seu prprio apartamento e respirou fundo, antes de deixar 
alguns itens na cozinha e levar os outros para seu quarto.
Arrumou as flores nos vasos e os distribuiu por lugares estratgicos. Depois ajeitou as velas no candelabro e o colocou sobre a mesa, junto ao vasinho com flores 
frescas. Em um outro canto da sala, acendeu uma vela perfumada, para ir perfumando o ambiente com um aroma agradvel, enquanto ela terminava de preparar a mesa.
Desembrulhou dois elegantes clices de vinho e colocou-os junto aos pratos, lembrando-se de que precisava pr o vinho para gelar.
Ao chegar ao quarto e olhar para a cama, hesitou. sitou. Puxar os lenis at o p da cama pareceria uma sugesto muito evidente? Pensando nisso, riu consigo. Havia 
sentido ter pudores daquele tipo quela altura dos acontecimentos?
Quando terminou os preparativos, parou um instante para admirar o resultado. De fato, tudo estava no lugar onde ela gostaria que estivesse. Satisfeita, providenciou 
os ltimos detalhes para o jantar.
Manteve os ouvidos apurados, na esperana de ouvi-lo comear a tocar. Sempre que ouvia Preston tocar o sax, era como se parte dele estivesse ali com ela. No entanto, 
o apartamento em frente continuou silencioso.
Com cuidado, escolheu alguns CDs estratgicos e os deixou ao lado do aparelho de som. Em seguida, foi para o quarto e, com um arrepio de expectativa, estendeu o 
vestido novo sobre a cama juntamente com a lingerie provocante, imaginando como seria us-los. Com certeza, o efeito seria poderosamente sedutor.
Com outro arrepio de expectativa, dessa vez seguido por um calor inesperado em seu mago feminino, foi tomar um banho relaxante.
Antes de entrar na banheira, acendeu outra vela perfumada e serviu-se do vinho que costumava deixar ali, para quando estivesse relaxando na banheira. Ao sentir a 
gua quente sobre o corpo, fechou os olhos com um suspiro. Ento imaginou as mos de Preston sobre sua pele, em vez da gua cheia de espuma.
Quase uma hora depois, espalhou pelo corpo uma leve camada de creme hidratante perfumado, at sua pele se tornar acetinada e agradavelmente perfumada.


Enquanto ela fazia isso, Preston lia o bilhete encontrado  porta de seu apartamento: "Preston, tenho planos. Depois nos veremos. Cybil"
Planos? Cybil tinha planos sendo que ele passara o dia inteiro em meio a um verdadeiro turbilho emocional por causa dela?
Leu o bilhete mais uma vez, furioso consigo mesmo por haver passado o dia inteiro pensando em quanto seria prazeroso passar outra noite ao lado de Cybil. Deus, comprara 
at flores para ela! E no se lembrava de comprar flores para uma mulher desde...
Droga, como ela pudera fazer isso?, pensou, amassando o bilhete quase sem perceber. Por outro lado, o que mais ele poderia esperar? As mulheres sempre determinavam 
o curso de um relacionamento segundo seus prprios interesses. Ele sabia disso, aceitara isso e se, em algum momento, esquecera-se de que em relao a Cybil, no 
tinha ningum mais para culpar a no ser ele mesmo.
Pelo visto, ela decidira entrar em outro jogo. Mas ele no era obrigado a morrer de angstia por isso. Afinal, sabia muito bem quanto as mulheres eram perigosas 
em questes de jogos sentimentais.
Com um suspiro, foi at a cozinha e deixou o buqu de lilases sobre a pia. No entendera direito o motivo, mas aquelas flores o haviam feito se lembrar de Cybil. 
Ao voltar para a sala, pegou seu sax e saiu, determinado a amenizar sua ira tocando no Delta's.
Exatamente s sete e meia da noite, Cybil tirou do forno o assado que havia preparado. A mesa estava arrumada para dois, com mais velas e mais flores precisamente 
arrumadas. Uma salada de colorido extico, feita com abacate e tomates gelava juntamente com o vinho.
Assim que eles degustassem a entrada, pretendia surpreend-lo com crepe de marisco. E se tudo sasse de acordo com o planejado, terminariam a refeio com champanhe 
gelado acompanhando framboesas frescas com creme. Na cama.
- Muito bem, Cybil.
Dizendo isso, tirou o avental e foi at o espelho para checar seu visual. Ento calou os sapatos novos, aplicou algumas gotas de perfume em pontos estratgicos 
e sorriu para seu prprio reflexo.
- Vamos captur-lo.
Atravessou o corredor, tocou a campainha do apartamento de Preston e ficou esperando, com o corao acelerado. Segundos depois, tocou mais uma vez.
- Como tem coragem de no estar em casa? - protestou em voz alta. - Como ousa? No leu meu bilhete? Claro que deve ter lido. Eu no deixei bem claro que iramos 
nos encontrar depois?
Com um resmungo, bateu a mo fechada contra a porta. Em seguida, respirou fundo e endireitou as costas.
- Eu disse que tinha planos. Ah, meu Deus, voc no entendeu, no , seu cabea-dura? Planos para ns dois! Oh, droga.
Sem hesitar, trancou a porta de seu apartamento e, na falta de uma bolsa para guardar a chave, colocou-a dentro do suti. Ento comeou a descer a escada com passos 
firmes, em direo  sada do prdio.

- Est com algum problema afetivo, querido?
Preston olhou para Delta, parando um instante para tomar um gole de gua.
- No estou com nenhum problema, muito menos afetivo.
- Ei, est falando com Delta, lembra-se? Sua velha amiga. - Ao longo dessa semana, em todas as noites em que o vi tocar, percebi que voc estava tocando como se 
estivesse pensando em uma mulher. Hoje apareceu mais cedo, e est tocando como um homem que teve problemas com uma mulher. Por acaso discutiu com aquela garota?
- No. Ambos temos mais o que fazer do que ficar discutindo.
- Ela ainda o est tirando do srio, no ? - Delta riu. 
- Algumas mulheres exigem um pouco mais de romance do que outras.
- Isso no tem nada a ver com romance.
- Talvez seja justamente esse o seu problema. - Delta circundou o brao sobre os ombros dele, afagando-o com carinho. - J comprou flores para ela? Disse que ela 
tem olhos lindos?
- No. - Droga, j havia comprado flores para Cybil. Mas o receio de se desapontar o levara a se conter. 
- O que sentimos um pelo outro  apenas atrao fsica. No tem nada de romntico - completou.

- Oh, meu querido. Se quiser realmente conquistar uma mulher como Cybil, ter de ser romntico, por mais que deteste a idia.
- Por isso mesmo  que quero ficar bem longe dela. Quero continuar com minha vida simples. - Posicionando o sax, arqueou uma sobrancelha. - Agora vai me deixar tocar, 
ou quer me dar mais algum conselho a respeito da minha vida amorosa?
Delta balanou a cabea negativamente, dando um passo atrs.
- Quando voc realmente tiver uma vida amorosa, meu caro, pensarei em lhe dar conselhos.
Preston recomeou a tocar, enquanto ouvia a msica em sua mente. Em seu sangue. No ritmo de sua pulsao. Como sempre, tocou a msica com todo seu sentimento, mas 
no conseguiu impedir-se de continuar pensando em Cybil. Talvez acabasse se acostumando com isso, pensou. Com aquela constante fixao em querer saber o que Cybil 
estaria fazendo e pensando.
A msica continuou a sair do sax feito o lamento de um homem desesperado.
Ento ela passou pela porta. Seus olhos, cheios de segredos, encontraram os dele atravs da neblina do ambiente. O modo como ela lhe sorriu ao se sentar  mesa, 
fez as mos de Preston comearem a suar. Ela umedeceu os lbios e deslizou o dedo indicador sobre a frente do vestido, em um gesto sensual.
Preston ficou olhando, hipnotizado, enquanto, com movimentos provocantes, ela cruzava as pernas esguias cobertas por sensuais meias de seda fum. Depois, a maneira 
como ela deslizou a mo do joelho at o quadril era designada justamente a fazer o olhar de um homem acompanhar o movimento. E foi o que ele fez, com a respirao 
alterada.
Ela continuou ouvindo a msica e mantendo aquele brilho provocante no olhar. Quando as ltimas notas ecoaram no ambiente, ela passou a lngua sobre os lbios cobertos 
por um intenso batom vermelho.
Ento Cybil se levantou e, sem desviar os olhos dos dele, passou a mo pelo quadril, girou sobre aqueles saltos arrasadores e se encaminhou para a sada. Antes de 
passar pela porta, porm, virou-se uma ltima vez para ele e lanou-lhe um convite silencioso com um mero arquear de sobrancelha.
O murmrio que escapou dos lbios de Preston, quando ele afastou o sax, foi de absoluta reverncia.
- No vai fazer nada, meu amigo?
Preston comeou a guardar o instrumento na maleta.
- Por acaso pareo idiota, Andr?
- No. - O marido de Delta riu e continuou tocando o piano. - Definitivamente no.


CAPTULO VII
Cybil o estava esperando na calada quando ele saiu. De p, sob a luz de um poste eltrico, mantinha uma mo sobre o quadril, a cabea ligeiramente inclinada e um 
ar de riso nos lbios.
A imagem fez Preston pensar naquelas fotos em preto-e-branco, tiradas por ftgrafos profissionais para serem includas em revistas de moda. "Sexy em preto-e-branco", 
foram as palavras que lhe vieram  mente.
Ele foi se aproximando devagar, notando mais detalhes conforme a distncia entre eles ia se tornando menor. Os sedosos cabelos castanhos emolduravam o rosto delicado 
de um modo discreto e sensual ao mesmo tempo. O vestido preto, curto, moldava cada curva do corpo perfeito, fazendo-o engolir em seco, ao ter uma viso mais aproximada. 
Nenhuma jia para distrair seu olhar. Sapatos com salto alto e transparente delineando pernas completamente esguias. Deus, ela queria mesmo mat-lo.
As nicas cores intensas no visual de Cybil eram a de seus olhos verdes e a de seus lbios pintados de rubro. Lbios que, segundo ele logo notou, encontravam-se 
ligeiramente curvados, com um ar de satisfao feminina.
Estava a trs passos dela quando um delicioso perfume lhe invadiu as narinas, deixando-o excitado e expectante ao mesmo tempo.
- Ol, vizinho - disse ela, em um tom sensual.
Preston inclinou a cabea, arqueando uma sobrancelha.
- Mudana de planos... vizinha? 
- Espero que no.
Cybil se aproximou mais, deslizando as mos deliberadamente sobre os braos, os ombros e o pescoo dele. Ento moldou o corpo ao dele, antes de sorrir e dizer:
- Os planos eram para ns dois, seu bobo.
Imaginou se fora o esclarecimento ou o insulto velado que o levou a estreitar o olhar, com um ar especulativo.
-  mesmo?
- Preston - disse ela, aproximando-se at deixar seus lbios a centmetros dos dele. Mantendo os olhos fixos nos dele, umedeceu os lbios devagar. 
- Eu no lhe disse que voc seria o primeiro a saber?
- Sim. - Com a mo que se encontrava livre, Preston segurou-a pela nuca, mantendo aqueles lbios convidativos a centmetros dos dele. 
- Consegue andar rpido com esses saltos?
Cybil riu, ligeiramente ofegante.
- No muito. Mas temos a noite inteira, no temos?
- Talvez seja necessrio um pouco mais do que isso. - Preston se afastou, oferecendo a mo a ela. 
- Onde conseguiu essa arma letal? O vestido - acrescentou, quando Cybil lhe lanou um olhar confuso.
- Oh, isso. - Dessa vez, o sorriso dela foi repleto de lisonja. 
- Eu o comprei hoje, pensando em voc. E quando o vesti esta noite, estava pensando em como seria acompanhar cada um de seus movimentos quando voc o tirasse de 
mim.
- Deve ter andado praticando algum mtodo de seduo - concluiu ele. 
- Est se mostrando boa demais nisso.
- Posso parar, se estiver se sentindo incomodado...
- Nem pense nisso - Preston a interrompeu.
Parecia incrvel que uma simples noite de primavera em Nova York pudesse se transformar em um trrida noite de vero nos trpicos.
- Sinto muito por no haver sido mais especfica ao escrever o bilhete. Eu estava com a cabea cheia de idias. - Virou-se, satisfeita pela altura de seus saltos 
deix-la com os olhos na altura dos lbios dele. 
- E todas elas relacionadas a voc.
- Fiquei aborrecido e sa. - Preston no se sentiu to mal em admitir aquilo quanto imaginou que se sentiria.
- Sinto muito, mas considero isso lisonjeador. Quando bati  sua porta e ningum respondeu, tive essencialmente a mesma reao. Passei muito tempo me preparando 
para voc. Portanto, tambm pode se sentir lisonjeado.


- De fato, deve ter levado algum tempo para se arrumar desse jeito - observou ele.
- No apenas isso - salientou Cybil, com um sorriso. - Tambm preparei o jantar.
At aquele momento, havia conseguido manter seu corao batendo em um ritmo normal. Contudo, sentiu que ele acelerou ao chegarem  entrada do prdio.
-  mesmo? - Preston se surpreendeu.
Cybil notou que ele no pareceu apenas lisonjeado e excitado com tudo aquilo, mas essencialmente tocado.
- E dos mais saborosos, se me permite dizer - acrescentou ela, seguindo na frente. - Com um vinho leve para acompanhar e uma taa de champanhe para a sobremesa.
Ao chegar ao elevador, apertou o boto do terceiro andar e encostou-se em uma das paredes.
- Pensei em tomarmos o champanhe com a sobremesa na cama - sugeriu, provocante.
Preston se manteve a um passo dela, sabendo que se a tocasse os dois acabariam demorando tempo demais no elevador.
- H algo mais que eu precise saber a respeito de seus planos?
- Oh, no creio que seja necessrio eu lhe explicar todos os detalhes.
Dizendo isso, ela saiu do elevador e lanou um de seus sorrisos sedutores por sobre o ombro, enquanto se encaminhava at a porta de seu apartamento.
Se conseguisse entrar ali sem explodir de desejo, pensou Preston, talvez fosse capaz de mostrar a ela que tambm tinha planos.
- E a chave? - perguntou a ela.
- Hum...
Mantendo os olhos fixos nos dele, Cybil insinuou o dedo indicador para dentro do decote at tocar o metal da chave, deliciando-se ao ver o olhar de Preston se enevoar 
de desejo. Ento tirou o dedo do decote e o deslizou sensualmente pela base do pescoo.
- Puxa, acho que no estou conseguindo encontr-la. No quer procur-la para mim?
Preston chegou  concluso de que havia acabado de se transformar em um experimento cientfico: era possvel se permanecer totalmente lcido e consciente mesmo sem 
nenhum vestgio de sangue na cabea.
Insinuou o dedo ao longo da convidativa curva do decote de Cybil e foi penetrando-o devagar, at encontrar a renda da lingerie. Notou quando ela estremeceu, tornando-se 
ligeiramente ofegante. Ento insinuou o dedo mais para dentro, tateando a pele macia at roar o mamilo de Cybil, que se tornou trgido sob seu toque. Os olhos verdes 
se tornaram enevoados e ela os fechou devagar.
- Acho que foi voc quem andou praticando - murmurou ela, fazendo-o sorrir.
- Estou apenas fazendo o que me pediu.
- E melhor do que eu esperava - ela confessou. - No se detenha por minha causa.
Preston no pretendia mesmo parar. Pelo menos pelas horas seguintes.
- Parece que a encontrei - anunciou ele, tateando a chave.
- Sim. - Cybil deixou escapar um longo suspiro. - Eu sabia que voc conseguiria.
Retirando a chave do seu esconderijo, segurou-a no ar.
- Convide-me para entrar, Cybil. 
- Entre.
Preston abriu a porta e puxou-a delicadamente para dentro, antes de voltar a girar a chave na fechadura, isolando-os do resto do mundo.
- Vamos jantar? - perguntou Cybil, quando ele pousou as mos em sua cintura.
- Isso pode esperar.
Quando passaram pelo telefone, ele o tirou do gancho.
- Quer vinho?
- Depois - foi a resposta. - Bem depois... Quando chegaram  base da escada, Cybil he
sitou. Preston sorriu com charme e disse: 
- Continue subindo.
Com as pernas trmulas, ela comeou a subir devagar.
- Pea-me para toc-la.
Cybil sentiu um arrepio ao ouvir a voz aveludada de Preston to prxima a seu ouvido. 
- Toque-me.
Suspirou quando as mos dele deslizaram sobre seus quadris. Ao chegarem ao alto da escada, Preston a virou de frente para ele. Fitando-a nos olhos, falou: 
- Pea-me para prov-la. 
- Prove-me.
E gemeu quando Preston deslizou a ponta da lngua pela base de seu decote. No momento em que alcanaram a porta do quarto, ele lhe mordiscou o lbulo da orelha e 
a delicada curva de seu pescoo, deixando-a sedenta por um beijo.
- Beije-me, Preston.
- Vou beijar - respondeu ele, roando o canto dos lbios dela com a ponta da lngua. 
- Assim que eu acender a luz.
- No, eu espalhei velas perfumadas pela casa. - Dizendo isso, ela pegou uma caixa de fsforos, mas desistiu de us-la. 
- No vou conseguir - confessou. 
- Estou tremendo muito. No  ridculo?
Preston pegou a caixa de fsforos.
- Quero que fique trmula - afirmou ele. 
- Fique aqui - pediu, indo acender as velas.
Em pouco tempo, o ambiente do quarto se tornou agradavelmente iluminado, com um suave perfume se espalhando no ar. Deixando os fsforos de lado, Preston voltou para 
junto dela.
- Agora... - Puxou-a para si. 
- Pea-me para possu-la.
Cybil no desviou os olhos dos dele.
- Me possua.
Os lbios de Preston capturaram os dela, em um beijo intenso e exigente. Cybil se rendeu a ele sem receio, unindo a chama de seu desejo  do desejo de Preston. Fora 
por isso que ansiara. Por aqueles gestos incontidos e aquela exigncia silenciosa. Aquela tormenta de sentidos, verdadeira guerra de emoes e desejos.
- Eu te quero, Preston - confessou, com voz rouca, beijando-o com voracidade. 
- Quero t-lo em minha cama.
Sobressaltou-se quando ele a levantou nos braos de repente. Por um instante, viu o reflexo de ambos no espelho do quarto. Uma viso perfeita. Excitante.
- Temos a noite inteira - Preston lhe sussurrou ao ouvido. 
- Agora fique olhando...
Dizendo isso, ele a deitou na cama e ocultou o rosto junto ao pescoo dela, antes de ir descendo devagar, mordiscando-a e sugando-a sensualmente por cima do vestido.
Cybil gemia a cada gesto, trmula de antecipao. Ficou observando as mos de Preston deslizarem para cima at alcanarem seus seios. Ento eles os segurou com ar 
de possessividade, por cima da seda. Em seguida, comeou uma doce tortura, acariciando-lhe os mamilos por sobre o tecido, fazendo-a arquear o corpo e desejar que 
ele a livrasse de uma vez daquele empecilho.
Quando pensou que j houvesse sido suficientemente torturada, gemeu alto quando Preston tocou seu centro de prazer por cima da seda, deslizando a mo sensualmente 
para cima e para baixo.
Foi quando ele voltou a beij-la, insinuando a lngua entre seus lbios. Ela o havia deixado louco no clube e, pelo visto, ele pretendia revidar aquilo at o ltimo 
instante.
- Diga que quer mais.
Cybil estava lnguida, movendo o corpo rendido  sensualidade.
- Preston, por favor...

Ele continuou movendo a mo para cima e para baixo, sentindo o excitante calor da intimidade de Cybil sob o tecido deslizante.
- Diga que quer mais.
- Oh, Deus... - Cybil inclinou a cabea para trs, com um gemido ofegante. 
- Eu quero mais.
- Eu tambm.
Esforando-se para conter a urgncia que ameaava domin-lo, Preston virou-a de lado e puxoo zper do vestido para baixo. Quando livrou Cybil da pea, jogando-a 
de lado, no conteve um gemido de prazer.
"Sexy em preto-e-branco", as palavras lhe vieram  mente mais uma vez.
Naquele momento, Cybil notou que o brilho do desejo nos olhos dele se tornou quase selvagem. E, para sua surpresa, deu-se conta de que era exatamente isso que ela 
queria. Queria que Preston a possusse de um modo incontido, como que mal conseguindo conter a nsia do desejo.
Levada por um mpeto de sensualidade, guioas mos dele at seus seios.
- Comprei esta lingerie hoje - sussurroumantendo as mos sobre as dele. 
- Para que voca tirasse de mim esta noite.
Ento entrelaou os dedos nos dele, quando Preston deslizou a mo sobre a renda macia.
Sobressaltou-se quando, com um gesto sbito ele abriu o fecho, localizado na frente da pea. Os seios eretos finalmente se libertaram, preenchendo a viso de Preston 
com a imagem de algo que precisava ser tocado, saboreado.

Capturando um dos mamilos entre os lbios, lambeu-o e mordiscou-o at que o bico se tornasse trgido e mido, feito uma fruta recm-provada. Ofegante, Cybil gemia 
de puro prazer, perguntando-se se conseguiria sobreviver a tanto prazer. Quando pensou que fosse explodir, sentiu seu outro mamilo ser submetido  mesma tortura 
deliciosa que levou seu corpo a se arquear e a ondular sobre os lenis.
Com um sorriso de satisfao se insinuando nos lbios, Preston deslizou a mo para dentro da outra pea de lingerie. E, em questo de segundos, levou Cybil a emitir 
um gemido sensual e prolongado, rendida a seu primeiro pice de prazer. Ento livrou-a daquela ltima pea, ao notar que ela queria mais.
Um perfume sensual lhe invadiu as narinas, enquanto Cybil levava as mos  sua roupa, tambm ansiosa para despi-lo. Quando Preston se livrou da camisa, adorou sentir 
os dedos femininos afundando em suas costas, enquanto ela o puxava mais para junto de si. Com as mos e a boca to impacientes e vidas quanto as dele, no demorou 
muito para que ela tambm o ajudasse a tirar as peas restantes.
No momento em que ambos finalmente se uniram em um abrao ntimo, durante o qual Preston a possuiu por completo, a exploso final de prazer no tardou a chegar. 
Passo a passo, movimento a movimento, o ritmo que envolvia os corpos nus foi se tornando cada vez mais intenso, at Cybil arquear o corpo em um espasmo mais prolongado.
Seduzido pelo prazer de v-la sentir prazer, Preston observou o lindo rosto absorver a chama do desejo para expuls-la novamente na forma de um longo e prazeroso 
gemido sensual. Ento, finalmente ele sentiu-se livre para se entregar. Quando veio, seu prprio clmax o arrebatou com a fora que move uma tempestade que chega 
em meio a um vento e uma chuva intensos, para depois ceder lugar  calmaria,  tranqilidade.
Os dois permaneceram deitados naquele abrao ntimo por um longo tempo.
- Ainda estamos respirando? - Cybil foi a primeira a quebrar o silncio.
Deitando-se ao lado dela, Preston pousou a mo em seu pescoo, examinando-lhe a pulsao.
- Seu corao ainda est batendo.
- timo. E o seu?
- Tambm parece estar.
- Tudo bem - falou ela. - Ento talvez seja mais seguro ficarmos aqui pelos prximos cinco ou dez anos. Somente ento acho que terei foras para me mexer.
Preston levantou a cabea. Mesmo mantendo os olhos fechados, Cybil sabia que estava sendo observada por ele, mas no se importou com isso. Com um sorriso, disse:
- Eu consegui provoc-lo, Preston McQuinn. E foi incrivelmente bom v-lo responder  altura da provocao.
- Era o mnimo que eu poderia fazer.
- Nunca algum me fez sentir assim antes. - Cybil abriu os olhos. 
- Ningum me tocou dessa maneira antes.
Assim que terminou de falar, Cybil percebeu que havia cometido um erro, pela maneira como Preston se retraiu. Eles poderiam at haver compartilhado algo maravilhoso, 
mas, para ele, aquilo no poderia ser confundido com nada alm de atrao fsica.
- Tem mos maravilhosas - disse Cybil, notando a tenso no semblante dele e tentando recuperar a atmosfera de antes. 
- Definitivamente milagrosas - insinuou, com um sorriso.
- Voc tambm tem detalhes bem interessantes.
Preston deitou de costas, aborrecido consigo mesmo por estar querendo manter certa distncia enquanto Cybil o olhava com tanta ternura no olhar. Mas no podia permitir 
que as coisas se confundissem entre eles. Se isso acontecesse, teriam de romper para sempre. Seu lado sonhador e romntico havia desaparecido havia muito tempo.
Cybil notou que Preston continuava muito tenso. Queria abra-lo e aninhar seu corpo junto ao dele, mas achou melhor se conter. "Mantenha as coisas simples", disse 
a si mesma. "Ou ele ir embora por aquela porta e nunca mais voltar."
Sentando-se na cama, passou a mo pelos cabelos desalinhados.
- Acho que aquele vinho cairia bem agora, no?
- Sim. - Preston deslizou a mo pelas costas dela. Tinha de fazer aquilo e manter o contato com ela de alguma maneira. 
- Mencionou algo sobre jantar antes?
- Tenho um jantar maravilhoso esperando por voc - respondeu Cybil, com um sorriso. - Inclinando-se, beijou-o nos lbios. 
- Est tudo pronto, exceto o crepe de marisco, que eu vou preparar diante de seu olhar espantado.
- Vai cozinhar?
- Hum-hum.
Preston ficou olhando ela se levantar e ir at o guarda-roupa.
- Para que isso?
- Isto? Chama-se robe - respondeu Cybil, com um sorriso, vestindo a pea. - Geralmente  usado para encobrir a nudez.
Ele tambm se levantou e se aproximou dela.
- Tire isso - mandou, abrindo o cinto do robe.
Cybil sentiu um arrepio pelo corpo.
- Pensei que quisesse jantar.
- E quero. Mas tambm quero v-la cozinhar...
- Ento... Oh. - Cybil riu novamente, voltando a fechar o robe. 
- No vou cozinhar crepes nua. Essa sua fantasia  perigosa demais para o meu gosto.
Preston olhou para os lados.
- Na verdade, eu estava pensando se voc no teria algo mais... - Ele olhou para a cama, onde as peas de lingerie haviam sido deixadas. 
- Mais parecido com aquilo.
Surpresa, depois intrigada, Cybil arqueou as sobrancelhas.
- Uma mulher inteligente nunca tem apenas um nico conjunto sedutor de lingerie - admitiu ela. 
- Tenho outro conjunto como esse, s que vermelho.
Um sorriso charmoso se insinuou nos lbios dele.
- Ento por que no o veste? Estou com fome.
Preparar crepes vestida com uma lingerie sensual tinha l seus riscos, mas tambm era compensador.
Cybil logo teve a chance de descobrir como era ser acariciada junto  porta da despensa: incrvel. E "nocauteada" sobre o tapete da sala. Inacreditvel.
Oh, e fazer amor sob o jato quente e intenso da gua do chuveiro foi uma experincia que ela logo se mostrou vida por repetir.
Preston passou a noite acariciando-a, nunca parecendo completamente satisfeito mesmo tendo Cybil bem ali, a seu lado. E a atitude dela em relao a ele tambm no 
era muito diferente disso. Os dois estavam to sintonizados que, por vezes, chegavam a dizer uma mesma palavra ao mesmo tempo. Ento, logo caam na risada, compartilhando 
uma atmosfera de cumplicidade.
As velas perfumadas j haviam se apagado em meio a pequenas poas de parafina e a nica luz presente no quarto era a da lua, entrando suavemente pela janela e pairando 
sobre parte da cama onde Cybil finalmente adormeceu, exausta.
Quando acordou, estava sozinha. Sabia que no deveria haver se importado com o fato de Preston no ter dormido com ela. Afinal, no era mesmo para ser assim entre 
eles. Sabia disso, aceitava isso. Nada de palavras de carinho ou de atitudes que pudessem unir suas almas mais intimamente.
A intimidade entre eles se limitava ao nvel fsico e as questes ligadas ao corao eram problema dela, somente dela.
Como Preston poderia saber que ela nunca se entregara to completamente a nenhum outro homem? Por que deveria esperar que ele percebesse que a intensa atrao entre 
eles, pelo menos de sua parte, era sinal de amor?
Pensando nisso, massageou os olhos cansados por alguns segundos e saiu da cama.
Havia entrado no relacionamento com os olhos abertos, concluiu, enquanto arrumava o quarto. Conhecia as limitaes do contexto e as de Preston. Os dois poderiam 
permanecer juntos e desfrutar a companhia um do outro, desde que certos limites no fossem cruzados.
Ento, que assim fosse. No iria ficar se preocupando e suspirando por causa disso. Tinha o controle de suas prprias emoes, era responsvel por suas aes, e 
no iria ficar chorando pelos cantos s porque estava apaixonada por um homem fascinante sem ser completamente correspondida.
- Droga! - Jogou os sapatos dentro do guarda-roupa. - Droga! Droga!
Deitando-se sobre a cama, pegou o telefone, levada por um impulso. Precisava falar com algum, desabafar de alguma maneira. E quando se tratava de uma questo vital, 
como essa, s havia uma pessoa a quem ela poderia recorrer.
- Mame? Oh, mame, estou apaixonada - disse e explodiu em lgrimas.
Os dedos de Preston se movimentavam com agilidade sobre o teclado. Tivera menos de trs horas de sono, mas sentia-se renovado e com a mente clara. Seu primeiro roteiro 
mais importante havia sido como que arrancado de seu ser, palavra por palavra, em um processo quase doloroso. Mas dessa vez estava sendo diferente. As palavras fluam 
com a mesma facilidade de um bom vinho saindo de uma garrafa para um clice fino, pronto para ser saboreado e elogiado.
A pea estava cheia de vida. E pela primeira vez em muito tempo, tambm era assim que ele estava se sentindo.
Estava conseguindo ver tudo com perfeio: os cenrios, o posicionamento dos atores no palco e o modo de eles interpretarem seu texto. Estava criando um mundo em 
trs atos.
Havia energia em tudo aquilo, dentro de cada um daqueles personagens que se formavam nas pginas de seu roteiro e que j criavam vida no palco, dentro de sua mente. 
Conhecia cada um deles e a maneira como seus coraes iriam se entregar e se desiludir.
O tnue fio de esperana que permeava suas vidas ainda no havia sido planejado, mas se encontrava l, em algum recanto da mente de Preston, e pronto para ser expressado.
Escreveu at sentir-se zonzo. Ento olhou para a sala, meio desorientado. Estava escuro, exceto pela pouca luz oferecida pela luminria sobre a mesa e pela tela 
do computador. No tinha idia de que horas eram e nem mesmo da data, para dizer a verdade.
Seu pescoo e ombros estavam doloridos, seu estmago vazio e seu caf havia sido esquecido na xcara sobre a mesa.
Ficando de p, massageou a nuca e foi at a janela, onde afastou as cortinas. Somente ento notou que havia uma tempestade se preparando para castigar a cidade. 
Os flashes de alguns relmpagos anunciavam que ela no tardaria a chegar, fazendo os pedestres acelerarem os passos, devido ao receio de serem apanhados pela chuva.
Um camel na esquina no perdera tempo em anunciar seus guarda-chuvas, objeto do qual todo mundo em Nova York s parecia se lembrar no ltimo instante em que precisava 
dele.
Imaginou se Cybil tambm estaria olhando a cidade atravs da janela e vendo aquela mesma cena. Ento comeou a devanear, vendo em sua mente a imagem de Cybil interpretando 
um fato simples, como uma chuva na cidade, sob um aspecto todo engraado e gozador.
Provavelmente ela criaria "O Homem do Guarda-Chuva", concluiu ele, com um sorriso se insinuando nos lbios. Criaria toda uma biografia para ele, vestiria o sujeito 
de preto, daria-lhe um nome esquisito e criaria uma srie de histrias com ele. Ento ele passaria a fazer parte do mundo de Cybil.
Sem dvida, ela tinha o dom de trazer as pessoas para seu mundo. Ele prprio estava fazendo parte dele no momento. No conseguira deixar de passar por aquela porta 
colorida que dava acesso  vida de Cybil e entrar naquele universo confuses, alegrias e muita energia. Cybil parecia no compreender que Preston no pertencia quele 
mundo.
Quando se encontrava dentro dele, cercado pela energia contagiante de Cybil, era como se pudesse ficar ali para sempre. A vitalidade de Cybil fazia tudo parecer 
simples e extraordinrio ao mesmo tempo.
Como uma tempestade sobre a cidade, pensou ele. Mas tempestades passavam.
Ele quase se deixara levar naquela manh. Quase se rendera ao desejo de continuar naquela cama quente, junto quele corpo perfeito que se aninhara ao seu durante 
o sono.
Cybil era to carinhosa, to receptiva... O que lhe invadiu a alma enquanto ele a olhava sob a luz suave da lua entrando pela janela, fora um tipo diferente de desejo. 
Um desejo que ameaava ficar e, perigosamente, estabelecer territrio. Por isso, fora mais seguro para ambos ele sair e deix-la dormindo sozinha.
Fechou as cortinas com um gesto decidido e desceu para o andar de baixo. Preparou caf fresco, procurou algo para comer e pensou em tirar um cochilo. No entanto, 
as lembranas da noite que passara ao lado de Cybil no lhe saam da mente e ele sabia que os efeitos disso no o deixariam descansar por algum tempo.
O que ela estaria fazendo naquele momento? No iria bater  porta do apartamento dela e interromper seu trabalho s porque o dele estava terminado. S porque a viso 
daquela chuva o fizera se sentir inquieto e sozinho. S porque ele a queria. 
Gostava de ficar sozinho, lembrou a si mesmo, enquanto atravessava a sala. Necessitava da solido para realizar seu trabalho.
Ainda assim, o desejo de se sentar ao lado de Cybil para observar aquela chuva continuou a tortur-lo. Sentiu o corpo esquentar ao se imaginar fazendo amor com ela 
com o barulho da chuva batendo contra a janela do quarto. Perfeito.
Ele a queria, admitiu, e com intensidade demais para seu prprio conforto. Quando uma mulher entrava tanto assim na vida de um homem, mudava-o inevitavelmente, deixando-o 
vulnervel a cometer erros e a expor partes de si que seria melhor serem mantidas na obscuridade.
Mas Cybil no era Pamela. E ele no era nenhum idiota que acreditava que toda mulher fosse mentirosa e manipuladora. Se conhecia algum sem nenhum potencial para 
a crueldade e o fingimento, esse algum era Cybil Campbell. Mas isso no mudava o fator principal.
A distncia entre querer ter por perto e amar era muito curta. Quando um homem passava por isso e sofria uma grande decepo, aprendia a manter o equilbrio entre 
ambas as coisas, para seu prprio bem. No queria aquela sensao de desespero e de vulnerabilidade que andava de mos dadas com a verdadeira intimidade.
Mas j se acreditava incapaz de sentir tais coisas, o que significava que no havia com que se preocupar. Tomando um gole de caf, olhou para a porta como se pudesse 
enxergar atravs dela. Cybil no estava pedindo nada alm de paixo, companheirismo e prazer. Exatamente como ele. Estava ciente de que o envolvimento entre eles 
era temporrio. De que ele iria embora dentro de algumas semanas e que suas vidas retomariam a rotina de antes, seguindo por caminhos diferentes. Ela com sua multido 
de amigos, ele com sua segura solido.
Colocou a xcara sobre a pia com mais mpeto do que o necessrio, e foi somente ento que se deu conta de que a idia no o agradara.
Poderiam continuar se vendo de vez em quando, disse a si mesmo, andando de um lado para outro. Sua casa, em Connecticut, era um refgio seguro, longe de toda aquela 
loucura da cidade. No fora justamente por isso que a escolhera?
J passara tempo demais na cidade, e no havia motivo para continuar ali alm do necessrio. Alm disso, havia tambm a possibilidade de Cybil acabar encontrando 
outra pessoa, concluiu, enfiando as mos nos bolsos. Afinal, por que uma mulher maravilhosa como ela iria ficar esperando suas visitas espordicas?
Mas isso no o incomodava, pensou ele, sentindo as tmporas latejarem. Quem estava pedindo a ela que o esperasse? Claro que Cybil tinha a liberdade de se envolver 
com o primeiro idiota que a procurasse, provavelmente por indicao de alguma amiga ou vizinha abelhuda.
Ah, mas isso no, concluiu. No mesmo.
Sem hesitar, foi at a porta do apartamento dela com a inteno de deixar algumas coisas bem claras. E a abriu bem a tempo de ver Cybil caindo nos braos de um homem 
alto e atltico.
- Continua sendo a garota mais bonita de Nova York - disse ele, fitando-a com um olhar carinhoso. - Agora me d um beijo.
Cybil se mostrou mais do que disposta a obedecer, segundo Preston pde notar de onde estava.


CAPTULO VIII
- Matthew! Por que no disse que viria? Quando chegou? Quanto tempo vai ficar? Oh, estou to feliz em v-lo! Deus, mas voc est todo molhado. Entre e tire essa 
jaqueta. Quando vai comprar uma nova? Essa aqui parece que passou por uma guerra!
Matthew apenas riu e abraou-a mais uma vez, levantando-a do cho e dando-lhe um beijo sonoro.
- Continua tagarela.
- Voc sabe que eu no consigo parar de falar quando estou feliz. Quando... Oh, voc est a, Preston. - Ela foi at a porta, com um brilho de felicidade no olhar. 
- No vi que estava a.
- Isso ficou evidente - respondeu ele, contendo a vontade de agarrar o sujeito pelo colarinho e coloc-lo para fora do apartamento. -
 Mas no interrompam o encontro por minha causa.
- Matthew, esse  Preston McQuinn - Cybil os apresentou.
- McQuinn? - Matthew sorriu, mostrando os dentes muito alvos, sem sequer desconfiar que Preston estava com vontade de acert-los com seu punho. - O roteirista de 
teatro. Vimos seu trabalho da ltima vez em que estive na cidade. Cybil chorou um bocado. Tive praticamente de ampar-la para fora do teatro.
- No exagere, Matthew. Eu no fiquei to mal assim.
- Ficou, sim. Se bem que voc  do tipo que chora at vendo comerciais de tev. Ento no sei se todo aquele seu sentimentalismo contou muito...
- Oh, Matthew, como voc gosta de me provocar e... Oh, o telefone. Esperem um minuto, eu j venho.
Cybil foi atender ao telefone na cozinha, deixando os dois se entreolhando com ar desconfiado.
- Sou escultor - declarou Matthew, contendo o riso. - E j que preciso da mo para trabalhar, acho melhor ir logo dizendo que sou irmo de Cybil, antes de oferec-la 
para cumpriment-lo.
- Irmo? - O olhar ameaador de Preston se amenizou um pouco, mas no desapareceu por completo. 
- No se parece muito com ela.
- Todo mundo diz isso. Mas se quiser conferir minha identidade...
- Era a sra. Wolinsky - anunciou Cybil, voltando para a sala. - Ela o viu entrando, mas no conseguiu abrir a porta a tempo de cumpriment-lo. Acho que ela queria 
apenas dizer que voc est mais bonito do que nunca. - Sorrindo, apertou as bochechas dele. - Ele no  lindo?
- No comece.
- Ah, mas voc  mesmo. Tem um rosto lindo, desses que fazem as mulheres suspirarem. - Ela sorriu e pegou a mo de Preston. - Venha, vamos beber algo para comemorar.
Ele fez meno de recusar, ento deu de ombros. No faria nenhum mal passar alguns minutos ao lado de Cybil e do irmo dela.
- Com que tipo de escultura voc trabalha?
- Esculturas de metal - respondeu Matthew, tirando a jaqueta e jogando-a sobre uma cadeira.
Cybil, porm, pegou-a no mesmo instante.
- Vou pendur-la no banheiro para secar. Preston, sirva-nos um pouco de vinho, sim?
- Claro.
- No tem cerveja? - indagou Matthew, arqueando uma sobrancelha ao ver a familiaridade com que Preston foi at a cozinha, procurar a bebida.
- Tem, sim. - Preston tirou duas latinhas da geladeira e abriu-as, antes de servir vinho para Cybil. 
- Voc trabalha na regio sul?
- Isso mesmo - Matthew respondeu. - Para mim,  mais prtico ficar em Nova Orleans do que na Nova Inglaterra. Raramente chove por l e isso me d mais oportunidade 
de trabalhar ao ar livre. Cybil no havia falado de voc. Quando se mudou para c?
Preston tomou um gole de cerveja , notando que os olhos de Matthew eram quase da mesma cor dos cabelos de Cybil. Um tom de usque envelhecido.
- Mudei-me h pouco tempo - respondeu.
- Age rpido, no? - insinuou Matthew.
- Dependendo do meu interesse...
- Preston - Cybil suspirou ao entrar na cozinha -, poderia pelo menos ter servido a cerveja em copos, no?
- No precisamos de copos - respondeu Matthew, dando uma piscadela para Preston. 
- Bebemos diretamente da lata, como homens de verdade, no , McQuinn?
Cybil riu.
- Ento no vai nem querer o queijo temperado e o pat com torradas que eu pretendia lhe oferecer para acompanhar a bebida? - provocou ela.
- Quem disse? - indagou Matthew, em um tom de protesto, sentando-se em um dos banquinhos diante do balco. 
- Voc tinha quatro dessas banquetas, no tinha?
- Oh, emprestei uma para Preston. O que veio fazer em Nova York, Matthew? - perguntou ela, examinando o que havia na geladeira.
- Vim fazer alguns contatos para minha prxima exposio. Estou aqui apenas h alguns dias.
- E se hospedou em um hotel, no ? - questionou Cybil, com ar ofendido.
- Essa sua "poltica de boa vizinhana" me deixa louco, irmzinha. - Olhando para Preston, continuou: - Est aqui h algum tempo, no ? Ento j deve ter visto 
como este apartamento vive cheio de gente.  um horror. Ela deixa... - ele fez um ar dramtico -...as pessoas entrarem aqui a todo momento.
- Matthew  um recluso profissional - explicou Cybil, comeando a arrumar a mesa. - Vocs dois vo se dar muito bem. Preston tambm no gosta de ter contato com 
muitas pessoas.
- Ah, finalmente algum com bom senso. - Matthew sorriu para Preston, concluindo que certamente os dois iriam se dar bem. 
- Certa vez, cometi a tolice de pedir para ficar aqui - continuou ele, pegando uma torrada. - Foi um pesadelo. Trs dias vendo gente entrando sem bater, falando 
alto e trazendo seus parentes e bichos de estimao.
- Era apenas um cachorrinho.
- Que insistiu em ficar no meu colo, sem ser convidado, e depois comeu minhas meias.
- Se voc no tivesse deixado no cho, ele no as teria comido. Alm do mais, ele s as furou um pouquinho.
- Isso  uma mera questo de perspectiva - salientou Matthew. - De qualquer maneira, em um hotel, as nicas pessoas que entram e saem so os funcionrios, e eles 
batem  porta antes de entrar e no trazem "cachorrinhos" consigo. - Aproximando-se apertou o queixo dela com carinho. 
- Mas vou deixar que cozinhe para mim, irmzinha.
- Voc  o melhor irmo do mundo, Matthew.
- J comeu o rocambole de frango que ela faz, McQuinn?
- Acho que ainda no.
- No sabe o que est perdendo - completou Matthew, com um sorriso. Voltando-se para Cybil, acrescentou: - Esse pode ser nosso cardpio para hoje, irmzinha?
Ela revirou os olhos.
No deixava de ser uma maneira interessante de passar  noite, pensou Preston algum tempo depois, observando Cybil conversar com o irmo. Lembrava-se de que o relacionamento 
que tinha com sua irm era mais ou menos como aquele. Pelo menos at Pamela aparecer em sua vida.
Depois disso, evidentemente que continuara a haver afeio entre eles, mas a descontrao desaparecera. Com freqncia, passara a se sentir pouco  vontade na presena 
da prpria irm, coisa que nunca acontecera antes.
Mas ficar pouco  vontade era algo que estava longe da atmosfera familiar que envolvia os Campbell. Cybil e Matthew contavam histrias embaraosas a respeito um 
do outro com a mesma facilidade com que contavam piadas, caindo na gargalhada como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
Algumas horas depois, ao deixar o apartamento de Cybil, pensou na possibilidade de trabalhar algumas caractersticas dos dois em seus personagens, no segundo ato 
de sua pea, para dar ao texto um ar mais leve e cmico.
Trabalhar seria seu melhor consolo pelo resto da noite, j que, pelo visto, Cybil ficaria algum tempo ocupada com assuntos familiares.
- Gostei do seu amigo - falou Matthew, sentando-se no sof e esticando as pernas, enquanto saboreava o conhaque que Cybil havia aberto em sua homenagem.
- Que bom, porque eu tambm gostei de Preston.
- Ele pareceu um pouco srio demais para voc.
- Ah, bem... - Cybil sentou-se ao lado dele. - Mudar um pouco de estilo de vez em quando no faz mal a ningum.
-  s isso que ele representa para voc? - Matthew deu-lhe um carinhoso puxo de orelha. - Notei que vocs no perderam tempo em aproveitar ao mximo o momento 
em que os deixei sozinhos, quando fui dar um telefonema l em cima.
- Se estava dando um telefonema, como pode saber o que eu e Preston estvamos fazendo? A menos que tenha ficado nos espiando...
Ela sorriu e pestanejou, no tardando a levar outro puxo de orelha.
- Eu no estava espiando. Apenas olhei por acaso para o andar de baixo, em um momento bastante estratgico. Alm disso, tambm notei o detalhe de Preston haver olhado 
para voc, por vrias vezes durante o jantar, como se estivesse considerando-a mais apetitosa do que o prato principal. Ento somei dois mais dois e tirei minhas 
prprias concluses.
- Voc sempre foi brilhante, Matthew. Portanto, acho melhor eu confessar a verdade de uma vez, j que est sendo intrometido: Preston e eu estamos juntos.
- Voc est dormindo com ele.
Cybil arregalou os olhos deliberadamente.
- Matthew! - exclamou, fingindo estar escandalizada. - Claro que no! Ns decidimos trocar apenas alguns beijinhos e tentar lidar com o resto apenas como bons amigos.
Matthew estreitou o olhar.
- Voc sempre foi muito engraadinha.
- Foi assim que conquistei minha fama e minha fortuna, meu caro.
- E agora est mantendo a "fortuna" transformando McQuinn no amigo muito srio e carrancudo de Emily.
- Como eu poderia resistir?
Matthew tamborilou os dedos sobre o brao do sof. - Emily acha que est apaixonada por ele. Cybil no disse nada por um momento, ento balanou a cabea negativamente.
- Emily  uma personagem de quadrinhos que faz o que eu digo para ela fazer, Matthew. Ela no sou eu.
- Mas tem caractersticas suas, e algumas das mais provocantes e inusitadas.
-  verdade - admitiu Cybil. - Por isso gosto dela.
Matthew deixou escapar um suspiro e tomou outro gole de conhaque.
- Oua, Cyb, no quero me intrometer na sua vida pessoal, mas continuo sendo seu irmo mais velho.
- E voc cumpre to bem esse papel, Matthew. - Ela o beijou no rosto. - No precisa se preocupar comigo. Preston no est se aproveitando, e nem vai se aproveitar 
de sua irmzinha. - Ela provou um gole da bebida dele. - Na verdade, eu me aproveitei dele. Preparei biscoitos de chocolate para ele e, desde ento, Preston se tornou 
meu escravo e amante.
- L vem voc com essa lngua solta de novo - ralhou ele, parecendo tomado por um raro momento de embarao. Ficando de p, deu alguns passos pela sala. 
- Tudo bem, no quero saber os detalhes, mas...
- Oh, mas eu estava to ansiosa para contar tudo a voc... Principalmente sobre a parte dos vdeos caseiros...
- Chega, Cybil. - Matthew passou a mo pelos cabelos, dessa vez parecendo realmente embaraado. - Sei que  uma mulher adulta e que  incrivelmente bonita, apesar 
desse nariz.
- Ei! Meu nariz  muito bonito, ouviu?
- Trabalhamos duro na terapia familiar para faz-la acreditar nisso. Ainda bem que voc conseguiu superar to bem essa deformidade.
Cybil no conteve o riso.
- Oh, cale essa boca, Matthew.
- Mas, voltando a falar srio, tudo que eu quero lhe pedir  que tome cuidado. Entendeu? Cuide-se.
Cybil ficou de p, fitando-o com olhar carinhoso.
- Eu te amo, Matthew. Apesar desse seu cacoete horroroso.
- Ei! No tenho nenhum cacoete!
- Trabalhamos duro na terapia familiar para faz-lo acreditar nisso. - Rindo, ela enlaou os braos em torno do pescoo dele e o abraou com carinho. 
-  to bom t-lo aqui. No pode ficar por mais tempo?
- No posso, meu anjo. - Ele pousou o queixo sobre a cabea dela. - Vou passar alguns dias em Hyannis. Quero trabalhar um pouco, fazer alguns esboos. Vov reclamou 
que faz tempo que eu no vou visit-los.
- Oh, ele  mestre em fazer isso. Por acaso, vov est "morrendo de preocupao por sua causa"? - falou ela, rindo e afastando-se para fit-lo.
- Descabelando-se - respondeu ele, tambm rindo. - Por que no vem tambm? D um bnus a ele. Assim poderemos salvar um ao outro quando ele comear com aquela histria 
de nos perguntar por que ainda no estamos casados e dando bisnetos a ele.
- Bem, ele andou me telefonando algumas vezes nas ltimas semanas, sem me dar a chance de telefonar primeiro. - Cybil tornou-se pensativa por um instante, considerando 
os compromissos que tinha para cumprir. - Estou com o servio um pouco adiantado, mas tenho um compromisso, depois de amanh, que no pode ser adiado.
- Ento viaje depois disso - sugeriu Matthew. - Convide Preston para ir com voc. Teremos uma reunio familiar por l.
- Acho que ele iria se divertir - disse ela. - Vou ver se ele quer me acompanhar. De qualquer maneira, eu irei.
- timo.
Matthew ficou torcendo para que Preston aceitasse o convite. Iria se divertir muito vendo seu av intimando-o a pedir a mo de Cybil.
Como j passava da meia-noite quando Matthew foi embora para o hotel, Cybil achou melhor tomar um banho e ir direto para a cama. No havia dormido o suficiente na 
noite anterior, e nem Preston. Portanto, a coisa mais prtica e sensata a fazer no momento seria tentar ter seu merecido descanso.
Porm, quando deu por si, j havia atravessado o corredor e estava apertando a campainha do apartamento em frente ao seu. Estava comeando a pensar que Preston j 
havia ido dormir quando ouviu a chave girando na fechadura.
- Oi, no quer tomar um ltimo drinque antes de ir dormir?
Ele olhou por cima da cabea dela, tentando enxergar o interior do apartamento em frente.
- Onde est seu irmo?
- A caminho do hotel. Abri uma garrafa de conhaque para ele e...
Cybil no se surpreendeu quando, antes mesmo de terminar a frase, Preston puxou-a para dentro do apartamento, trancou a porta e enlaou os braos em torno da cintura 
dela. E tambm no se surpreendeu quando os lbios dele esmagaram os dela em um vido beijo.
- Pelo visto, no vai querer tomar conhaque - falou ela, ofegante. Sem se importar com o fato de Preston j haver comeado a tirar sua blusa, acrescentou: - Ou alguma 
outra bebida.
A fora do desejo que s apoderara dele no momento em que vira Cybil era quase incontrolvel. Saber que poderia t-la novamente para si deixara-o ansioso, impaciente 
para am-la outra vez.
Cybil tambm se deixou levar pelo desejo, colando seu corpo ao dele com gemidos de prazer, enquanto sentia Preston deslizar sua cala para baixo, por sobre seu quadril. 
Sim, queria pertencer a ele mais uma vez. E por isso no perdeu tempo em se livrar do restante das peas que cobriam seu corpo.
Sentiu as mos de Preston acariciarem seus seios, segundos antes de ele tomar um dos mamilos entre os lbios, sugando-o e mordiscando-o sensualmente. Ofegante, Cybil 
foi deixando pontos avermelhados nas costas de Preston, causados pelo efeito de suas unhas, em meio ao enlevo de prazer.
A pele acetinada de Cybil era como um convite ao toque e  carcia. Um convite irrecusvel para um homem atormentado pelo desejo. Devagar, ele foi deslizando os 
lbios sobre o corpo dela, at alcanar o ponto mais sensvel do corpo de Cybil e sentir os dedos dela se cravarem em seus ombros. Gemidos de prazer comearam a 
soar pelo ambiente.
No era possvel que algum pudesse sobreviver a todo aquele prazer, foi o ltimo pensamento coerente que passou pela mente de Cybil, antes de ela se deixar levar 
completamente. Preston afundou os dedos em suas ndegas, enquanto a levava  loucura com os lbios e a lngua.
Um grito de prazer logo irrompeu em sua garganta, enquanto, por um instante, o ar pareceu sumir de seus pulmes. Rendida, encostou-se  porta, ainda entregue aos 
lbios vidos de Preston.
Sua postura pareceu acender ainda mais a chama do desejo nele. Preston deslizou as mos pela pele mida de Cybil, enquanto continuava sua doce tortura com os lbios, 
exigindo mais, mais...
At sentir-lhe o corpo recomear a estremecer e se mover com cada vez mais sensualidade, em busca do novo xtase.
Deixando-a quase no limiar do clmax, Preston levou-a at a nica cadeira que havia na sala. Livrando-se das prprias roupas, sentou-se e puxou-a para si de maneira 
quase selvagem. Ento guiou-a at seu membro pulsante e ambos finalmente se tornaram um. Sem deixar de fit-la nem por um instante, maravilhou-se ao ver o verde 
intenso dos olhos dela se escurecerem de prazer.
Ento, com um gemido ertico, ela comeou a se mover. Dessa vez, seria Cybil quem ditaria o ritmo do prazer. E ela o fez melhor do que ele poderia esperar. A cada 
movimento daqueles quadris perfeitos, Preston sentia como se fosse explodir de prazer a qualquer momento. O gosto da sensualidade de Cybil permanecia em sua boca, 
enquanto o excitante aroma de seus corpos unidos lhe invadia as narinas, enevoando-lhe os sentidos e fazendo-o ansiar pelo alvio final.
Aqueles sons sensuais e quase selvagens emitidos por Cybil o estavam deixando louco, assim como o arrebatamento ertico presente na expresso do rosto dela e naqueles 
lbios entreabertos.
Preston sentiu que estava muito prximo do clmax e teve de se esforar para conseguir se conter mais um instante, s mais um instante, at satisfazer Cybil completamente.
De fato, no teve de esperar muito, pois logo a viu inclinar a cabea para trs, com uma concentrada expresso de xtase, ao mesmo tempo em que um gemido mais alto 
e mais prolongado anunciou a fora de seu pice de prazer.
Ento Preston tambm fechou os olhos, arrebatado por uma intensa onda de prazer. Gemeu, ao sentir os lbios e a lngua de Cybil em seu pescoo, o complemento perfeito 
para aquele momento to especial.
Lembrou-se do que ela havia lhe dito antes, que ningum a havia tocado como ele. Tambm ningum o havia tocado como ela. No entanto, por mais que fosse hbil com 
as palavras, no conseguia imaginar uma maneira de dizer a Cybil quanto ele a considerava especial.
- Passei a noite inteira querendo fazer isso com voc. - Pelo menos isso ele podia dizer, sem arriscar o futuro de ambos.
- E pensar que eu quase fui dormir. - Com um longo suspiro pleno de satisfao, Cybil passou a mo pelos cabelos, ajeitando-os. - Eu sabia que esta cadeira era perfeita 
para voc.
Preston sorriu com charme.
- Eu estava pensando em mandar restaur-la, mas agora acho que vou mandar pint-la de dourado, como uma espcie de trofu.
Ela riu inclinando a cabea para trs, ento voltou a olh-lo e segurou o rosto dele entre as mos.
- Adoro quando voc tem esses surtos de bom humor.
- No estou brincando - declarou Preston, com expresso sria. 
- Isso vai me custar uma fortuna. 
Queria v-la rir, fazendo aquele som, do qual ele se tornara quase dependente, soar pela sala.
Mas Cybil se limitou a sorrir, com um brilho de divertimento no olhar.
- Preston - disse, antes de beij-lo nos lbios.
O beijo suave, mas intenso, foi como uma espcie de compartilhamento de algo muito especial. Preston estremeceu. Aqueles dedos carinhosos entrelaados a seus cabelos 
e os lbios doces de Cybil o fizeram ansiar por algo que ele se recusava a admitir.
Algo muito intenso estava acontecendo em seu ser, tornando suas mos trmulas no esforo de se manter imune quele turbilho de sensaes. Mas Cybil era encantadora 
demais para ele conseguir resistir. Havia cruzado aquela tnue linha entre querer e precisar, sentindo-se perigosamente prximo do limite de amar.
Cybil suspirou, encostando o rosto junto ao dele. Se pelo menos Preston pudesse am-la tanto quanto ela o amava...
- Est com frio? - perguntou Preston, ao notar a temperatura do rosto dela.
- Um pouquinho. - Ela manteve os olhos fechados por mais algum tempo, lembrando a si mesma que nem sempre era possvel se ter tudo que se queria. 
- Estou com sede. Tambm quer um pouco de gua?
- Sim, eu vou pegar - respondeu ele.
- No, no precisa se incomodar. - Cybil ficou de p, deixando Preston com uma incmoda sensao de perda. - Matthew gostou de voc - comentou, indo em direo  
cozinha.
- Tambm gostei dele. - Preston respirou fundo, recuperando o autocontrole. 
- Aquela escultura em seu ateli  trabalho dele?
- Sim. Maravilhoso, no? Matthew tem uma viso muito singular das coisas. E v-lo trabalhar, quando ele est de bom humor e no ameaa matar quem o estiver observando, 
 uma experincia incrvel.
Cybil abriu uma garrafa de gua, encheu um copo alto at a borda e bebeu quase um tero de seu contedo, antes de entreg-lo a Preston. No notou o olhar surpreso 
que recebeu quando se aninhou feito uma gata manhosa sobre o colo dele.
- O que acha de fazermos uma viagem? - perguntou ela, de repente.
- Uma viagem?
- Sim. Passar alguns dias em Hyannis Port. Matthew vai visitar nossos avs, os MacGregor, e pensei em fazer o mesmo. Vov adora reclamar que no os visitamos o suficiente. 
O lugar  lindo e a casa ... Bem,  impossvel descrev-la. Mas tenho certeza de que voc vai gostar tanto dela quanto dos meus avs. E ento? Est interessado 
em deixar a loucura dessa cidade um pouquinho, Preston McQuinn?
- Isso est me soando a reunio familiar.
Ele se surpreendeu com a sbita sensao de tristeza que o invadiu diante da idia de ter de passar alguns dias longe de Cybil.
- Com os MacGregor por perto, tudo soa como uma reunio de famlia. Vov adora conversar e fazer novas amizades. Est com mais de noventa anos e tem uma energia 
invejvel.
- Eu sei. Ele  fascinante. Alis, os dois so. - Preston sorriu quando Cybil franziu o cenho. - Eu j os conheo. Eles so conhecidos de meus pais.
-  mesmo? Eu nunca imaginaria isso. Eu lhe falei sobre todas aquelas ligaes familiares meio complicadas, no falei? MacGregor com Blade. Blade com Grandeau. Grandeau 
com Campbell. Campbell com MacGregor... No necessariamente nessa ordem.
- No comece com isso de novo, por favor. S de ouvir essa poro de nomes j estou sentindo a cabea doer.
Cybil riu e o beijou.
- Bem, se j os conhece e tambm j foi apresentado a Matthew, pelo menos no vai se sentir em meio a um grupo de estranhos. Venha comigo. - Ela mordiscou a orelha 
dele. - Ser divertido.
- Poderamos continuar bem aqui, nesta cadeira, e nos divertirmos muito mais...
Cybil riu, lisonjeada.
- H muitos e muitos quartos no castelo MacGregor - murmurou ela, junto ao ouvido dele. - E, em vrios deles, camas enormes e macias.
- Quando partiremos?
- Oh, est falando srio, Preston? - Ela se afastou para olh-lo, entusiasmada com a idia. - Que tal depois de amanh? Tenho uma reunio pela manh, mas poderemos 
partir depois do almoo. Oh, e posso alugar um carro para viajarmos.
- Eu tenho carro.
Cybil inclinou a cabea, estreitando o olhar.
- Hum,  um carro sexy?
- O que acha dos seds de quatro portas? Ela hesitou.
- Bem,  um carro que tem uma certa presena... Gosto de carros assim.
- Que pena, ento acho que no vai gostar do meu Porsche.
- Um Porsche?! - Cybil arregalou os olhos.
- Oh, no me diga que  conversvel?
- Que outro modelo poderia ser?
- Sim, claro. Oh, e diga que ele tem cinco marchas.
- Sinto muito, mas so seis. Ela ficou boquiaberta.
-  mesmo? Verdade? Posso dirigi-lo?
- Claro. Se depois de amanh o inferno de repente resolver congelar, deixarei voc se sentar ao volante dele.
Com uma careta de desagrado, Cybil comeou a brincar com os cabelos dele.
- Mas sou uma excelente motorista.
- Tenho certeza de que sim.
Preston achou que seria mais produtivo tentar distra-la do que continuar ouvindo-a e deixar que ela acabasse fazendo-o mudar de idia. Encostou o copo frio sobre 
as costas dela, fazendo-a arquear o corpo levemente, em um arrepio, enquanto seus seios roavam o peito dele.
- Hum... O que acha que conseguiremos fazer se reclinarmos essa cadeira um pouco para trs? - indagou ele, em um tom sensualmente sugestivo.
Um brilho sedutor surgiu nos olhos de Cybil.
- Hum... Uma poro de coisas loucas e deliciosas... - murmurou, inclinando a cabea para que os lbios de Preston tivessem mais acesso a seu pescoo. - Sabia que 
meu av  o dono desse prdio? - falou, por acaso, mantendo os olhos fechados.
- Sim, eu sei. Alis, foi ele quem me falou sobre este apartamento quando eu estava procurando um lugar para ficar temporariamente.
- Ele lhe falou sobre este apartamento?
Preston moveu-se de modo a ficar por cima dela, distraindo-a momentaneamente de um vago pensamento que comeara a se formar na mente dela.
- Quando ele... Oh, Deus, voc  to bom nisso...
- Obrigado. Mas pretendo ficar ainda melhor.
Um sorriso se insinuou nos lbios de Cybil. Seria possvel Preston conseguir fazer amor de maneira ainda melhor? Era o que iria tentar descobrir.


CAPTULO IX
A casa dos MacGregor se localizava em um belssimo conjunto de colinas com vista para o mar. Tudo ali era sbrio e marcante, principalmente a imponente construo 
de pedra. Tudo na aparncia do lugar, desde suas torres semelhantes s dos castelos, at a bandeira tremulando com o smbolo do cl, parecia bradar a palavra "orgulho" 
aos quatro ventos.
O velho Daniel havia mandado construra casa em seu lugar preferido: o cume de uma das colinas mais altas e com uma das mais belas vistas do mar que se poderia ter 
dali. E era mais do que evidente que a construo havia sido feita para durar. Como um slido legado dos MacGregor aos descendentes do cl.
Os inmeros canteiros de rosas, que floresceriam com todo vigor na primavera seguinte, no amenizavam o efeito de imponncia do lugar. De fato, serviam apenas para 
enfatizar aquela aura mgica e quase mtica.
- Pare - pediu Preston, pousando a mo sobre o brao de Cybil. - Pare o carro.
Um sorriso se insinuou nos lbios dela. Sabia muito bem o que era ter aquela reao ao ver a casa dos MacGregor ao longe. Feliz em notar que a viso o afetara tanto 
quanto sempre a afetava, Cybil parou o carro com movimentos cuidadosos.
- Parece um castelo de conto de fadas, no? - disse, apoiando-se sobre o volante, enquanto ambos observavam a manso atravs da leve garoa. - No aqueles das verses 
mais romnticas, mas um castelo com personalidade prpria.
- Eu j o tinha visto em fotografias, mas elas nunca so como a imagem real.
- No se trata apenas de uma manso, mas de um lugar que transmite uma aura de generosidade. Sempre que a visitamos, encontramos alguma novidade aqui e acol. E 
geralmente algo que nos surpreende.
E dessa vez, no seria diferente, pensou Cybil. S que seria ela quem levaria a surpresa at a manso.
- Essa garoa combina com a paisagem, no? - disse a ele.
- Acho que essa paisagem fica bem em qualquer clima.
- Tem razo - anuiu Cybil, com um sorriso. - Precisa ver esse lugar no inverno. Sempre viajamos para c na poca do Natal.  lindo como o efeito da neve e do vento 
deixam-na com a aparncia de um castelo de gelo. No ano passado, quando as rosas comearam a desabrochar e o cu estava to azul que chegava a ofuscar a vista, meu 
primo, Duncan, casou-se aqui. Mas assim, em meio  garoa... - Ela sorriu com ar sonhador. - O lugar lembra uma paisagem escocesa.
- J esteve na Esccia?
- Hum-hum. Duas vezes. E voc?
- No. Nunca estive l.
- Pois deveria viajar at l. Por uma questo de razes - acrescentou ela. - Ficar surpreso com a fora que voc passa a sentir ao respirar o ar das Terras Altas 
e ao ver as lindas paisagens das Terras Baixas.
- Talvez eu viaje para l em breve. Vou querer algumas semanas de descanso quando esse meu ltimo roteiro estiver terminado. - Preston olhou para ela e arqueou as 
sobrancelhas. - E ento? Est gostando do carro?
- Bem, levando-se em conta que voc s me deixou dirigi-lo por aproximadamente quarenta e cinco segundos, acho meio difcil lhe dar um parecer. Mas se me deixar 
dar uma volta mais demorada com ele amanh...
- Nem mesmo seu maior poder de persuaso vai me convencer a deix-la dirigi-lo por mais tempo do que daqui at a manso.
Cybil deu de ombros, como que no dando importncia ao fato. Porm, no ntimo, pensou: " o que veremos", e partiu novamente pela estrada.
Quando chegaram, ela estacionou o carro diante da suntuosa manso.
- Muito obrigada - agradeceu e deu um leve beijo nos lbios de Preston, antes de lhe entregar as chaves do carro.
- No h de qu.
- No vamos nos preocupar com a bagagem agora, est bem? Vamos esperar primeiro essa garoa passar, depois viremos peg-la ou mandaremos um dos empregados faz-lo.
Dizendo isso, ela abriu a porta do carro e saiu correndo em direo  varanda coberta, onde parou para sacudir os cabelos e sec-los com as mos.
Durante algum tempo, Preston ficou parado no carro, apenas admirando o jeito encantadoramente infantil de Cybil. No se cansava de olhar aquele belo sorriso de menina 
misturado ao ar sensual que se manifestava nela com naturalidade, e do qual Cybil nem parecia ter conscincia. De certa maneira, esse ltimo detalhe parecia torn-la 
ainda mais sedutora.
Queria acreditar que o que estava sentindo era apenas desejo, mas, por outro lado, sabia que desejo puro e simples no despertava o receio de ficar longe ou de perder 
a outra pessoa. O mero desejo era algo mais simples de se lidar, e menos perigoso. No entanto, j que no tinha como ignorar aquilo que estava sentindo, pelo menos 
tentaria continuar negando o fato para seu prprio bem, e para o de Cybil.
Respirando fundo, saiu correndo em direo  varanda, deixando que a garoa e o vento, a essa altura mais intensos, atingissem seu rosto e seus cabelos. Quando alcanou 
Cybil, no resistiu ao riso divertido que ela soltou e puxou-a para si, tomando-lhe os lbios com uma paixo quase violenta.
Por um momento, Cybil apenas agitou as mos no ar, aturdida com a presso do corpo msculo de Preston junto ao seu e com urgncia daqueles lbios quentes colados 
aos seus. Porm, no demorou muito para se render mais uma vez quela sedutora aura de desejo, retribuindo o beijo com a mesma intensidade.
- Preston...
Ele ouviu o murmrio em meio  tormenta que varria seu corpo e sua mente, feito ondas batendo contra rochas slidas. De fato, foi somente o som da voz de Cybil que 
o fez despertar para a realidade e se lembrar de onde eles se encontravam.
- Com sua famlia por perto, no poderei fazer isso por algum tempo - explicou ele, prendendo uma mecha dos cabelos dela atrs de sua orelha delicada.
Cybil sentiu um carinho todo especial naquele gesto e o sorriso que curvou seus lbios foi de puro encantamento. J no se importava que Preston percebesse que ela 
estava apaixonada por ele. Aquele sentimento era bonito e intenso demais para continuar sendo mantido apenas em seu corao.
- Bem, pelo menos isso exigir que eu tambm me comporte. Mas sei que no vai ser fcil... - acrescentou dando um ltimo beijo nele.
Com um sorriso, segurou-o pela mo e o puxou para dentro.
O interior da manso, apesar de grandioso, era inusitadamente aconchegante. Pelas paredes, via-se espadas e escudos antigos polidos ao ponto de brilhar. Afinal, 
tratava-se da casa de um guerreiro. Um aroma de flores e de madeira recendia pelo ar, tornando o ambiente ainda mais agradvel.
- Cybil!

Anna MacGregor desceu a ampla escada, sorrindo com satisfao. Os cabelos quase brancos estavam penteados para trs, em um coque elegante, e os olhos castanho-escuros 
transmitiam um brilho de sabedoria impossvel de passar despercebido. Ao se aproximar, ela abriu os braos para envolver a neta em um abrao.
- Oh, vov... - Cybil fechou os olhos com carinho, adorando sentir o familiar perfume de lavanda da av. - Como consegue ficar cada vez mais bonita? - disse ao se 
afastar.
Anna afagou o brao dela com carinho e sorriu.
- Uma mulher tem de saber manter um pouco de vaidade, menina. Mesmo se tratando de uma com a minha idade.
- No consigo v-la como uma mulher velha. Est sempre to linda. No  mesmo, Preston?
- Sem dvida - anuiu ele, com um sorriso.
- Ora, um elogio vindo de um lindo jovem  sempre bem-vindo, mesmo que seja por pura gentileza - gracejou Anna. Mantendo o brao em torno da cintura de Cybil, ela 
estendeu a mo para cumprimentar Preston. 
- Ol, Preston. No deve se lembrar muito bem de mim. Acho que voc no tinha mais do que dezesseis anos da ltima vez em que o vi.
- Isso mesmo - confirmou ele, apertando a mo dela. - Mas lembro-me muito bem da senhora. Estvamos em um baile de primavera em Newport, e a senhora foi muito compreensiva 
comigo, quando eu a cumprimentei e disse que preferiria ter ido a outro lugar.
- Ah, ento voc se lembra. - Anna sorriu. - Agora fiquei mesmo lisonjeada. Venham se aquecer, meninos. Devem estar com frio depois de haverem tomado essa garoa.
- Onde esto vov e Matthew? - Cybil quis saber.
- Ah. - Anna riu baixinho enquanto os conduzia ao aposento que a famlia costumava chamar de "Sala do Trono". - Daniel levou o coitado para nadar com ele na piscina. 
Disse que Matthew estava precisando se exercitar um pouco, e voc sabe como seu av leva a srio esse negcio de nadar diariamente. Vive dizendo que  isso que o 
mantm jovem.
- Tudo o mantm jovem. - Cybil riu.
A melhor palavra para definir aquele aposento era "apropriado", pensou Preston. Uma cadeira de espaldar alto, com certeza pertencente ao velho Daniel, dominava a 
sala forrada por um felpudo tapete vermelho-escuro. Os mveis eram antigos, feitos de madeira macia e trabalhada. As luzes do lustre antigo se encontravam acesas, 
assim como a lareira de pedra, cujo calor deixara a sala com uma temperatura extremamente agradvel.
- Vamos tomar o ch da tarde. Imagino que Daniel v insistir para acrescentarmos usque ao ch e que usar o fato de termos visitas como desculpa para isso. Sentem-se 
e fiquem  vontade - acrescentou Anna, indicando as poltronas. - Se eu no o avisar que vocs esto aqui, ouvirei reclamaes por semanas - explicou, com um gesto 
de mo.
- Sente-se a senhora, vov - falou Cybil. - Pode deixar que eu avisarei vov e servirei o ch.
- Oh, continua prestativa como sempre, no , minha querida? - Anna afagou a mo da neta, enquanto se sentava. - Sempre foi. - Indicando a poltrona ao lado da dela, 
continuou: - Sente-se aqui, Preston. Daniel e eu assistimos  sua pea, em Boston, h alguns meses. Achei o roteiro poderoso, contestador. Sua famlia deve se sentir 
muito orgulhosa de seu talento.
- Na verdade, acho que eles ficaram mais surpresos do que orgulhosos.
- s vezes, essas reaes levam ao mesmo resultado - disse ela, com sabedoria. - Na verdade, nunca esperamos que nossos parentes, por mais que os admiremos, demonstrem 
genialidade. Isso sempre nos espanta e nos leva a pensar: "Como no notei isso durante todo esse tempo?".
- A senhora conhece minha famlia - falou Preston. - Ento deve ter notado que abordei vrios comportamentos deles na minha pea.
- Sim, eu notei. Mas, s vezes,  bom desabafar por meio da arte. Alm de facilitar o processo de catarse, permite a algum de talento, como voc, criar uma bela 
obra artstica. Sua irm est bem?
- Sim, apesar dos filhos. - Ele riu. - Eles so o centro da vida dela.
- E quanto a voc, Preston. O trabalho  o centro" de sua vida?
- Creio que sim.
- Oh, desculpe-me. - Aborrecida consigo mesma, Anna tocou o brao dele. - Estou sendo bisbilhoteira, e geralmente deixo isso a encargo do meu marido. Estou interessada 
em saber mais detalhes porque me lembro muito bem da maneira como voc olhava para sua irm naquela festa, em Newport. Lembrou-me a maneira como Alan e Caine sempre 
olharam para Serena, e de como isso sempre pareceu aborrec-la, como pareceu aborrecer... Jenna,  isso?
- Sim - confirmou Preston, com um sorriso. - Ela ficava mesmo muito brava. - O sorriso logo desapareceu. - Se eu tivesse agido com mais cautela nos anos que se seguiram, 
ela no teria ficado magoada.
- Preston, voc no a magoou. E, na verdade, eu no pretendia faz-lo recordar esses fatos do passado. Agora me conte no que est trabalhando, ou ser que isso  
segredo por enquanto? - acrescentou ela, com um sorriso gentil.
- No, no  segredo. - Ele sorriu com charme. -  uma histria de amor que se passa em Nova York. Pelo menos,  nisso que est se transformando.
- Ainda no serviu um usque para o rapaz, Anna?
Daniel entrou na sala com passos firmes e, como sempre, sua presena logo dominou o ambiente. Os responsveis por isso eram sua postura, seu porte elegante e aquela 
voz firme que se negava a enfraquecer com a idade. Os olhos muito azuis continuavam com um brilho sagaz e os cabelos completamente grisalhos lhe atribuam um charmoso 
ar de sabedoria.
- Isso  maneira de receber um homem que andou nessa garoa fria e que conseguiu trazer nossa neta preferida at aqui?
- Oh, que timo - resmungou Matthew, vindo atrs dele. - Quando quis ter sua piscina consertada, eu era seu neto preferido.
- Bem, ela est consertada agora, no est? - falou Daniel, com uma piscadela para todos e um sorriso afetuoso para o neto.
-  muito bom rev-lo, sr. MacGregor.
Preston ficou de p e cruzou a sala com a mo estendida, para ir cumpriment-lo. Mas para Daniel isso no era suficiente quando havia algum tipo de interesse de 
sua parte em um "pretendente em potencial". Por isso, enlaou Preston em um abrao que pareceu deixar o rapaz sem flego por um instante.
- Est com uma aparncia tima, McQuinn. S est faltando mesmo uma boa dose de usque escocs para pr um pouco de cor em seu rosto.
- Ter uma gota de usque em seu ch, Daniel, se  isso que est querendo - Anna interveio, indo buscar a bebida.
- Uma gota? - Para um homem daquela idade, Daniel ainda sabia choramingar como um beb. - Anna...
- Duas gotas - corrigiu ela, com um sorriso que parecia querer dizer: "Estou sendo mais do que generosa, portanto, no me provoque". 
- Diga-me uma coisa, Preston, voc fuma charutos?
- No por hbito - respondeu ele.
Anna virou-se e olhou para Daniel com ar de aviso.
- Ento, se eu chegar em algum lugar e o vir com um charuto entre os dedos, saberei quem o passou para voc.
- Essa mulher  mesmo uma carrasca - resmungou Daniel. -
 Bem, mas sente-se, rapaz, e digame como esto indo as coisas entre voc e Cybil.
Alarmes soaram na mente de Preston.
- Como esto indo as coisas?
- Ora, vocs so vizinhos, no so?
- Sim. - Preston sentou-se, sentindo-se um pouco mais aliviado, mas no muito. - Nossos apartamentos ficam um em frente ao outro.
- Ela  linda como uma flor, no  mesmo?
- Vov - ralhou Cybil, colocando a bandeja com ch sobre a mesa. - No comece. No faz nem dez minutos que Preston est aqui.
- Comear o qu? - indagou Daniel, com ar inocente. Estreitando o olhar, acrescentou: -Voc  bonita ou no ?
- Ah, sou adorvel. - Ela riu e beijou-o no nariz. Aproveitando que estava perto dele, sussurrou-lhe ao ouvido: - Comporte-se e eu colocarei um pouco do meu usque 
no seu ch quando ela no estiver olhando.
Os lbios de Daniel se curvaram em um amplo sorriso.
- Esta  minha garota.
- No vai acreditar no sabor desses bolinhos, Preston - emendou Cybil, satisfeita por haver conseguido subornar o av. 
- Nem eu mesma consigo imitar essa receita. Os daqui sempre ficam mais gostosos.
- Cybil  uma tima cozinheira - falou Daniel, fazendo uma careta de desgosto ao ver Anna colocar exatamente duas gotas de usque em uma das xcaras, antes de entreg-la 
a ele. - Tem levado pratinhos com petiscos para ele uma vez ou outra, no , querida? Como uma vizinha prestativa deve fazer.
- Ela preparou rocambole de frango para ns, ontem  noite - falou Matthew, enquanto passava gelia de morango em um bolinho. Lembrando-se de que havia prometido 
a Cybil que a "salvaria" nos momentos crticos, acrescentou: 
- Preston, voc quer usque puro ou prefere ch?
- Vou querer o usque, obrigado. Puro.
- E de que outro modo um homem deve tom-lo? - resmungou Daniel, olhando com desprezo para sua xcara de ch. 
- Ento j experimentou alguns dos dotes de nossa Cybil - perguntou ele, contendo o riso ao ver Preston quase se engasgar com o bolinho.
- O que disse?
- Os dotes culinrios de Cybil - esclareceu Daniel, com ar inocente. - Mulheres que cozinham to bem como minha neta precisam ter uma famlia para alimentar, sabia?
- Vov... - avisou ela, apontando o prprio usque com discrio.
Quando um homem se encontrava dividido entre uma dose de usque escocs e o futuro de sua neta, o que ele deveria escolher?, Daniel se perguntou. s vezes, era preciso 
fazer sacrifcios.
- Qual  o homem que no aprecia uma refeio quente e bem-feita? Estou errado, rapaz?
Preston notou uma espcie de aura de perigo no ar.
- No.

- A est! - Daniel bateu o punho fechado sobre a mesinha, fazendo a loua estremecer sobre a bandeja. - McQuinn  um sobrenome muito respeitado hoje em dia, no? 
E graas a voc.
- Obrigado - Preston agradeceu com cautela.
- Mas um homem de sua idade j deveria estar pensando em transmiti-lo a seus descendentes. Deve estar com trinta anos, no?
- Isso mesmo. - "E como diabos ele sabe disso?", Preston se perguntou.
- Quando um homem chega aos trinta anos, deve comear a pensar em suas obrigaes para com a continuao do sobrenome da famlia.
- Felizmente, ainda tenho alguns anos pela frente, antes de ser "sentenciado" - Matthew cochichou ao ouvido de Cybil.
Ela lhe respondeu com uma discreta cotovelada.
- Faa alguma coisa! - pediu, por entre os dentes.
- Se ele comear com essa histria para cima de mim, voc  quem vai agentar minhas reclamaes depois - avisou Matthew.
- Diga seu preo.
- Pensarei nisso depois. - Dizendo isso, ele no perdeu tempo em ocupar a poltrona prxima aos outros dois homens. - Vov, por acaso, j lhe falei sobre a garota 
que conheci h pouco tempo?
- Garota? - Daniel pestanejou, distraindo-se da conversa com Preston. Voltando-se para o neto, continuou: - Que garota  essa? Pensei que estivesse ocupado demais, 
montando seus brinquedos de metal, para ter tempo de pensar em garotas.
- Penso nelas com mais freqncia do que imagina. - Matthew riu, levantando o usque em um brinde. - Essa que conheci  muito especial.
-  mesmo? - Daniel se recostou na poltrona e cruzou as pernas. - Bem, deve ser mesmo para ganhar mais do que um ou dois olhares de sua parte.
- Oh, j faz algum tempo que estou de olho nela. O nome dela ... Lulu - Matthew inventou no ltimo instante. - Lulu LaRue, embora eu desconfie que esse seja seu 
nome artstico. Ela  danarina de mesa.
- Danarina de mesa?! - bradou Daniel, enquanto Anna escondia o riso com a mo, antes de continuar tomando o ch. - Ela dana nua em cima de mesas?
- Claro que dana nua! Que graa teria se fosse de outra maneira? Oh, vov, e ela tem uma tatuagem to interessante no...
- Nua! Uma danarina nua e tatuada! Nem por cima do meu cadver, Matthew Campbell! Quer deixar sua me arrasada? Est ouvindo isso, Anna?
- Claro que estou, querido. Matthew, pare de brincar com seu av.
- Seu desejo  uma ordem, vov - gracejou ele, dando de ombros e rindo ao ver o av estreitar o olhar. - Mas no vejo por que no posso namorar uma garota que dana 
nua e que tem uma linda tatuagem no...
- Chega, Matthew! - ralhou Daniel, indignado, fazendo os outros disfararem o riso.

Muito tempo depois de a garoa haver cessado, de a noite haver cado e de Preston haver aparecido sorrateiramente em seu quarto para matar a saudade e testar a enorme 
cama de casal, Cybil suspirou alto.
O dia havia sido quase perfeito. Quase to perfeito que ela se aninhou mais junto de Preston, deitado ali, a seu lado. Ento se permitiu imaginar que ele era um 
prncipe que havia escalado as paredes da torre do castelo para ir ao encontro dela. Para am-la. Para ficar com ela para sempre.
- Diga-me uma coisa - sussurrou Preston, relaxado e desfrutando o calor do corpo de Cybil junto ao dele.
- Hum-hum - murmurou ela, em resposta. - Qualquer coisa.
- O que diabos significou toda aquela conversa com seu av?
Cybil levantou a cabea e afastou os cabelos do rosto. Ento revirou os olhos.
- Oh, aquilo. Eu no o avisei antes porque tive a ingnua esperana de que no seria necessrio. Reconheo que a culpa foi toda minha. - Passando a perna sobre as 
dele, ela o fitou por um momento. - Sabia que tem olhos lindos, Preston? Eles so de um tom de azul diferente, como a cor da gua do mar ao cair da tarde.
- Esse foi um comentrio sincero ou apenas um artifcio para fugir do assunto principal?
- Ambas as coisas. - Ela riu.
Porm, vendo que no teria como escapar das perguntas dele, Cybil se sentou, beijou-o e vestiu o robe que havia deixado ao p da cama.

- Por que sempre se veste para conversar comigo? - Preston perguntou.
Cybil olhou-o por cima do ombro, parecendo surpresa e acanhada ao mesmo tempo.
- Um impulso puritano latente?
- Incrivelmente latente - anuiu ele, sorrindo ao v-la amarrar o robe com firmeza na cintura. - Agora, a respeito de seu av e do sbito interesse dele pelo sobrenome 
da minha famlia... Ou, como ele disse durante o jantar, o "sangue forte" dos meus ancestrais...
- Bem, Preston, voc  escocs.
- Da terceira gerao de minha famlia.
- Isso pouco importa no vasto e histrico esquema das coisas. - Cybil serviu um copo de gua. - Primeiro, quero me desculpar - disse, sem olhar para ele. - Espero 
que compreenda que meu av no fez aquilo por mal. Ele age assim porque se preocupa conosco e no teria feito aquilo se no houvesse gostado de voc.
Preston sentiu um aperto no estmago.
- Feito o qu, exatamente?
- No me dei conta... Pelo menos, no at chegarmos aqui. Mas deveria ter prestado mais ateno - murmurou ela, sentando-se na cama e entregando o copo a ele, antes 
de tomar um pouco da gua. - Na outra noite, quando voc mencionou que j o conhecia e que ele havia sugerido que voc ficasse no apartamento em frente ao meu, eu 
deveria ter prestado mais ateno aos detalhes. Bem... - Ela deu de ombros. - De qualquer maneira, no teria importado muito.

- Sobre o que est falando, Cybil? - Preston franziu o cenho, confuso.
Ela exalou um suspiro e fitou-o diretamente nos olhos.
- Meu av o escolheu para mim, Preston. Isso porque ele me ama muito - ela se apressou em acrescentar. - Ele quer apenas aquilo que acha que  melhor para mim, e 
isso significa um casamento, uma famlia e um lar. E, pelo visto, ele est achando que voc me dar tudo isso.
Preston passou a mo nos cabelos, aturdido.
- E como diabos ele chegou a essa concluso? - indagou, colocando o copo sobre a mesinha-decabeceira com um rudo seco.
- No se trata de um insulto, Preston - falou ela, quase indignada. -  um elogio. Como eu disse, vov me ama muito, portanto, deve ter uma grande estima por voc, 
por ach-lo suficientemente adequado para se tornar meu marido e o pai dos meus filhos, que sero os bisnetos que ele tanto deseja ter.
- Pensei que voc no quisesse se casar.
- Eu no disse que queria. Eu disse que ele queria isso para mim. - Levantando-se, ela foi at a penteadeira e pegou uma escova. Em seguida, comeou a escovar os 
cabelos. - E fique sabendo que o fato de voc estar to abalado  muito insultante.
- E aposto que voc considera tudo isso divertido.
- Acho encantador.
- Acha encantador que seu av de noventa e tantos anos escolha um marido para voc?


- Ele no colocou um anncio no jornal e nem um luminoso diante da casa. - Sentindo-se magoada, ela deixou a escova sobre a penteadeira. - Mas no precisa entrar 
em pnico, Preston. No vou me deixar levar pelos planos de meu av. Serei perfeitamente capaz de arranjar um marido sozinha, quando e se eu achar que devo arranjar 
um. Por enquanto, continuo no querendo nada disso.
Ela inclinou a cabea, olhando em torno de si. Na falta de algo melhor para fazer, abriu um pote de creme e comeou a pass-lo nas mos.
- Agora, estou cansada e quero dormir. E j que no se importa mesmo em dormir comigo depois do sexo, ento  melhor ir embora.
Aquilo era apenas indignao, pensou Preston, ou haveria algo mais por trs da reao de Cybil?
- Por que est brava?
- Por que estou brava? - repetiu ela, sem saber se comeava a chorar ou a gritar. - Como  possvel que uma pessoa que escreve sobre os sentimentos dos outros com 
tanta preciso, com tanta sensibilidade, faa uma pergunta dessa? Por que estou brava, Preston? - Respirou fundo e continuou: - Porque voc est sentado a, na cama 
que acabamos de dividir, completamente chocado com o fato de que algum que me ama possa querer que exista algo mais do que apenas sexo entre ns.
- Claro que h mais do que sexo entre ns - declarou ele, comeando a vestir o jeans. - H mesmo? H mesmo, Preston?

O tom frio de Cybil o levou a olh-la fixamente. Sentiu uma onda de culpa ao ver a sombra de tristeza nos olhos dela.
- Eu gosto de voc, Cybil. Voc sabe disso.
- Voc me acha divertida. No  a mesma coisa.
Sim, era mais do que indignao, concluiu Preston. Cybil estava magoada. De alguma maneira, ele a havia magoado novamente sem querer. Segurando o brao dela, virou-a 
de frente para ele, com delicadeza.
- Eu gosto de voc.
A expresso de Cybil se amenizou.
- Tudo bem. - Pousou a mo sobre a dele, forando um sorriso. - Vamos esquecer tudo isso, sim?
Preston queria concordar com ela e resolver aquilo de maneira simples. Mas o sorriso de Cybil no foi espontneo. A sombra de tristeza continuava presente nos olhos 
dela.
- Cybil, no posso lhe oferecer mais do que isso.
- No estou lhe pedindo mais. - Aproximando-se da janela, ela mudou de assunto: - A lua apareceu e no h nenhuma nuvem no cu. Poderemos caminhar pelas colinas 
amanh. A paisagem fica linda nessa poca do ano. - Contendo um arrepio, massageou os braos. - Puxa, est ficando frio aqui. Talvez seja melhor eu pr mais um pouco 
de lenha na lareira. 
- Pode deixar que eu ponho - Preston se ofereceu.
As chamas da lareira ainda estavam bem ativas, mas, mesmo assim, Preston acrescentou mais um pedao de lenha a elas. Ento ficou parado porum momento, vendo as chamas 
crepitarem, comeando a consumir o novo pedao de lenha.
Durante algum tempo, o nico som que se ouviu no quarto foi o da madeira crepitando em meio s chamas da lareira. Por fim, Preston foi o primeiro a falar:
- Poderia se sentar um instante?
- Prefiro ficar aqui, olhando as estrelas - respondeu Cybil, diante da janela. - No conseguimos ver muitas estrelas em Nova York, com todas aquelas luzes. Acabamos 
nos esquecendo de olhar para cima e nem nos lembramos de que existem estrelas. Em Maine, onde fui criada, o cu vivia repleto delas. Nunca me dei conta de quanto 
sentia falta daquela viso at ir morar na cidade.  possvel passarmos longos perodos sem uma poro de coisas e nem mesmo nos darmos conta de quanto elas nos 
fazem falta.
Cybil se tornou tensa ao sentir as mos de Preston sobre seus ombros. De fato, teve de se esforar para voltar a relaxar e no demonstrar quanto a proximidade dele 
a afetava. Ao virar-se para ele, conseguiu at sorrir.
- O que acha de sairmos para v-las melhor?
- Cybil, quero que se sente e que me oua.
- Est bem. - Esforando-se para parecer casual, ela caminhou at uma das duas cadeiras ao lado da lareira. - Sou toda ouvidos.
Preston sentou-se ao lado dela e inclinou-se um pouco para frente, fitando-a nos olhos.
- Eu sempre quis ser escritor, e no me lembro de haver pensado em me tornar outra coisa - comeou ele. - Mas eu no queria escrever romances, como meu pai desejava. 
Eu queria escrever roteiros de teatro. Tudo estava muito claro na minha mente. O palco, cada cenrio, o movimento dos atores, o ngulo e a intensidade das luzes... 
Com freqncia, talvez freqncia demais, aquele era o mundo em que eu vivia. Voc vem de uma famlia proeminente, Cybil. Uma famlia com obrigaes e exigncias 
sociais.
- Acho que  verdade.
- Eu tambm vim de uma famlia assim. Tolerei aquilo durante algum tempo, chegava at a me divertir de vez em quando, mas, durante a maior parte do tempo, sentia 
como se no pertencesse quele mundo cheio de eventos sociais.
- Eu sei, voc valoriza sua privacidade - anuiu ela. - Compreendo isso. Meu pai e Matthew tambm so assim.
- Eu gostava de ficar sozinho. Precisava disso. - Inquieto demais para continuar sentado, Preston comeou a dar alguns passos pelo quarto. - Adoro meus pais e minha 
irm, por mais que nos desentendamos de vez em quando. Sei que os magoei muitas vezes com atitudes inconseqentes, mas eu os amo, Cybil.
- Claro que sim... - Ela comeou a falar, mas voltou a se calar quando Preston balanou a cabea.
- Minha irm, Jenna, sempre foi muito socivel. Ela  uma pessoa adorvel. Mal havia completado vinte e um anos quando se casou com meu melhor amigo da poca da 
faculdade. Na verdade, fui eu quem os apresentou.

Preston ainda lamentava se lembrar daquilo. Lamentava que o primeiro passo de todo o infortnio que passaria depois houvesse sido uma iniciativa sua. Olhou para 
o jarro de gua sobre a mesinha-de-cabeceira, desejando que ele fosse uma garrafa de usque.
- Os dois se davam muito bem - continuou. - Estavam muito apaixonados, cheios de planos para o futuro. Jacob nasceu um ano depois. E menos de um ano depois, Jenna 
ficou radiante quando engravidou novamente.
Preston enfiou as mos nos bolsos e foi at a janela. Mas no viu as estrelas.
- Naquela poca, minha primeira pea estava sendo produzida. Era um pequeno grupo local, mas haviam conseguido fechar um contrato com um importante teatro. Meu pai 
 um escritor importante, por isso o trabalho do filho dele despertou um certo interesse nas pessoas.
- Um interesse que acabou se transformando em admirao, diante de seu talento - salientou Cybil.
Preston olhou para ela, agradecido pelo elogio.
- Sim, talvez tenha razo. Mas no incio no foi assim. Para mim, era uma questo de honra ter meu talento reconhecido pelo que ele era, e no por eu ter o sobrenome 
de meu pai. Reconheo que parte disso era orgulho - acrescentou, pensativo. - Mas parte tambm era o desejo de ser respeitado. Aquela primeira pea era muito importante 
para mim.
O fato de Preston ficar algum tempo em silncio levou Cybil a querer se manifestar de alguma maneira, demonstrando sua solidariedade.
- No consegui dormir nem um pouco na noite anterior  estria dos meus quadrinhos no jornal - disse a ele. - Por mais que eu adorasse meu trabalho, no teria suportado 
se as pessoas comeassem a insinuar que eu estava usando o sobrenome de meu pai para obter prestgio.
- Algumas pessoas sempre diro isso - salientou Preston. - Mas voc no pode se deixar influenciar por esse tipo de opinio. O trabalho tem de ser o mais importante 
e aquela primeira pea era o mais importante para mim. Eu me envolvi em absolutamente todos os aspectos: os cenrios, a montagem do palco, o elenco, os ensaios, 
a iluminao... Tudo.
Cybil sorriu.
- Imagino que deva ter deixado todo mundo maluco, inclusive voc mesmo.
Preston tambm sorriu.
- Pode acreditar que sim. Os atores eram muito talentosos. A atriz que desempenhou o papel principal era, com certeza, a mulher mais linda que eu j tinha visto. 
Ela me deixou fascinado. - Olhando diretamente para Cybil, ele prosseguiu: - Eu havia acabado de completar vinte e cinco anos e fiquei completamente apaixonado por 
ela. Cada minuto que eu passava ao lado dela era um presente para mim. V-la no palco, encenando o texto que eu havia escrito, deixava-me encantado a cada apresentao. 
Durante os ensaios, aps uma determinada seqncia, ela costumava sorrir para mim e perguntar se era mesmo daquela maneira que eu havia imaginado a cena. Quanto 
mais eu me envolvia com ela, menos a pea foi tendo importncia para mim.
Preston suspirou. Mesmo depois de tanto tempo, lembrar-se daquilo ainda tinha um efeito esquisito sobre ele.
- Ela era gentil - continuou. - E muito envolvente. Chegava a ser at um pouco tmida quando estava no palco. Eu inventava desculpas para ficar com ela e logo comecei 
a perceber que ela estava fazendo o mesmo para ficar comigo. Ns nos tornamos amantes em uma tarde de domingo, na cama dela. Naquele mesmo dia, ela chorou no meu 
ombro e disse que me amava. Naquele momento, eu teria sido capaz de morrer por ela se fosse preciso.
Cybil uniu as mos sobre o colo, imaginando como seria ser amada pelo menos um pouquinho por um homem maravilhoso como Preston. No falou nada porque percebeu que 
ele ainda tinha coisas para contar. Pelo visto, coisas dolorosas.
- Durante semanas, meu mundo girou em torno dela. A pea estreou, recebeu timas crticas, mas tudo que eu conseguia pensar era que fora por causa da pea que eu 
a havia conhecido. Isso era tudo que importava para mim.
- O amor deveria importar mais.
- Deveria? - Preston riu, mostrando um brilho de ironia no olhar. - As palavras tm fora, Cybil. Por isso  que um escritor deve tomar cuidado com elas.

O amor tambm tem fora, pensou ela. Queria dizer isso a ele, e quase o fez, mas logo percebeu que o amor que ele sentira acabara enfraquecendo por algum motivo.
- Comprei presentes para ela - Preston prosseguiu. - Gostava de ver o brilho de felicidade nos olhos dela sempre que ganhava um presente. E tambm a levava para 
danar porque ela adorava ir a festas e manter contato com as pessoas. Ela era to linda que eu achava que ela merecia ser mostrada de alguma maneira. E que precisava 
de roupas e de jias adequadas para isso. Ento, por que no presente-la com elas? E quando ela precisava comprar alguma coisa, que mal havia em dar um cheque em 
branco a ela? Afinal, aquilo era s dinheiro, e o que eu tinha para gastar era mais do que suficiente.
Deduzindo o desfecho da histria, Cybil conteve a vontade de abra-lo e consol-lo. No entanto, no era tristeza aquilo que surgira nos olhos dele. Era rancor.
- Ela tinha talento e eu queria ajud-la a se tornar uma atriz famosa. Ento, pensava eu, por que no usar minha influncia, ou a do sobrenome da minha famlia, 
para alavancar a carreira dela?
- Voc a amava - Cybil se justificou por ele. - E isso deve ter tornado a deciso de utilizar o sobrenome da famlia para benefici-la justa aos seus olhos.
- E voc acha que isso tornou as coisas mais corretas? - Preston balanou a cabea negativamente. - Nunca  certo se aproveitar das outraspessoas ou do sobrenome 
delas. Mas foi o que eu fiz. Ela comeou a falar de casamento, com timidez ainda. Eu hesitei a princpio. A carreira dela ainda precisava de ateno e poderamos 
esperar mais algum tempo para nos unirmos em um compromisso mais srio. Certa noite, depois de uma apresentao, eu disse isso a ela. Falei tambm que iramos para 
Nova York e que lutaramos juntos para ter nosso prprio teatro.
Cybil continuou a ouvi-lo, sem dizer nada.
- At que um dia ela me procurou toda trmula, plida e chorando muito, para contar que estava grvida. Disse que a culpa fora toda dela, por no haver tomado as 
devidas precaues, e implorou para que eu no a abandonasse. Para onde ela iria? O que faria? Tinha pouco dinheiro, estava com medo e achava que eu iria odi-la 
pelo que havia acontecido.
- No - Cybil sussurrou. - Claro que voc no iria odi-la.
- No, claro que no. Na verdade, fiquei um pouco assustado, mas no pensei em abandon-la em nenhum momento. Enfim, pensei em me casar com ela, em comearmos uma 
vida a dois. Dinheiro no era problema. Eu havia herdado uma parte da minha herana aos vinte e cinco anos e herdaria outra parte ao completar trinta. Dinheiro no 
era problema - repetiu ele, colocando outro pedao de lenha na lareira, em um gesto automtico.
Em silncio, Cybil acompanhava cada um de seus movimentos. Devia estar sendo muito difcil para uma pessoa reservada como Preston confessar tudo aquilo.
- Eu a consolei e disse que tudo terminaria bem. Falei que iramos nos casar em breve, que ficaramos em Newport at o beb nascer, e que depois nos mudaramos para 
Nova York, como havamos planejado. Tivemos uma despedida comovente, antes de ela partir para o pequeno apartamento onde morava, dizendo que iria telefonar para 
a famlia e contar a maravilhosa novidade. Combinamos que iramos  casa dos meus pais depois da apresentao daquela noite, para dar a notcia a eles. Comecei a 
fazer planos de imediato, j me vendo como marido e como pai.
- Voc queria aquela criana - afirmou Cybil, lembrando-se da facilidade com que ele havia segurado Charlie no colo.
- Sim. - Preston se voltou para ela, mantendo-se de costas para a lareira. - Enquanto eu ainda estava envolto por aquela atmosfera de mudana, minha irm bateu  
minha porta. Como Pamela, ela tambm estava trmula, plida e chorando. E como Pamela, tambm estava grvida, s que em um estgio um pouco mais avanado. Por isso 
fiquei preocupado ao v-la naquele estado. Depois de chorar muito, finalmente ela conseguiu me contar que o marido dela estava tendo um caso.
Cybil se surpreendeu com o tom frio que Preston passou a demonstrar.
- Ela me disse que, depois de deixar Jacob com minha me, havia voltado para casa porque esquecera alguma coisa. Havia sido acertado que ela e o beb ficariam fora 
durante a maior parte do dia, por isso seu retorno no era nem um pouco esperado. Do mesmo modo, ela tambm no esperava chegar em casa e encontrar o marido com 
outra mulher em sua prpria cama.
- Oh, Preston, que situao horrvel. - Cybil se levantou, querendo confort-lo de alguma maneira. - Ela deve ter... - Ela comeou a falar, mas logo se interrompeu, 
ao se lembrar da pea mais famosa de Preston e de como a trama se desenvolvia. - Oh, no. Ah, meu Deus...
Ele se afastou, parecendo no querer receber consolo.
- O nome dela era Leanna em Rede de Almas, mas aquela era Pamela. Linda, inteligente e friamente calculista. Uma mulher que conseguia representar com perfeio sem 
nenhum ensaio. Que conseguia enganar um homem sem que ele notasse, tirando-lhe todo o dinheiro e conquistando fama no meio artstico. Ela teria se casado comigo 
por esses motivos e para dar um sobrenome de prestgio ao filho que o meu melhor amigo e marido da minha irm havia feito nela.
- Mas voc a amava, Preston. E ela o magoou. Alis, magoou todos vocs.
- Sim, eu a amava, mas aprendi a lio. No se pode confiar no corao. Minha irm confiou no dela e isso quase a arrasou. Se no fosse Jacob e o beb que ela estava 
esperando, acho que ela teria enlouquecido. Mas as crianas precisavam dela, e foi isso que a manteve de p.
- S que voc no teve esse tipo de consolo.

- Eu tinha meu trabalho. Mas tive de enfrentar o desprazer de encarar a mulher que havia arrasado nossas vidas. Ela chorou, jurou que aquilo era mentira e que tudo 
no passara de um grande engano. Implorou para que eu acreditasse nela e, para ser sincero, quase cheguei a acreditar. Ela representava muito bem.
- Voc estava apaixonado, Preston - salientou Cybil. - Era natural que acreditasse nela.
- De qualquer maneira, acabei vendo Pamela como ela realmente era: uma mulher ambiciosa, capaz de fazer qualquer coisa para conseguir aquilo que queria. Apesar de 
tudo, ela terminou a temporada de apresentaes. - Preston sorriu com ironia. - Afinal, o show sempre deve continuar.
- E como voc suportou tudo isso?
- Ela era competente como atriz, e foi apenas uma questo de lembrar a mim mesmo que o trabalho era mais importante do que ela ou do que qualquer outra coisa. - 
Ele arqueou uma sobrancelha. - Acha que foi uma atitude fria de minha parte?
- No. - Cybil pousou as mos sobre os ombros dele. - Acho que foi uma atitude corajosa. - Fechou os olhos por um instante, quando ele finalmente aceitou seu abrao. 
- Ela no merecia ter algum como voc, Preston.
- Agora ela  apenas uma personagem interessante em uma pea de teatro. - Enxugando uma lgrima que escorreu pelo rosto de Cybil, ele disse: - No chore. Eu no 
lhe contei isso para v-la chorar, mas apenas para ajud-la a me compreender melhor.

- Eu o compreendo, Preston. Mas, mesmo assim, no posso deixar de lamentar o que lhe aconteceu.
- Cybil. - Ele a trouxe mais para perto. - Se continuar expondo seu corao desse jeito, algum pode acabar arrasando-o.
Ela fechou os olhos, sem coragem de dizer a ele que isso j havia acontecido.


CAPTULO X
Chegara a hora de ter uma boa conversa com Preston McQuinn, pensou Daniel. Mas no seria nada dificil. Tudo que teria de fazer seria lev-lo at seu escritrio, 
enquanto Cybil estivesse ocupada com Anna em algum outro aposento da casa. Quanto a Matthew... Bem, com ele no haveria problema, j que o rapaz passava a maior 
parte do tempo procurando inspirao para montar seus brinquedos de metal. As esculturas de Matthew sempre o deixavam surpreso e orgulhoso ao mesmo tempo. No podia 
negar que o rapaz era talentoso, embora criasse coisas esquisitas.
- Sente-se, meu rapaz. E aproveite para esticar um pouco as pernas. - Dizendo isso, caminhou at a estante de onde tirou um exemplar de Guerra e Paz. - Aceita um? 
- perguntou ele, abrindo o livro e revelando se tratar de uma caixa de charutos.
Preston arqueou uma sobrancelha.
- No, obrigado. Literatura interessante, sr. MacGregor.
- Bem, um homem deve saber o que fazer para no ser aborrecido pela esposa.
Daniel passou o charuto sob o nariz, apreciando seu aroma, e suspirou alto ao sentar-se, antecipando o prazer que teria em fum-lo. Com calma, destrancou uma das 
gavetas de sua mesa e tirou dela uma concha que, pelo visto, era usada regularmente como cinzeiro. Em seguida, tambm tirou da gaveta um pequeno ventilador movido 
a pilha. Sem dvida, seu mais novo artifcio para evitar que a esposa sentisse o cheiro do charuto.
- Anna no quer que eu fume - declarou ele, balanando a cabea. - E quanto mais velha ela est ficando, mais apurado est ficando tambm seu nariz. s vezes, mais 
parece o de um co de caa - resmungou, encostando-se na cadeira.
- E se ela aparecer? - indagou Preston, ao notar que ele pretendia mesmo acender o charuto.
- Vamos nos preocupar com isso se e quando acontecer, meu rapaz.
Apesar da aparente despreocupao, Preston no deixou de notar que o velho Daniel manteve o pequeno ventilador bem junto de si.
- Muito bem, sua nova pea est fazendo sucesso? - Sim, est.
- Quero que saiba que estou lhe perguntando isso porque quero saber mais detalhes a seu respeito.
- Hum-hum - anuiu Preston, sem querer se arriscar a oferecer respostas mais elaboradas.
- Admiro o trabalho de seu pai. Tenho alguns livros dele na minha estante. - Daniel se ajeitou melhor na cadeira, dando uma baforada no charuto. - Algum me contou 
que Hollywood est bastante interessada em seu trabalho.
- Tem informantes muito bons, sr. MacGregor.
Daniel sorriu.
- Fao o possvel para me manter sempre bem informado. Ento, como vai indo esse negcio com o cinema?
- Bem.
- Prefere manter a discrio, no  mesmo? Gosto disso. - Daniel bateu o charuto levemente sobre a concha, antes de prosseguir: - Vai ficar em Nova York por mais 
algumas semanas?
- Por mais um ms, provavelmente. A essa altura, a maior parte da reforma da casa j dever ter acabado.
- Uma belssima casa com vista para o mar, no? - Daniel sorriu ao ver Preston estreitar o olhar. - Algum me disse todas essas coisas. E bom para um homem ter uma 
casa prpria. Alguns de ns simplesmente no conseguem viver em prdios, dividindo as predes da prpria casa com as de outras pessoas. E bom ter espao para a famlia. 
Um lugar suficientemente grande para que seja possvel se fumar charuto sem ter de ouvir um sermo durante horas seguidas.
Preston pressionou os lbios, disfarando o riso, enquanto Daniel dava outra baforada no charuto.
- Tem razo - concordou Preston. - De qualquer maneira, tenho noo de que, em questo de tamanho, minha casa no chega nem aos ps da sua.
- Voc ainda  muito jovem. Ir aumentando a casa conforme for ficando mais velho, pode acreditar. Tambm vai precisar da atmosfera do mar, como eu precisei, e ainda 
preciso, para me manter em forma.
- Prefiro o mar  cidade - confessou Preston. Sem saber ao certo onde aquela conversa iria dar, no estava conseguindo se sentir muito relaxado. - Se eu tivesse 
de viver por muito tempo em um centro urbano, acho que acabaria ficando maluco.
Daniel riu, olhando para Preston atravs da fumaa do charuto.
- Voc  um homem que precisa de privacidade. Mas quando essa necessidade se transforma em isolamento, ela deixa de ser saudvel, no  mesmo?
Preston inclinou ligeiramente a cabea.
- Desculpe-me, mas no estou vendo vizinhos entrando e saindo de sua casa, sr. MacGregor.
Um sorriso curvou os lbios de Daniel.
- Tem razo. Porm, por mais que tenhamos privacidade, no estamos isolados. Cybil tambm foi criada  beira-mar. - Daniel moveu o charuto entre os dentes. - Mais 
especificamente em uma casa no litoral de Maine, onde o pai dela guardava sua privacidade como um pit bull.
- Foi o que ouvi dizer - anuiu Preston.
- O pai dela  um bom homem. E no poderia ser diferente, j que se trata de um Campbell. - Daniel tamborilou os dedos sobre o brao da cadeira. - E a esposa dele 
 uma verdadeira dama, vinda de uma famlia tradicional. Os dois se orgulham muito dos filhos.
- Bem, eles devem ter motivo para isso.
- Claro que tm - afirmou Daniel, com seu costumeiro tom incisivo. - Viu por si mesmo, no? Minha Cybil  uma jovem brilhante e adorvel. Tem um corao enorme e 
 estimada por todos. Ela tem uma espcie de aura luminosa, voc no acha?
- Eu a considero nica.        -
- E ela  mesmo. Cybil  a sinceridade em pessoa - continuou Daniel, observando com ateno cada uma das reaes de Preston. - Com mais freqncia do que voc imagina, 
ela deixa de considerar os prprios sentimentos para dar importncia aos sentimentos dos outros. No que ela viva servindo de capacho por a, no com aquele sangue 
escocs correndo nas veias. Ela revida quando  provocada, mas geralmente prefere se magoar a ter de magoar outra pessoa. E confesso que isso me deixa um pouco preocupado.
Embora no estivesse ouvindo nada que j no houvesse presenciado, as palavras de Daniel causaram uma certa inquietao em Preston.
- No creio que deva se preocupar com Cybil, sr. MacGregor.
- Preocupar-se com os netos  um direito, um dever e... por que no? Um prazer, para algum com uma famlia to grande quanto a minha. Sinto que Cybil quer ter um 
lar, para pr em prtica todo o amor que traz guardado dentro de si. E o homem que conquistar aquele coraozinho tirar a sorte grande.
- Sim, tem razo.
- Notei o modo como voc a olha, meu rapaz. - Daniel se inclinou para frente. - E no foi preciso que algum me dissesse isso.
Preston se tornou mais do que cauteloso.
- Como o senhor mesmo j disse, Cybil  uma mulher adorvel.

- E voc  um homem solteiro com trinta anos de idade. Quais so suas intenes?
Ora, ora, aquela conversa estava ficando realmente sria, pensou Preston.
- No tenho nenhuma inteno.
- Ento est na hora de comear a ter. - Batendo o punho cerrado sobre a mesa, Daniel acrescentou: - No  cego ou idiota, ?
- No, claro que no.
- Ento o que est esperando, meu rapaz? A garota  exatamente o que voc precisa para animar um pouco essa sua natureza sria, para evitar que voc se feche em 
uma caverna, feito um urso com indigesto. - Estreitando o olhar, Daniel tirou o charuto da boca e o segurou entre os dedos. - E se eu no soubesse que voc  a 
pessoa certa para ela, no estaria aqui, nesse momento, tendo esta conversa com voc. Pode acreditar.
Furioso por sentir-se encurralado, Preston ficou de p.
- O senhor praticamente me atirou  porta dela, utilizando-se da desculpa de me fazer um favor.
- Eu lhe fiz o melhor favor de sua vida, rapaz, e voc deveria estar me agradecendo por isso, em vez de ficar me olhando com esse ar indignado.
- No sei como o resto da famlia lida com essa sua atitude de se meter na vida das pessoas, sr. MacGregor. De minha parte, posso dizer que no gosto e nem preciso 
disso.
- Se acha que no precisa da interveno de algum, por que continua lamentando algo que j terminou h muito tempo, ou mesmo que nunca existiu? Por que se negar 
a aceitar aquilo que est bem diante de seus olhos?
O olhar de Preston se tornou frio.
- Isso  problema meu.
- E seu defeito - replicou Daniel, satisfeito ao ver que seu comentrio o afetara de alguma maneira. - J vivi mais de noventa anos neste mundo, tendo a chance de 
observar as pessoas e a maneira como elas se comportam. E vou lhe dizer uma coisa, Preston McQuinn, algo que voc ainda no notou por si mesmo, talvez por ser muito 
jovem ou muito teimoso: vocs dois combinam. Um equilibra o outro.
- O senhor est enganado.
- Ah, essa  boa! - ironizou Daniel. - Cybil no o teria deixado freqentar a casa dela se no estivesse apaixonada. E voc no teria aceitado vir at aqui, se tambm 
no estivesse apaixonado por ela.
Daniel se recostou novamente na cadeira, satisfeito ao notar que Preston empalidecera. O amor, para alguns, era mesmo algo assustador.
- O senhor entendeu mal - insistiu Preston, tentando manter a calma mesmo sentindo uma sensao de aperto no estmago. - O que existe entre mim e Cybil no tem nada 
a ver com amor. E se eu a magoar... Quando eu a magoar - ele corrigiu -, parte da culpa ser sua.
Dizendo isso, saiu com passos firmes. Daniel continuou fumando seu charuto. Magoar-se era algo que fazia parte do amor, pensou consigo. Ainda da assim, no pde 
deixar de lamentar o fato de que sua preciosa menina sofreria um pouco ao longo do caminho. E sim, sabia que em parte a culpa era sua. Mas quando o rapaz parasse 
de teimar feito uma mula e a fizesse feliz... Ora, quem mais receberia o crdito por isso a no ser o astuto Daniel MacGregor?
Sorrindo, terminou de fumar o charuto enquanto repassava seus planos com a calma que somente um homem suficientemente vivido e sbio conseguia ter.

Cybil lamentou que a viagem at Hyannis houvesse deixado Preston de mau humor. Algo que, segundo vinha notando, ainda no havia mudado mesmo depois de eles haverem 
retornado para Nova York havia uma semana.
Preston era uma pessoa dificil. E ela aceitava isso. Agora que sabia tudo pelo que ele havia passado, e tudo que haviam feito a ele, no conseguia ver muita possibilidade 
de ele agir de modo diferente.
Para um homem com tanta sensibilidade, seria preciso um longo tempo at que fosse possvel ele voltar a confiar em algum. E talvez mais tempo ainda para se permitir 
sentir algo mais profundo por algum.
Mas ela poderia esperar. Por mais que isso doesse. No conseguia deixar de lamentar quando ele a deixava e partia de maneira sbita, ou quando ele se isolava, usando 
o trabalho como desculpa. Ultimamente, Preston tambm havia adquirido o estranho hbito de tocar sax em horrios inusitados, como se aquilo fosse uma espcie de 
desabafo que precisava ser posto para fora no exato momento em que algo o afligia.


Cybil tentou se convencer de que o trabalho devia estar causando problemas para ele, embora Preston nunca mais houvesse falado a respeito dele com ela. Talvez ele 
imaginasse que ela no fosse capaz de compreender toda a angstia que envolvia o ato da criao artstica. Embora isso a magoasse, convenceu-se de que seria melhor 
aceitar a opo e o silncio de Preston. Sempre havia conseguido mentir melhor para si mesma do que para os outros.
Seu prprio trabalho havia tomado um novo rumo e estava exigindo mais tempo e energia de sua parte. A reunio que ela havia tido antes de partir para Hyannis havia 
sido importantssima, mas ela no a mencionara para ningum. Talvez fosse um pouco de superstio de sua parte, concluiu ela, descendo do txi diante de seu prdio, 
mas era assim que ela preferia agir. No quisera contar nada a ningum antes de ter certeza de que o negcio seria fechado. Mas agora tinha certeza.
Levando a mo ao peito, sentiu as batidas fortes de seu corao. Ento ouviu seu prprio riso. Sim,agora tinha muita certeza, e mal podia esperar para contar para 
todo mundo.
Talvez at oferecesse uma festa para comemorar. Uma festa animada, com muita msica e risos. Ah, e tambm com champanhe, bales coloridos e caviar.
Como que j entrando no esprito da festa, subiu os degraus que levavam  entrada meio que danando. Precisava ligar para seus pais, para o restante tante da famlia 
e tambm teria de contar a Jody, para que as duas pudessem trocar um daqueles grandes abraos cheios de entusiasmo.
Mas primeiro, teria de contar a Preston.
Respirando fundo, bateu com animao  porta do apartamento dele. Sabia que ele estava trabalhando, mas isso era algo que no poderia esperar. Ele iria entender. 
Eles tinham de comemorar. Tomar champanhe no meio da tarde at ficarem zonzos e depois fazer amor loucamente.
Quando a porta se abriu, um sorriso radiante iluminava o rosto dela.
- Ol! Acabei de voltar de uma reunio e voc no vai acreditar no que aconteceu.
Preston estava com a roupa amassada e a barba crescida. Lamentou o fato de que um simples olhar para Cybil pudesse faz-lo esquecer completamente de sua pea.
- Estou trabalhando, Cybil.
- Eu sei. Sinto muito, mas  que acho que vou explodir se no contar a algum. - Segurou o rosto dele entre as mos. - De qualquer maneira, parece estar mesmo precisando 
de um descanso.
- Estou no meio da elaborao de uma cena importante... - Ele comeou, mas Cybil continuou a falar.
- Aposto que ainda no almoou. Por que no comemos sanduches enquanto eu...
- Eu no quero nenhum sanduche. - Preston notou que o tom de sua voz se alterara, mas no se importou com isso. - No tenho tempo para comer agora. Quero trabalhar.
- Mas voc precisa se alimentar. - Abrindo a geladeira, Cybil comeou a procurar algo que pudesse preparar para eles. Ento ouviu Preston subindo a escada. 
- Oh, droga.- resmungou com um suspiro desanimado e foi atrs dele.
- Tudo bem, vamos esquecer o sanduche. Preciso apenas lhe contar como foi meu dia. Pelo amor de Deus, Preston, este escritrio est escuro feito uma tumba.
Instintivamente, ela foi at a janela, com a inteno de afastar as cortinas.
- Mas que droga, Cybil! Deixe as coisas como esto!
Ela parou de repente, soltando a cortina devagar. Notou que Preston j havia sentado novamente diante do computador, voltando a se isolar do resto do mundo. Iluminado 
apenas pela lmpada sobre a mesa e com uma xcara de caf deixada de lado, Preston continuou a trabalhar, mantendo-se de costas para ela.
Naquele momento, nada do que ela dissesse importaria para ele.
- Para voc,  to fcil me ignorar, no? - protestou Cybil, magoada.
Preston manteve a mesma postura, recusandose a se sentir culpado.
- No  fcil. Mas, no momento, isso  necessrio.
- Claro, voc est trabalhando, e  mesmo muita ousadia de minha parte interromper um gnio criador, no  mesmo? Algum cujo trabalho grandioso eu simplesmente 
no tenho condies de entender.
Irritado, Preston se virou para ela.
- Voc consegue trabalhar com pessoas fazendo algazarra  sua volta, eu no.
- No se trata disso - continuou Cybil, no mesmo tom indignado. - Voc tambm j me ignorou em outras situaes que no diziam respeito a trabalho.
Preston empurrou o teclado para o lado.
- No quero discutir com voc, Cybil.
- Sim, claro. Tudo depende do seu estado de humor: se quer ficar comigo ou sozinho, se quer conversar ou ficar quieto, ou se quer me tocar ou me mandar embora.
A voz de Cybil revelou um tom definitivo que deixou Preston apreensivo por um instante.
- Se isso no a estava agradando, deveria ter dito antes.
- Voc tem razo. Est absolutamente certo. Pois agora isso no est me agradando, Preston. No gosto de ser tratada como se eu fosse uma pessoa inconveniente,  
qual voc s d ateno quando isso o interessa. No me agrada ver assuntos que so to importantes para mim sendo considerados como coisas menores diante da "grandiosidade" 
do seu trabalho.
- Cybil, pelo amor de Deus. Voc quer mesmo que eu pare de trabalhar para ouvi-la falar como foi seu dia de compras enquanto comemos sanduches?
Ela abriu a boca, mas fechou-a em seguida. No sem antes emitir um breve som de mgoa.
- Desculpe-me. - Furioso consigo mesmo, Preston ficou de p. Cybil continuou olhando-o como se houvesse levado uma bofetada. 
- Estou tendo de me esforar para conseguir terminar esse roteiro e estou impaciente por isso. - Passou a mo pelos cabelos ao notar que ela no tivera nenhuma reao. 
- Vamos l para baixo.

- No, eu preciso ir. - Cybil decidiu ir embora, antes que acabasse passando pela situao ridcula de chorar na frente dele. 
- Preciso dar alguns telefonemas, e estou com dor de cabea - acrescentou, massageando a tmpora. 
- Acho que preciso de uma aspirina.
Ela fez meno de sair, mas parou ao sentir a mo de Preston em seu brao. Foi ento que ele notou quanto ela estava trmula.
- Cybil, eu...
- No estou me sentindo bem, Preston. Vou para casa me deitar um pouco.
Desvencilhando-se dele, ela se encaminhou para a porta. Preston se encolheu ao ouvi-la bater.
- Seu idiota - ralhou consigo mesmo.
Aborrecido, perambulou pelo aposento mantendo as mos nos bolsos. Por fim, aproximou-se da janela e afastou as cortinas.
O sol intenso o fez estreitar o olhar. Talvez ele estivesse mesmo muito isolado do que se encontrava do outro lado daquela janela, pensou. Mas trabalhava melhor 
assim, sem ter de dar explicaes sobre seus hbitos de trabalho para ningum.
Ainda assim, no precisava ter magoado Cybil daquela maneira. O problema fora ela haver aparecido feito por um furaco, e no pior momento possvel. Ele estava em 
meio a um momento de intensa concentrao, com as falas e as atitudes das personagens fervilhando em sua mente.
No havia dispensado ou ignorado Cybil. Como diabos seria possvel ignorar algum que ocupava a maior parte de seus pensamentos ao longo do dia?

Contudo, era isso que vinha tentando fazer, no era? Ignor-la. E deliberadamente, desde aquela conversa com Daniel MacGregor, em Hyannis. No ntimo, sabia que o 
velho estava certo, por mais que detestasse ter de admitir isso. Sim, estava apaixonado por Cybil. Mas se continuasse tentando negar o sentimento, mantendo-o o mais 
de longe possvel de seus pensamentos, talvez ele desaparecesse por si s.
No queria se arriscar no amor novamente, no depois de saber com tanta preciso o que aquele sentimento era capaz de fazer a uma alma e a um corao. No iria se 
permitir ficar vulnervel mais uma vez. No poderia.
Fechou as cortinas com um gesto sbito, dizendo a si mesmo que iria superar aquilo. Logo as coisas voltariam a se equilibrar e ambos ficariam mais felizes.
De qualquer maneira, teria de encontrar um modo de se desculpar pela atitude que havia tomado nos ltimos dias. Cybil no fizera nada para merecer aquilo. Desde 
que o conhecera, ela no havia feito outra coisa a no ser se doar inteiramente. E ele no fizera outra coisa a no ser aceitar isso.
Ciente de que no conseguiria mais trabalhar, desceu para o andar de baixo. Pensou em bater  porta do apartamento dela e se desculpar, mas, provavelmente, nesse 
momento era Cybil quem devia estar querendo ficar sozinha. Ento daria algum tempo para ela, enquanto saa para uma caminhada.
No havia pensado em comprar flores para ela at passar diante de uma grande floricultura. No levaria rosas, elas eram muito formais. Margaridas tambm no cairiam 
bem para a ocasio. Embora fossem alegres, eram muito comuns. Ento, decidiu-se por um belo vaso amarelo com tulipas vermelhas.
Havia sido muito rude com Cybil, mas mudaria aquela situao desagradvel. Ofereceria a ela tanto quanto ela lhe oferecera, at que ambos ficassem em p de igualdade. 
Assim, quando chegasse o momento da despedida, e ele chegaria, ainda restaria a chance de eles se tornarem amigos. Por outro lado, j no conseguia imaginar sua 
vida sem Cybil fazendo parte dela.
Passou o resto daquela tarde fora. Quando voltou para casa, no incio da noite, no se sentiu tolo por estar trazendo flores. Sentiu-se aliviado. E quando Cybil 
abriu a porta, sentiu que aquele era o momento certo para ele estar ali, daquela maneira.
- Conseguiu descansar um pouco?
- Sim, obrigada.
- Posso lhe fazer companhia?
Dizendo isso, Preston mostrou as flores a ela. Ao v-las, Cybil no conseguiu disfarar a surpresa.
- Gosta de tulipas? - perguntou ele.
- Ah... Sim, claro. So lindas - respondeu ela, aceitando o vaso e levando-o at a mesa.
- Sinto muito sobre o que aconteceu essa tarde - Preston se desculpou.
- Oh.
 Ento as flores eram um pedido de desculpas, concluiu Cybil. Deixando de lado a vaga sensao de desapontamento, virou-se para ele com um meio sorriso.
- No tem importncia.  isso o que acontece quando se perturba um urso em sua caverna.
- Importa sim - insistiu ele. - E eu realmente sinto muito.
- Tudo bem.
- S isso? Muitas mulheres fariam um homem se ajoelhar em uma situao como essa.
- No sou do tipo que gosta de humilhar os homens. Portanto, considere-se um homem de sorte.
Preston levou a mo dela aos lbios e beijou-lhe a palma com delicadeza.
- Sim, sou um homem de sorte.
Pela segunda vez, viu um brilho de surpresa nos olhos dela. Nunca havia sido verdadeiramente terno com ela, concluiu ele, indignado com a prpria tolice. Nunca havia 
oferecido a Cybil um pouco mais de romance.
- Pensei em convid-la para jantar, se voc estiver se sentindo melhor, claro.
Cybil pestanejou, cada vez mais surpresa. 
- Jantar fora?
- Sim, se voc quiser. Mas, se preferir, poderemos ter um jantar mais calmo aqui mesmo - acrescentou, aproximando-se dela. - Voc  quem decide.
Segurando o rosto de Cybil entre as mos, roou os lbios junto  testa dela.
- Quem  voc? E o que est fazendo no corpo de Preston?
Ele comeou a rir e beijou-lhe uma face, depois a outra.
- Diga-me o que voc quer, Cybil.
"Apenas receber seu carinho, assim", respondeu ela, em pensamento.
Eu vou preparar alguma coisa para comermos aqui mesmo.
- Se prefere ficar, ento eu vou providenciar alguma coisa.
- Voc? - Ela riu. - Voc?! Tudo bem, j entendi. Vou chamar os bombeiros porque, com certeza, estaremos correndo risco de vida.
Preston abraou-a com fora e riu.
- Eu no disse que vou cozinhar. Vou apenas pedir alguma coisa para ns.
- Oh, bem. Sendo assim...
Cybil no conteve um suspiro. Era maravilhoso se ver envolta mais uma vez por aqueles braos fortes.
- Voc est tensa - observou ele, deslizando as mos pelos braos dela para tentar faz-la relaxar. - A dor de cabea ainda a est incomodando?
- No muito.
- Bem, por que no sobe e toma um banho relaxante na banheira? Depois poder vestir uma daquelas camisetas grandes e confortveis, que voc tanto gosta, e ento 
poderemos jantar.
- Eu estou bem. Posso...
Cybil se interrompeu quando os lbios de Preston capturaram os seus em um beijo deliciosamente inesperado. Um beijo carinhoso e sensual que a deixou com as pernas 
trmulas.
- Agora suba - mandou ele, sorrindo quando ela o olhou com ar confuso. - Eu cuidarei de tudo.
- Tudo bem. Acho que ainda estou mesmo um pouco zonza. - Isso explicaria por que ela no estava nem conseguindo subir direito os degraus da escada de seu prprio 
apartamento. - O nmero... Ah, o nmero do telefone da pizzaria est sobre a mesinha...
- Pode deixar que eu cuidarei de tudo por aqui - ele repetiu, fazendo um gesto para que ela subisse. 
- Relaxe, sim?
- Est bem. - Cybil subiu alguns degraus, mas logo parou e olhou para ele. - Preston? - Sim?
- Voc... - Ela sorriu e balanou a cabea. - Nada. Prometo que no vou demorar.
- Demore o tempo que quiser - respondeu ele.
De fato, levaria algum tempo para fazer com que tudo estivesse perfeito quando ela voltasse. Se aquela pequena demonstrao de romantismo a deixara surpresa, com 
certeza Cybil ficaria sem palavras quando visse a noite que ele havia planejado para os dois.
Ao pegar o telefone, procurou em qual das teclas de memria estava registrado o nmero da melhor amiga de Cybil.
- Jody? Oi, aqui  Preston McQuinn. Sim, tudo bem. Voc sabe se Cybil tem preferncia por algum restaurante aqui por perto? No. - Ele riu. - Nada de fast food. 
Vamos sofisticar um pouco o cardpio, sim? Que tal um restaurante francs ou algo do gnero?
Preston no conseguiu deixar de rir ao ouvir o longo "Oh" da amiga de Cybil, do outro lado da linha. Ento anotou o nmero de telefone do restaurante que ela lhe 
passou.
- Agora vamos ver se voc consegue me fazer o grande favor final - disse a ela, ainda sorrindo.
- Qual das sobremesas servidas por esse restaurante a deixa maluca? Hum... timo, j anotei. Noite especial? - Ele riu, olhando para o teto. 
- No, nada especial. Apenas um jantar tranqilo. Muito obrigado pela dica, Jody.
Riu novamente quando Jody continuou a lhe fazer perguntas.
- Ei, ambos sabemos que ela vai lhe contar tudo isso manh.
Aps se despedir, ligou para o restaurante e fez os pedidos. Ento, puxou as mangas "metaforicamente", e partiu para o trabalho.


CAPTULO XI
Cybil seguiu o conselho de Preston e demorou um bom tempo relaxando na banheira. Precisava daquele tempo para se acostumar quela nova atitude dele. Ou seria aquilo, 
ponderou ela, apenas um lado de sua personalidade que ele ainda no havia tido oportunidade de demonstrar?
Como poderia imaginar que Preston tinha um lado to romntico? E como poderia prever que o fato de ele lhe demonstrar isso dificultaria ainda mais o controle de 
seus prprios sentimentos?
Amava-o de qualquer maneira, sob qualquer circunstncia. Mas no havia mulher que resistisse a todas aquelas demonstraes de gentileza e romantismo. Deus, at onde 
seu amor iria chegar? Seria possvel conseguir am-lo ainda mais? Difcil. Mas no impossvel.
Tinha noo de que Preston estava fazendo aquilo para se desculpar, por hav-la magoado. Na verdade, ele no tinha idia do que realmente havia feito a ela. Contudo, 
o mais importante, pelo menos para ela, era o fato de ele querer se desculpar de alguma maneira. Como poderia ne- gar um pedido de desculpas vindo de Preston?
Uma noite tranqila, com um jantar ntimo e casual, seria perfeita para eles. Preston no gostava de multides e, no momento, ela prpria tambm no estava com disposio 
para ir a um lugar mais agitado. Por isso, comer pizza diante da tev lhe pareceu um bom programa. Ela e Preston teriam a chance de rir e de conversar sobre ame- 
nidades. Mais tarde, talvez at fizessem amor no sof enquanto um filme em preto-e-branco estivesse sendo exibido na sesso da madrugada. Finalmente as coisas voltariam 
a ser simples entre eles.
Sentindo-se mais calma e relaxada, vestiu um longo robede seda azul, escovou os cabelos e comeou a descer a escada. Foi ento que uma msica suave lhe chegou aos 
ouvidos. Um som envolvente e sedutor. No ficou surpresa. Afinal, Preston gostava daquele tipo de msica e at tocava aquele estilo com seu sax.
Porm, ao descer mais alguns degraus, viu o candelabro sobre a mesa com suas velas acesas. Preston estava ao lado da mesa, esperando-a com um sorriso charmoso. Havia 
trocado de roupa e estava trajando uma cala e uma camisa pretas, alm de haver feito a barba.
Ao v-la, ele lhe estendeu a mo. Cybil se aproximou devagar e pousou a mo sobre a dele, encantada com a maneira como a chamas das velas se refletiam sobre os cabelos 
e os olhos dele.
- Est se sentindo melhor?
- Sim, muito. O que est acontecendo aqui?
- Ns vamos jantar.
- Mas o cenrio est um pouco elaborado para... - Cybil se interrompeu quando Preston levantou-lhe a mo e roou os lbios sobre seus dedos, deixando-a sem flego 
por um instante. - Pizza - completou ela.
Preston sorriu.
- Gosto de olhar seu rosto  luz de velas - explicou. - Gosto do efeito das chamas no brilho de seus olhos. - Puxando-a delicadamente para si, beijou-a nos lbios. 
- E sobre sua pele. - Roou os lbios sobre a face dela. - Acho que esqueci de quanto voc  delicada e acabei indo longe demais em minha falta de considerao.
- O qu? - Cybil estava se sentindo ligeiramente zonza.
- Tenho sido descuidado com voc, Cybil. Mas no serei esta noite. - Dizendo isso, beijou a mo dela, provocando-lhe um arrepio. - Tenho algo para voc - falou ele, 
pegando uma pequena caixa com um lao cor-de-rosa que havia sido deixada sobre o balco.
Cybil levou as mos s costas, em um gesto instintivo.
- No quero nenhum presente, Preston. No preciso de presentes.
Ele franziu o cenho, surpreso com o tom defensivo na voz dela. Somente depois de alguns segundos, foi que se deu conta de que ela estavapensando em Pamela.
- No estou lhe oferecendo isso porque voc precise, ou porque tenha pedido - explicou a ela.
- Quero lhe dar isso porque me fez lembrar de voc. - Ele entregou a caixinha a ela. - Abra antes de se decidir. Por favor.
Sentindo-se meio infantil, Cybil pegou a caixinha e retirou o lao com cuidado.
- Bem, quem no gosta de presentes? - disse, com bom humor. - Alm do mais, voc esqueceu meu aniversrio.
- Esqueci?
Preston se mostrou to chocado que a fez rir.
- Sim, ele foi em janeiro, e o fato de que voc ainda no me conhecia no serve de desculpa para no ter me dado um presente. Ento este aqui...
Cybil se interrompeu de repente, olhando para o inusitado par de brincos repousados sobre o veludo da caixinha. Dois pingentes de hematita mostrando vrios peixinhos 
sobrepostos. Feito um pequeno cardume de sardinhas prontas para entrar na lata.
- Eles so ridculos. - Cybil riu, encantada. 
- Eu sei.
- Mas eu adorei.
- Eu sabia que voc ia gostar. - Preston sorriu, satisfeito.
Com um brilho de felicidade no olhar, ela segurou os pingentes junto s orelhas. 
- Que tal?
- Adorveis e inusitados, como voc.
Cybil enlaou os braos em torno do pescoo dele e o beijou com uma paixo que fez Preston sentir o sangue esquentar. Ento ouviu um soluo.
 - Ah, meu Deus. No, no faa isso.
- Sinto muito. - Cybil soluou novamente, escondendo o rosto junto ao pescoo dele. -  que flores, candelabros e peixinhos... Muita coisa de uma vez, entende? - 
Respirando fundo, tentou se acalmar e deu um passo atrs. - Muito bem, j passou - declarou, passando as mos pelo rosto, com ar decidido.
- Graas a Deus. - Preston passou o polegar pelo rosto dela, enxugando uma lgrima que insistira em surgir. - Pronta para o champanhe?
- Champanhe? Ora,  difcil no se estar pronto para tomar champanhe.
Cybil ficou olhando Preston ir at a cozinha e comear a abrir o champanhe deixado em um balde com gelo. O que dera nele afinal? Tinha de haver um motivo para todo 
aquele contentamento...
- J sei! - exclamou ela, de repente. - Voc terminou o roteiro! Oh, Preston, voc conseguiu terminar?
- No, no terminei.
A rolha do champanhe finalmente saltou e ele serviu a bebida.
- Oh. - Voltando a se sentir confusa, Cybil franziu o cenho. 
- Ento, o que estamos celebrando?
- Voc. - Preston tocou o copo no dela, em um brinde. - Apenas voc.
Ele pousou a mo sobre o rosto de Cybil, antes de levar seu prprio copo aos lbios dela.
Cybil provou a bebida, fechando os olhos por um instante para apreciar melhor aquele sabor todo especial. A maneira como Preston a estava fitando quando ela voltou 
a abrir os olhos deixou-a entontecida.
- No sei o que lhe dizer.
- No precisa dizer nada - respondeu ele. 
- Apenas aproveite a noite que preparei para voc. Cybil sentiu um arrepio de expectativa.
- Puxa, quais sero as surpresas que me aguardam? J estava me sentindo feliz demais com as que tive at agora.
- Eu ainda nem comecei... - Preston tirou o copo da mo dela e o deixou de lado, antes de envolv-la em seus braos. Roando os lbios nos dela ao ritmo da msica, 
ele sussurrou: - Nunca a tirei para danar.
- No. - Cybil fechou os olhos. - Nunca.
- Ento dance comigo, Cybil.
Como se aquele fosse o gesto mais natural naquele momento, ela levou a mo ao ombro dele e encostou a cabea em seu ombro, deixando-se levar pelo ritmo da msica. 
Iluminados apenas pelas suaves chamas das velas, os dois ficaram ali durante algum tempo, desfrutando aquela agradvel atmosfera de intimidade.
Ao sentir os lbios de Preston roando seu queixo, Cybil levantou o rosto de modo que seus lbios encontrassem os deles. Sua pulsao estava acelerada, mas seus 
movimentos, ao ritmo da msica, eram lentos, quase preguiosos.
- Preston... - murmurou, equilibrando-se na ponta dos ps para beij-lo com mais intensidade.
- Deve ser o jantar - falou ele, ainda com os lbios junto aos dela.
 - Hum?
 - O jantar. A campainha.
 - Oh.
Cybil tivera a impresso de ouvir uma campainha, mas o rudo lhe parecera to distante que
ela pensara que o som. houvesse vindo de outro apartamento.
- Espero que no fique desapontada - disse Preston, enquanto abria a porta. 
- No  pizza.
- Oh, tudo bem. Qualquer coisa est bom para mim.
Como ele queria que ela se preocupasse com comida com todo seu corpo ardendo de desejo por ele? Entretanto, no conseguiu esconder o ar de espanto ao ver garons 
uniformizados entrando no apartamento.
Aturdida, ficou observando os homens arrumarem as iguarias sobre a mesa com eficincia e discrio. Eles partiram em menos de dez minutos, e somente ento Cybil 
conseguiu voltar a falar.
- Isso... parece estar maravilhoso.
- Venha sentar-se. - Preston lhe segurou a mo e indicou um lugar para ela, antes de se inclinar e beij-la na nuca.
Cybil se lembrava de haver comido alguma coisa, mas no tinha muita certeza do que fora e nem de como o fizera. Era como se seu poder de observao houvesse decidido 
abandon-la de repente. Toda sua ateno estava centrada em Preston, e somente nele. S conseguia se lembrar da maneira como os dedos gentis haviam tocado os seus 
e de como aqueles lbios macios haviam roado a pele sensvel de sua mo em determinados momentos. A maneira charmosa como ele sorrira e servira mais champanhe, 
que ela bebera at sentir a cabea ficar leve, muito leve.
Tambm se lembrava com clareza da maneira como ele a carregara nos braos, com infinita gentileza, at o andar de cima. E de como ele a colocara com todo cuidado 
sobre a cama, em meio aos lenis perfumados. Acendeu as velas do candelabro, como j havia feito antes, mas dessa vez se aproximou de uma maneira diferente. Uma 
maneira permeada por uma espcie de magia carinhosa e sensual que Cybil no saberia ao certo como definir, apenas sentir.
Um beijo intenso e apaixonado iniciou o ritual de amor. Preston ofereceu a ela mais do que conseguia se imaginar capaz de oferecer a algum, e encontrou na resposta 
sem reservas de Cybil mais do que poderia sonhar.
Fizeram amor lentamente, sem pressa, sem receios. Para ambos, aquele delicioso compartilhamento ntimo foi uma espcie de descoberta mtua, algo que viveria apenas 
na lembrana dos dois.
Quando Preston abriu o robe de Cybil, ficou algum tempo admirando suas formas perfeitas, lisonjeando-a com aquele olhar de indisfarvel desejo.
- Voc  to linda, Cybil - disse, fitando-a nos olhos. 
- Quantas vezes deixei de lhe dizer isso? De lhe mostrar isso?
- Preston...
- Deixe que eu lhe faa isso. Deixe-me v-la sentir prazer ao ser tocada como eu deveria t-la tocado antes. Assim... - murmurou ele, percorrendo toda a extenso 
do corpo macio e cheio de curvas com a ponta do dedo indicador.
Cybil conteve o flego e fechou os olhos, envolvida por uma sensual onda de prazer. Ento ele inclinou a cabea, traando com os lbios e a lngua a mesma trilha 
de fogo que seu dedo havia deixado.
Gemidos de prazer irromperam na garganta de Cybil, emergindo por entre seus lbios entreabertos. Vulnervel ao toque das mos e dos lbios experientes de Preston, 
estremeceu completamente quando uma onda mais intensa de prazer arrebatou-a de repente.
Preston continuou a doce tortura, sentindo-se satisfeito ao v-la gemer e arquear o corpo em meio ao poderoso abandono sensual. Mas ainda no era suficiente. Queria 
oferecer mais a Cybil. Muito mais.
Ao se unir a ela por completo, deixou que o desejo, dessa vez permeado por uma infinita ternura, conduzisse seu corpo e o de Cybil por aquela escalada de sensualidade. 
Com movimentos intensos e ternos ao mesmo tempo, Preston a arrastou consigo para aquele universo de prazer que sempre guardava uma surpresa, nunca se revelando exatamente 
da mesma maneira.
Quando Cybil acordou, sorriu ao ver que Preston continuava ali, a seu lado, abraando-a com o mesmo carinho com que a envolvera quando os dois haviam adormecido 
nos braos um do outro, exaustos depois do amor.
- Definitivamente, essa foi a primeira colocada na lista moderna dos "Dez Tipos de Noites Romnticas Possveis de Acontecer na Vida de uma Mulher" - disse Jody; 
trocando a fralda de Charlie com sua costumeira habilidade, enquanto o beb insistia em dar suas opinies naquela linguagem que somente ele mesmo entendia. - Ganhou 
de longe do passeio de carruagem no Dia dos Namorados, com uma dzia de rosas brancas e um par de brincos de diamante que minha prima, Sharon, ganhou. Ela vai ficar 
indignada.
- Nunca algum me deu tanta ateno - confessou Cybil, abraada a um dos ursinhos de pelcia da vasta coleo de Charlie. - No foi apenas o... Voc sabe.
- Mas o "voc sabe" tambm foi maravilhoso, certo? - indagou Jody, fechando a fralda.
- Foi indescritvel. Voc se lembra daquela cena em Coraes em Chamas, quando Martin e Alessa finalmente descobrem que haviam sido separados durante anos pelo tio 
cruel e ambicioso?
- Oh, meu Deus. - Jody revirou os olhos, pegando Charlie no colo. - Se me lembro! Fiquei acordada at as duas horas da manh lendo aquele livro, e acabei acordando 
Chuck. - Sorriu com ar maroto. - Ficamos um pouco cansados no dia seguinte, mas valeu. a pena. - Ela levou Charlie para a sala e colocou-o sobre o tapete, para ele 
engatinhar. - Foi mesmo to bom assim?
- Foi melhor.
- No acredito.
- Foi como se Preston houvesse me oferecido no apenas seu corao, mas tambm sua alma. E eu fiz o mesmo em relao a ele.
- Puxa. - Jody sentou-se na cadeira mais prxima. - Isso foi lindo, Cyb. Lindo mesmo. Voc tambm deveria escrever um romance qualquer dia desses.
- Mas no foi apenas isso que me impressionou. Foi todo o conjunto, entende? - Brincando com Charlie, ela prosseguiu: - Estou to apaixonada, Jody. No acredito 
que seja possvel amar tanto assim sem ter esse sentimento transbordando por voc. Ele parece grande demais para ficar contido apenas aqui, dentro de mim.
- Oh. - Jody exalou um longo suspiro. - Quando vai contar a ele?
- No posso. - Tambm suspirando, Cybil pegou o martelinho de plstico de Charlie e comeou a bat-lo na mo, produzindo um rudo que chamou a ateno do beb. 
- No sou corajosa o suficiente para dizer-lhe algo que ele no quer ouvir.
- Cyb, o homem est louco por voc.
- Ele tem sentimentos em relao a mim, e talvez se eu conseguir esperar e convenc-lo de que no pretendo mago-lo, Preston se permita sentir algo mais.
- Mago-lo? - Jody franziu o cenho. - Cybil, voc nunca magoou ningum. Mas talvez, dessa vez, esteja magoando a si mesma.
- Ele tem motivos para ser cauteloso - disse ela, levantando a mo antes de Jody fizesse alguma pergunta. - No posso lhe contar, mas sei que ele tem motivos para 
agir assim.
- Tudo bem. Eu entendo.
- Obrigada. Agora preciso ir, ainda tenho uma poro de coisas para fazer. Precisa de alguma coisa?
- Na verdade, preciso sim. Mas s se voc for sair.
- Acrescentarei seu pedido  minha lista. J vou pegar algumas coisas para a sra. Wolinsky e prometi,  sra. Peebles que lhe traria algumas uvas verdes do mercado, 
se elas estivessem boas. Deixe-me pegar a lista... - falou ela, procurando o papel nos bolsos.
- S vou lhe pedir isso porque vai sair de qualquer maneira e porque  voc. - Jody mordeu o lbio, ento sorriu. - No conte a ningum que vai comprar isso para 
mim, est bem?
- Pode deixar. - Distrada, Cybil finalmente encontrou a lista dentro da carteira.
Cybil acabou demorando mais tempo do que imaginara. Quando entregou os itens para a sra. Wolinsky, as uvas  sra. Peebles, uvas que ela achara to bonitas que comprara 
uma poro para si mesma, e finalmente bateu  porta de Jody, j passava das cinco horas da tarde.
Fez um ar de frustrao quando a amiga no respondeu. Pelo visto, Jody havia precisado sair por algum motivo. Carregando as compras, voltou para o elevador e foi 
para o andar de cima.
Um inevitvel sorriso surgiu em seus lbios quando ela viu Preston esperando por ela no corredor.
- Oi!
- Ol, vizinha. - Ele pegou os pacotes e beijou-a nos lbios. - Ei, o que traz aqui dentro? Tijolos?
Cybil riu, procurando as chaves.
- Mantimentos, produtos de limpeza e algumas outras coisinhas. Comprei algumas coisas para voc tambm. As mas estavam muito bonitas  mais saudvel com-las enquanto 
est trabalhando do que ficar se empanturrando com doces e coisas do gnero.
Encontrou as chaves com um breve "A-ha!" e destrancou a porta.
- Oh, e tambm um pouco de amonaco, para limparmos aquelas suas janelas.
- Mas e amonaco. - Preston colocou os pacotes sobre a mesa. - O que mais um homem pode querer?
- Torta de nozes, diretamente da doceria. Sinto muito, mas no consegui resistir.
- Pois ela ter de esperar.
Dizendo isso, Preston a tomou nos braos e rodopiou com ela.
- Ei, est mesmo de bom humor, no? - disse ela, sorrindo ao beij-lo. - Se seu sorriso for alm disso, talvez acabe tendo problemas no maxilar.
- Terminei de escrever a pea, Cybil - declarou ele.
- Terminou? - Ela o abraou com fora. - Oh, Preston, isso  maravilhoso!
- Nunca terminei um roteiro to rapidamente. Ele ainda precisa de alguns ajustes, claro, mas o principal est pronto. Est tudo l. E voc teve muito a ver com isso.
- Eu?
- Assim que parei de tentar afast-la e me isolar para escrever, o contedo simplesmente fluiu.
- Posso ler o roteiro?
- Sim, depois que eu buril-lo um pouco mais. Agora vamos jantar para comemorar.
- Jantar? S se estiver disposto a celebrar um acontecimento to importante assim com espaguete e almndegas.
- Para mim, est timo. - Sem se importar em parecer sentimental, acrescentou: - Desde que seja com voc, aquela que um dia pagou um jantar a um msico faminto.
- Ah, meu Deus, voc colocou isso na pea? E sobre eu haver lhe pagado para jantar comigo? Oh, Deus, estou perdida.
- Voc vai gostar, no se preocupe.
Cybil arregalou os olhos.
- Ento eu apareo mesmo na pea? Com que nome eu apareo?
- Zo.
- Zo? - Ela apertou os lbios, pensativa. - Gostei.
- Nada que fosse muito comum iria combinar com voc - Preston explicou.
- Voc parece to feliz. - Aproximando-se, Cybil acariciou os cabelos dele. - E  to bom v-lo feliz.
- Venho me sentindo assim com muita freqncia ultimamente. Agora vamos.
- Ei, primeiro preciso guardar as compras. Depois me arrumarei um pouco e poderemos sair.
- Ento v se arrumar enquanto eu guardo as compras - sugeriu ele.
- Est bem - Cybil concordou, j se dirigindo  escada. - Mas tome cuidado para guard-las nos lugares certos, sim?

- Pode deixar comigo - Preston respondeu, comeando a tirar os itens de um dos pacotes.
Ele havia ficado impaciente durante aquela ltima hora, esperando Cybil voltar para poder lhe contar a novidade. Queria que ela fosse a primeira pessoa a saber. 
Tambm estava ansioso para dizer que, de alguma maneira, em algum momento ao longo das ltimas semanas, tudo havia mudado em sua vida. Por mais que houvesse lutado 
contra aquilo e tentado ignorar o que estava sentindo, nada havia resolvido. Chegara  concluso de que pela primeira vez depois de muito, muito tempo, voltara a 
se sentir feliz.
Cybil tinha razo, ele estava feliz. E no era apenas por causa da pea. Cybil era o motivo principal de sua felicidade, sempre fora.
Isso havia transparecido em sua pea, por meio das falas das personagens, e dos contextos que ele havia criado. Era impossvel resistir ao brilho da personalidade 
de Cybil, e isso estava l, em sua pea, para que todos pudessem ver e aplaudir.
A felicidade entrara em sua vida juntamente com Cybil, com seus biscoitos, sua conversa animada, seus risos e seu jeito encantador.
O que sentia por ela o preenchera por inteiro, como que salvando-o de um destino solitrio e desafortunado. Sim, ela o havia salvado. E, por isso, a ltima frase 
de sua pea era: "O amor cura".
Com algum tempo e certo esforo, tivera a chance de construir ao lado dela o tipo de vida em que deixara de acreditar ao sofrer aquela desiluso no passado.
Pensativo, comeou a tirar os itens do segundo pacote de compras. E ento, ao pegar uma determinada caixa, sentiu todo aquele mundo recm organizado cair de repente 
sobre sua cabea.
- Eu ia trocar de roupa, mas decidi no perder tempo para comear nossa comemorao. - Cybil desceu a escada rapidamente, com os brincos que Preston havia lhe dado 
de presente balanando nas orelhas. - S preciso ligar para Jody antes de sairmos, para ver se ela j voltou.
- O que diabos  isso, Cybil? - Plido de fria, Preston mostrou a ela o kit para teste de gravidez. - Voc est grvida?
- Eu...
- Voc acha que est grvida e no me disse nada? O que pretendia fazer? Esperar o momento, o lugar e o humor certos para me contar?
O brilho de animao que Cybil trazia no olhar desapreceu de repente.
- E isso o que voc pensa, Preston?
- O que diabos voc acha que eu devo pensar? Sai por a, toda sorridente, e depois eu encontro isso. - Ele mostrou a caixa. - E depois vem me dizer que no mente, 
que no brinca com os sentimentos de ningum. O que mais posso deduzir a seu respeito?
- Isso faz de mim algum como Pamela, no ? - Toda a felicidade que havia preenchido o corao de Cybil ao longo do dia de repente pareceu se transformar em cinzas. 
- Uma pessoa calculista e enganadora. Algum disposta a us-lo em, proveito prprio,  isso?
Preston disse a si mesmo que precisava se acalmar, antes que acabasse fazendo alguma besteira ou perdendo o controle da situao.
- Isso  entre mim e voc. No diz respeito a ningum mais. Quero uma explicao.
- Imagino se essa questo seja mesmo entre mim e voc, sem envolver ningum mais - replicou ela. - Vou lhe dar uma explicao, Preston. Comprei mas para voc, 
uvas para a sra. Peebles, alguns itens para a sra. Wolinsky e esse kit de gravidez para Jody. Ela acha que est esperando um irmozinho para Charlie.
- Jody?
- Isso mesmo. - Cybil continuou a sentir um aperto no peito. 
- No estou grvida. Portanto, pode ficar tranqilo.
- Sinto muito.
- Eu tambm. Sinto realmente muitssimo. -Ela teve de se esforar para conter as lgrimas ao pegar a caixa e examin-la. - Jody estava to feliz quando me pediu 
para comprar isso. To esperanosa. Para algumas pessoas, a idia de ter um filho  sinnimo de felicidade, mas para voc... - Ela colocou a caixa sobre a mesa e 
olhou para Preston. - Para voc  uma ameaa, uma lembrana ruim do passado.
- Foi uma reao impensada, Cybil. Reconheo que fui precipitado.
- Cruel, seria a palavra mais apropriada. O que teria feito se eu estivesse mesmo grvida, Preston? Comearia a me acusar, dizendo que montei uma armadilha para 
arruinar sua vida?
Ou, quem sabe, comearia a pensar que dormi com outro homem e que nos divertimos muito  sua custa.
- No, eu no diria isso. - A simples idia o fez estremecer. 
- No diga tolices. Claro que eu no pensaria isso.
- Tolices? Tolice sobre o qu? Se ela fez, por que eu no o faria? Por que diabos eu no faria? Voc acabou de traz-la para c e de coloc-la bem aqui entre ns, 
Preston. E foi voc quem permitiu isso.
- Tem razo. Cybil, eu...
Ela deu um passo atrs quando ele tentou toc-la.
- No toque em mim! No suportarei ser tocada por algum que me considera como uma mulher qualquer. Fui sincera com voc durante todo esse tempo, Preston, e voc 
no tinha o direito de me magoar desse jeito. Tambm fui idiota por permitir que voc me magoasse. Mas agora chega. V embora, por favor.
- No irei embora antes de esclarecermos essa situao.
- Ela j est esclarecida. No o culpo pelo que aconteceu. Na verdade, tambm tive culpa nessa histria. Voc foi sincero comigo. "Isso  tudo que posso lhe oferecer. 
No pea nada alm disso", voc mesmo disse. Eu me envolvi porque quis, mas isso no voltar a acontecer. Preciso de algum que me respeite e que confie em mim. 
E no aceitarei nada menos do que isso. Portanto, v embora. - Ela foi at a porta e a abriu com um gesto firme. 
- V embora daqui.
Apesar da fria nos olhos de Cybil, eles estavam marejados de lgrimas e as mos fechadas sobre suas coxas estavam trmulas. Apesar de a porta haver sido aberta, 
Preston continuou olhando-a.
- Eu estava errado. Completamente errado, Cybil. E sinto muito por isso.
- Eu tambm. - Ela comeou a tamborilar os dedos sobre a porta, ento respirou fundo. - Eu menti. No fui sincera com voc em absolutamente todos os momentos, Preston. 
Mas serei de agora em diante. Estou apaixonada por voc e lamento que tudo tenha de terminar assim.
Preston tentou argumentar uma ltima vez, mas Cybil passou correndo por ele e foi para o quarto, onde se trancou.
Aflito, ele passou a mo pelos cabelos e voltou para seu apartamento. No precisava ser assim. No precisava.


CAPTULO XII
- Preciso achar esse sujeito e acertar algumas contas com ele - disse Grant Campbell por entre os dentes, andando de um lado para outro da cozinha e lembrando um 
drago prestes a cuspir fogo.
- Isso no a faria parar de sofrer - salientou Gennie, afastando-se da janela de onde estivera observando a filha.
Notando a atitude impaciente e irritada do marido, lembrou-se do homem por quem ela havia se apaixonado muitos anos antes. Grant ainda mantinha alguns traos do 
carter incisivo da juventude, s que permeados pelo charmoso ar da maturidade. Seu amor por ele havia mudado ao longo dos anos, mas no havia dvida de que continuava 
to intenso quanto antes.
- Pelo menos iria fazer eu me sentir bem melhor - resmungou ele. - Vou sair para busc-la.
- No, voc no vai. - Gennie pousou a mo sobre o brao dele, antes que ele passasse pela porta. - Deixe-a sozinha por algum tempo.
- Mas est ficando escuro - argumentou Grant, sentindo-se impotente.
- Cybil vir quando sentir que est pronta.
- No sei se vou agentar isso. Detesto ver a sombra de tristeza que Preston deixou nos olhos dela.
-  preciso se ferir, antes de se curar. Ambos sabemos disso. - Gennie abraou o marido e repousou a cabea sobre o ombro dele. - Ela sabe que estamos aqui.
- Era mais fcil quando algum deles caa, se machucava e precisava de cuidados. Pelo menos sabamos o que fazer.
Gennie sorriu.
- No era o que voc pensava na poca. - Afastando-se um pouco, segurou o rosto dele entre as mos. - Voc sempre se feriu mais do que eles.
- Eu apenas queria aninh-los no colo e fazer a dor passar. Como quero fazer com ela agora. Depois irei atrs do sujeito e acertarei as contas com ele.
- Tambm estou sofrendo por v-la sofrer - confessou Gennie. Sorrindo, acrescentou: -- Se pudesse, tambm quebraria o pescoo do "sujeito", como voc diz. Mas sabemos 
que essas coisas no se resolvem assim.
Foi dessa maneira que Cybil os encontrou ao entrar na cozinha. Os dois abraados diante da janela, fitando-se nos olhos.
Mais do que nunca, teve certeza de que era aquilo que ela queria para si. Havia sido criada em meio quela atmosfera romntica e tranqila, e no conseguia se imaginar 
criando seus prprios filhos em um ambiente diferente.
Aproximando-se devagar, abraou-os ao mesmo tempo.
- Vocs tm idia de quantas vezes na minha vida eu vim at aqui e os vi exatamente dessa maneira? E de quanto , bom poder ver isso de novo?
- Seus cabelos esto molhados - observou Grant, passando a mo por eles.
- Eu estava olhando as ondas se quebrando nas rochas. - Cybil o beijou. - Pare de se preocupar comigo, papai.
- Vou parar. Quando voc estiver com cinqenta anos. Talvez. - Ele pousou a mo sobre o rosto dela. 
- Quer um pouco de caf?
- Hum... no. Acho que vou tomar um banho quente e ir para a cama junto com um bom livro. Isso sempre funcionou para mim, quando eu era adolescente e passava por 
alguma crise.
- Naquele tempo, quando voc estava em crise, era eu quem preparava seu banho - a me a lembrou. 
- Ento, por que quebrar a tradio?
- No precisa fazer isso, mame.
- Ah, deixe que eu me intrometa um pouco tambm. Ou ser que essa honra cabe apenas a seu pai? - Gennie sorriu, passando o brao pelos ombros da filha.
Com um suspiro, Cybil deixou que a me a conduzisse em direo ao quarto.
- E eu que estava com esperanas de faz-la desistir.
Gennie manteve o sorriso.
- Seu pai precisa ficar um pouco sozinho para ter tempo de andar de um lado para outro e xingar seu namorado.
- Ele no  meu "namorado" - protestou Cybil, quando as duas comearam a subir a ampla escada em caracol. 
- Nunca foi.
- Voc no  mais uma adolescente. - Com gentileza, Gennie virou Cybil de frente para ela quando os duas entraram no quarto que havia sido de Cybil. 
- E isso no  uma crise.
Os olhos de Cybil se encheram de lgrimas mais uma vez.
- Oh, mame...
- Calma, minha querida.
Gennie a conduziu at a cama, ainda coberta com a colcha de retalhos coloridos preferida de Cybil, na poca da adolescncia. Sentando-se sobre o colcho, Gennie 
fez um sinal para que a filha se sentasse ao lado dela. Quando Cybil obedeceu, a me a abraou.
- Eu quero odi-lo. -- Aninhando-se no colo da me, Cybil comeou a chorar.
 - Eu quero odi-lo - repetiu. -- Se pelo menos eu conseguisse deixar de am-lo...
- Eu gostaria de poder lhe dizer que isso  possvel, Cyb. Eu realmente gostaria. Alguns homens so to difceis. - Gennie embalou a filha enquanto falava: - Eu 
a conheo muito bem, minha querida. Sei que se voc o ama  porque deve haver algo nele que seja digno do seu amor.
- Ele  maravilhoso. Ele  insensvel. Oh, mame... - Cybil voltou a chorar. 
- Ele  igualzinho a papai.
- Oh, minha querida. Ento, que Deus a ajude.
 - Com um sorriso, Gennie abraou-a com mais fora. 
- Eu sempre adorei a histria de vocs dois - falou Cybil, enxugando as lgrimas e voltando a se acalmar. - A histria de como vocs se conheceram, quando seu carro 
quebrou em meio  tempestade e voc ficou aflita, indo buscar ajuda no farol onde ele estava vivendo feito um eremita. E de como ele foi rude com voc.
Cybil parou um instante para assoar o nariz em seu lencinho.
- Ele no via a hora de se livrar de mim - falou Gennie, rindo e afagando os cabelos da filha.
- Da maneira como ele conta, voc praticamente invadiu o espao dele. E ele ficou aborrecido porque voc era linda e estava toda encharcada. - Cybil suspirou, observando 
os traos clssicos do semblante da me, emoldurados pelos belos cabelos negros. 
- Voc  to linda, mame.
- Voc tem meus olhos -- afirmou Gennie, com seu costumeiro tom gentil. - Isso  que faz com que eu me sinta bonita.
Cybil sorriu.
- No fomos feitos um para o outro. Preston e eu. Ele  to conservador e vive to absorto no trabalho... No que ele no tenha bom humor, mas o humor dele  diferente 
do meu, entende? - Ficou de p com um suspiro e caminhou at a janela, para ver a lua se refletindo sobre as guas alm da casa. -- s vezes, ele  incrivelmente 
charmoso, surpreendente e encantador. Mas  to temperamental que nunca sei como vai estar o humor dele quando nos encontrarmos de novo. Junto a isso, h tambm 
uma incrvel sensibilidade que o faz sentir medo de confiar nos outros, de sentir algo mais intenso por algum. Mas basta ele me tocar para eu me esquecer do resto 
do mundo...
- Oh, meu Deus. Ele  realmente igualzinho a seu pai. Cyb, precisa fazer o que  melhor para voc. Mas se o ama tanto assim, talvez nunca consiga ser feliz sem antes 
tentar acertar essa situao.
- Ele acha que sou uma inconseqente - Cybil retomou o tom indignado, levando Gennie a sorrir com sabedoria. - E que meu trabalho  menos importante do que o dele 
s porque  diferente. Ele no confia em mim. Em um minuto me manda embora do apartamento dele, e no outro age como se no conseguisse ficar longe de mim. - Virou-se 
de repente, pronta para fazer mais algumas reclamaes, mas se espantou ao ver a me sorrindo. 
- O que foi?
- Como conseguiu encontrar outro homem como esse? Pensei que eu tivesse o nico do mundo - disse Gennie.
- Vov o encontrou.
O sorriso de Gennie adquiriu um ar mais sagaz. 
- Oh. - Ela arqueou uma sobrancelha perfeita. -  mesmo? No me diga...
Pela primeira vez naquelas ltimas vinte e quatro horas, Cybil comeou a rir.

Preston resmungou algo, guardando o sax de volta na maleta. Mulheres, pensou. Conseguiam afetar tanto um homem que no o deixavam em paz nem mesmo para tocar seu 
instrumento preferido ferido e liberar sua frustrao. Como se no bastasse, tambm no estava conseguindo trabalhar.
Passara a maior parte do dia olhando para a tela do computador, indo at a janela ou ameaando bater  porta do apartamento de Cybil. Isso at finalmente perceber 
que ela no se encontrava mais l.
Ela o havia deixado. O que, provavelmente, fora a atitude mais sensata que ela tomara desde que o conhecera. Aps o primeiro momento de aflio, Preston ponderara 
um pouco mais a respeito da situao e chegara  concluso de que a melhor coisa que poderia fazer para ambos seria ir embora antes que ela voltasse para casa.
Voltaria para Connecticut na manh seguinte. Achava que poderia agentar pedreiros, encanadores, eletricistas e quem mais estivesse reformando a casa por mais algumas 
semanas. Mas no conseguiria agentar ficar ali, morando bem em frente ao apartamento da mulher que ele amava e que perdera devido  sua idiotice.
Tudo que Cybil lhe dissera fora a mais completa verdade, e ele no tivera nenhuma defesa contra isso.
- Vou ficar fora durante algum tempo, Andr.
O pianista olhou para ele atravs da neblina formada pela fumaa dos cigarros.
-  mesmo?
- Vou voltar amanh para Connecticut.
- Hum-hum. Levou um fora da garota? - perguntou Andr. Esticando-se para olhar as costas de Preston, acrescentou: 
- Por acaso  um rabo isso que estou vendo entre suas pernas, meu caro?
Preston pegou a maleta, forando um riso.
- Nos veremos por a.
- Vou continuar bem aqui.  s me procurar.
Quando Preston se virou de costas para ele, Andr esticou o pescoo e fez um sinal para a esposa, ento apontou o polegar na direo do amigo. Entendendo a mensagem, 
Delta se dirigiu  sada pelo outro lado.
- Est saindo mais cedo hoje, meu querido?
- Preciso arrumar algumas coisas porque vou viajar cedo amanh. Vou voltar para Connecticut.
- Vai voltar s origens? - Delta sorriu, passando o brao por dentro do dele. - Bem, ento vamos tomar um drinque de despedida, porque vou sentir falta dessa sua 
carinha bonita.
Preston riu.
- Tambm vou sentir da sua.
- Aposto que no s da minha - disse ela, o mostrando dois dedos ao barman. - Aquela garota linda acendeu o blues em sua alma, mas voc no est conseguindo transmitir 
isso a seu sax, no  mesmo? Ainda no foi dessa vez?
- No, no foi. - Preston levantou o copo, em um brinde. - Est terminado.
- Mas por qu?
- Porque ela disse que est - respondeu ele, tomando a bebida de um nico gole. Delta riu com charme.
- E desde quando os homens passaram a aceitar esse tipo de situao?
- Quando a mulher est sendo absolutamente sincera, no h o que argumentar.
- Preston McQuinn, no estou acreditando no que estou ouvindo... 
- Voc  mesmo um idiota - acrescentou, em um tom afetuoso. 

- Sem argumentos, Delta. Por isso acabou. Eu estraguei tudo, e agora preciso aprender a conviver com isso.
- Se foi voc quem estragou, ser voc quem ter de consertar.
- Quando se magoa uma pessoa tanto quanto eu magoei Cybil, ela passa a ter o direito de no querer lhe ver mais.
- Meu querido, quando se ama uma pessoa tanto quanto eu sei que voc a ama, voc passa a ter direito de agir, ainda que tenha de se ajoelhar e implorar pelo amor 
dela. - Delta fitou-o bem nos olhos. 
- Voc a ama tanto assim?
Preston olhou para o copo de usque deixado sobre o balco.
- Nem eu mesmo sabia que a amava tanto. Nunca imaginei que eu fosse capaz de amar tanto.
- Ah, meu amigo... - Delta o beijou no rosto. 
- Ento o que est esperando para ir atrs dela?
Preston balanou a cabea negativamente, como se aquele assunto estivesse encerrado para ele. Dando um beijo de despedida na amiga, encaminhou-se para a sada e 
voltou a p para casa.
Delta estava errada, disse a si mesmo. s vezes, no havia como consertar um erro. Que motivo teria Cybil para aceit-lo de volta? Ainda trazia na lembrana a imagem 
da sombra de tristeza que surgira naqueles olhos verdes quando ele demonstrara desconfiana quanto ao carter dela.
No tinha o direito de pedir a ela que o ouvisse, depois da maneira como agira. Ajoelhar-se e implorar talvez fosse pouco dessa vez.
Para seu espanto, s se deu conta de que havia comeado a correr quando chegou ofegante ao apartamento de Jody. Levado por um impulso, comeou a bater  porta.
- Pelo amor de Deus, o que  isso?
Depois de verificar quem era atravs do olho mgico, Jody abriu a porta e fechou o robe com mais firmeza em torno de si. Se Chuck no dormisse feito uma pedra, ela 
no teria de ter sado correndo, antes que o barulho acordasse o beb.
- J passa da meia-noite - disse ela. - Ficou maluco?
- Onde ela est, Jody? Para onde ela foi? Jody torceu o nariz, levantando o queixo com um ar de dignidade dificil de ser sustentado naquele robe todo estampado com 
gatinhos cor-de-rosa. 
- Voc bebeu?
- Tomei um drinque - respondeu Preston. - Mas no estou bbado. - De fato, ele nunca se sentira to sbrio, ou to desesperado. 
- Onde est Cybil?
- Como se eu fosse lhe dizer isso, depois de voc haver arrasado o corao dela. Volte para sua toca - Jody apontou corredor com dramaticidade -, antes que eu acorde 
Chuck e algumas outras pessoas por aqui. Elas vo querer mat-lo quando souberem o que voc fez. - Os lbios dela se tornaram trmulos. 
- Todo mundo adora Cybil.
- Eu tambm a adoro.
- Sim, claro. E por isso a fez chorar como nunca. Preston fechou os olhos por um instante, lamentando o que havia feito.
- Por favor, diga-me onde ela est.
- E por que eu deveria?
- Porque eu quero ir at l, me ajoelhar e dar a ela chance de me chutar enquanto eu estiver abaixado - respondeu ele, no mesmo tom dramtico. 
- Para que eu possa implorar. Vamos, Jody, me diga onde ela est. Eu preciso ver Cybil.
Jody estreitou o-olhar, examinando-o com cuidado. Ao ver a sombra de desespero nos olhos dele, pareceu ceder um pouco.
- Voc a ama de verdade?
- Tanto que me conformarei e irei embora para sempre se ela no me quiser. Mas primeiro preciso v-la.
Jody levou a mo ao peito. O que uma mulher romntica poderia fazer em uma situao como aquela seno suspirar?
- Ele est na casa dos pais, em Maine. Vou anotar o endereo para voc.
Tomado por uma onda de alvio, e de gratido, Preston fechou os olhos mais uma vez, antes de beij-la no rosto.
- Obrigado, Jody.
- Mas se voc a magoar novamente - falou ela, enquanto anotava o endereo no papel -irei procur-lo at no fim do mundo, para mat-lo com minhas prprias mos!
Preston riu.
- No se preocupe. No ter de fazer isso. - Lembrando-se do que Cybil havia dito, ele acrescentou: - Voc est mesmo...
Jody franziu o cenho, confusa, ento sorriu e levou a mo ao ventre.

- Sim, estou. O nascimento est previsto para acontecer no Dia dos Namorados. O no  perfeito?
-  maravilhoso. Meus parabns. - Preston guardou no bolso o papel que ela lhe entregou. - Obrigado - agradeceu mais uma vez e beijou-a no rosto antes de sair.
Jody ficou algum tempo ali, parada com ar sonhador.
- Sim... - murmurou, enquanto fechava a porta. 
- A vai mais um encontro fora de qualquer escala. - Cruzando os dedos, sussurrou: - Boa sorte, Cybil.
- MacGregor - disse Grant, por entre os dentes, com um brilho de fria no olhar. 
- Raposa bisbilhoteira.
Aquele era apenas mais um dos termos que ele inventara para se referir a Daniel, desde que a esposa havia contado a ele sobre os planos casamenteiros do patriarca 
da famlia em relao a Cybil, na noite anterior.
Gennie riu. Sabia que, no ntimo, seu marido adorava Daniel MacGregor.
- Pensei que fosse "velho alcoviteiro" - disse ela.
-- Isso tambm. Se ele no estivesse com pelo menos seiscentos anos, juro que eu chutaria aquele traseiro dele.
- Grant. - Gennie deixou de lado o esboo que estava fazendo e olhou para ele. 
- Voc sabe que ele faz isso por amor.
- Mas no funcionou, funcionou?
Gennie comeou a falar, mas se interrompeu ao ouvir o motor de um carro se aproximando.
Experimentando uma sbita onda de expectativa advinda de sua intuio feminina, respondeu:
- No tenha tanta certeza disso.
- Quem diabos pode ser? - perguntou Grant, demonstrando mais uma vez a reao que costumava ter quando algum ousava invadir seu territrio. 
- Se for outro daqueles reprteres, vou pegar a arma.
- Voc no tem uma arma.
- Ento vou comprar uma.
Sem conseguir conter o riso, Gennie ficou de p e o abraou.
- Oh, Grant, eu te amo.
A delicada proximidade de Gennie agiu sobre ele como o sol despontando por trs de uma nuvem escura e invadindo-a sem hesitar.
- Genevive - murmurou ele, chamando-a pelo nome completo, como costumava fazer em momentos mais ntimos. - Diga, a quem quer que seja, que v embora e que nunca 
volte.
Gennie manteve os braos em torno do pescoo dele e a cabea repousada sobre seu ombro, enquanto ouvia o possante motor do carro se aproximar cada vez mais.
- Acho que isso depender de Cybil.
- O qu? - Grant virou-se para a janela no mesmo instante, observando a estrada com ar desconfiado. A estrada que Gennie vivia lhe pedindo para ele mandar reparar. 
- Acha que  ele? Ora, ora... - Teria sado de imediato, se a esposa no o houvesse detido. - Parece que vou poder chutar um traseiro afinal.
- Comporte-se.
- Uma ova que vou me comportar. Ela sorriu.
- Venha. Vamos para a varanda - disse, segurando a mo dele.

Preston os avistou a distncia e enrijeceu o maxilar. Ao longo dos ltimos quilmetros, havia se preocupado mais em xingar a falta de manuteno daquela estrada 
do que em imaginar como seria seu encontro com os pais de Cybil. Quem quer que fosse o encarregado pela manuteno daquela estrada, no era l muito responsvel.
Surpreendeu-se ao notar que o casal Campbell se encontrava abraado na varanda da casa. E ento se perguntou qual dos dois iria tentar mat-lo primeiro.
Com um suspiro resignado, conduziu o carro adiante, observando o lugar onde, provavelmente, logo ele seria enterrado em uma cova rasa.
O lugar era maravilhoso, com a manso branca cercada de uma vegetao bem cuidada. Cybil havia sido criada ali, pensou ele. E talvez por isso ainda carregasse no 
esprito aquele cativante comportamento espontneo.
Ao parar o carro diante da casa, sentiu que seus nervos no estavam to calmos quanto ele imaginara que estariam naquele momento. O casal continuou a observ-lo 
da varanda. Mesmo  distncia, notou que a expresso do pai de Cybil no era de muito boas-vindas.
Respirando fundo, saiu do carro, determinado a viver pelo menos o suficiente para ver Cybil e abrir seu corao para ela. Depois disso, nada mais importaria.
No era de admirar que sua filha estivesse perdidamente apaixonada, pensou Gennie, ao observar o belssimo rapaz que se aproximou pelo ptio. Notando a tenso de 
Grant, segurou o brao dele com mais fora, em sinal de apelo.
- Sra. Campbell, sr. Campbell - Preston os cumprimentou com uma inclinao de cabea, tendo o cuidado de no oferecer a mo ao pai de Cybil. Sabia que seria um bocado 
difcil. digitar com os dedos quebrados. 
- Sou Preston McQuinn. Preciso de... Preciso ver Cybil - ele corrigiu.
- Quantos anos voc tem, rapaz?
Preston franziu o cenho, parecendo surpreso com a pergunta.
- Trinta.
Grant inclinou a cabea.
-- Pois se quiser completar os trinta e um, sugiro que entre novamente naquele carro e que volte para o lugar de onde veio.
Preston se manteve no mesmo lugar, encarando aquele olhar mortfero.
- No irei embora antes de ver Cybil. Depois disso, o senhor mesmo pode me expulsar daqui se quiser. Ou tentar.
- No vai chegar perto da minha filha nem por cima do meu cadver.
Grant colocou Gennie de lado, como se esta no pesasse mais do que uma boneca. Mesmo quando ele deu um passo  frente, em uma atitude ameaadora, Preston manteve 
os braos abaixados. O pai de Cybil poderia dar o primeiro soco, concluiu. Ele at que merecia.
- Chega!
Gennie se posicionou entre eles, levando uma mo ao peito de cada um. Ento lanou um olhar de aviso para o marido, antes de dirigir outro mais ameno a Preston.
Ele levou um momento para se dar conta de que havia sido perdoado por uma rainha, como na Histria Antiga. Somente ento respirou aliviado. 

- Ela tem seus olhos - no pde deixar de dizer, admirado. - Cybil. Ela tem seus olhos. Um brilho de satisfao surgiu nos olhos dela. 
- Sim, eu sei. Ela est na colina, atrs do farol. 
- Gennie! Mas que droga!
Quando deu por si, Preston j havia pousado a mo sobre aquela que ela ainda mantinha em seu peito.
- Obrigado, sra. Campbell. - Ento levantou a vista para Grant e sustentou o olhar.
 - No vou mago-la, sr. Campbell. Eu prometo.
- Droga - resmungou Grant, quando Preston comeou a se dirigir  colina com passos firmes. - Por que voc fez isso?
Com um suspiro, Gennie se voltou para ele e lhe segurou o rosto entre as mos.
- Por que ele me lembrou algum. - Tolice.
Ela riu.
- E acho que nossa filha vai se tornar uma mulher muito feliz antes do que voc imagina.
Grant ficou olhando Preston seguir em frente, at desaparecer a certa altura do caminho.
- O rapaz est mesmo apaixonado por ela - ele finalmente admitiu. --Pude ver isso nos olhos dele.
- Eu sei. E voc se lembra de quanto a sensao era assustadora?
- Ainda . - Com um sorriso, Grant a puxou para si. - O rapaz tem coragem. Mas se bem conheo nossa filha, duvido que ela o perdoe facilmente. O coitado est perdido.
- Perdido de amor, voc quer dizer - corrigiu Gennie, com ar sonhador. - Mas Cyb vai perdo-lo, sim. Ele merece. Para variar, Daniel acertou mais uma vez.
- Eu sei. - Grant sorriu para ela. - Mas no vamos contar nada a ele durante algum tempo para faz-lo sofrer um pouquinho.

Sentada sobre uma pedra, Cybil desenhava alguns esboos. O vento fazia seus cabelos esvoaarem, deixando-a com um ar sensual e infantil ao mesmo tempo.
Ao v-la, em meio quela belssima paisagem, Preston perdeu o flego. Havia dirigido a noite inteira, e tambm a manh, imaginando durante todo o tempo como seria 
rever aquele rosto. Mas nada o preparara para aquilo.
Chamou-a uma vez, mas se deu conta de que o vento desviara o som de sua voz. Desistindo de cham-la, seguiu em frente, pela trilha que levava ao local onde ela se 
encontrava.
Talvez Cybil o tivesse ouvido, ou talvez sua aproximao houvesse mudado a incidncia da luz sobre o papel. Ou talvez simplesmente o houvesse sentido de alguma maneira, 
mas a verdade  que ela de repente parou de desenhar e olhou na direo dele.
De sbito, foi como se todo o mundo ao redor houvesse parado por um instante, restando apenas a tempestade de emoes que os dois compartilharam naquela frao de 
segundo.
Ento, como se a presena dele no fizesse a menor diferena para ela, Cybil voltou a desenhar.
- Voc viajou um bocado, no, Preston?
- Cybil. - Ele sentiu a boca secar.
- No costumamos receber muitas visitas por aqui. Meu pai no se importa muito em manter a estrada conservada justamente para afastar os visitantes.
- Cybil -- ele disse mais uma vez, contendo a vontade de toc-la.
- Se eu tivesse mais alguma coisa para lhe dizer, teria dito em Nova York.
"V embora!", pedia ela, em pensamento. "V embora antes que eu comece a chorar."
- Eu tenho algo para lhe dizer.
Ela o olhou de relance, sem muito interesse.
- Se eu quisesse ouvi-lo... Bem, o que eu disse tambm serve nesse caso. -- Dizendo isso, fechou o caderno de esboos e ficou de p. -- Agora...
- Por favor. - Preston levantou a mo, mas abaixou-a novamente diante do olhar indignado de Cybil. - Oua. Apenas oua. Se quiser que eu v embora depois, eu irei.
Ela respirou fundo.
- Est bem - respondeu, sentando-se novamente sobre a pedra e abrindo o caderno de esboos. - Mas vou continuar trabalhando, se no se importa.

- Eu... - Preston no sabia por onde comear. Todas as frases que havia ensaiado simplesmente fugiram de sua mente. - Minha agente se encontrou com o seu agente 
ontem.
-  mesmo? Que mundo pequeno, no?
Preston deveria ter se sentido insultado com o tom de Cybil, mas estava ocupado demais em observ-la para isso.
- Ele contou a ela sobre a srie de televiso que se basear nos seus desenhos. Disse que foi um grande acordo.
- Para alguns.
- Voc no me contou.
Ela o olhou de soslaio.
- Voc no est interessado no meu trabalho.
- Isso no  verdade, mas no posso culp-la por pensar assim. Agi feito um idiota no dia em que voc apareceu toda animada para me dar a notcia. Sei que arruinei 
tudo. Eu... - Preston sentiu a necessidade de se interromper e olhar a paisagem, tentando se acalmar. - Eu estava distrado, terminando meu roteiro. Mas tambm estava 
distrado com meus sentimentos por voc. Com o que eu no queria sentir por voc.
Cybil quebrou a ponta do lpis. Furiosa consigo mesma, colocou-o atrs da orelha e abriu seu estojo  procura de outro.
- Se foi isso que veio me dizer, ento j disse. Agora pode ir.
- No, no foi isso que vim lhe dizer. Mas peo desculpas por no t-la ouvido naquele momento. Estou muito feliz por voc.
- Puxa, no imagina como isso me deixa aliviada - ironizou ela.
Preston fechou os olhos, cerrando os punhos. Ento Cybil tambm sabia ser cruel quando queria, pensou ele.
- Tudo que voc me disse naquela noite em que me expulsou de sua vida estava certo. Deixei uma sombra do passado se instalar entre ns, e usei isso para arrasar 
o que de melhor poderia haver me acontecido. Vi o mundo de minha irm se desfazer diante de meus olhos, presenciando quanto ela teve de lutar para superar a dor 
da traio e criar sozinha os dois filhos.
Cybil fechou o livro novamente.
- Sei que voc e sua irm viveram um inferno. Nem todo mundo agentaria passar pelo que ela passou, Preston.
- Talvez. Mas as pessoas so mais fortes do que imaginam.
Ele se virou novamente e seus olhares se encontraram. Preston sentiu um fio de esperana ao notar um tnue brilho de simpatia nos olhos de Cybil.
- Teria funcionado, no teria? Se eu tivesse usado minha irm para despertar sua compaixo? Mas no  isso que quero fazer. No  o que vou fazer. - Voltando a olhar 
a paisagem, Preston prosseguiu: -- Eu amei Pamela. O que aconteceu entre ns me mudou de alguma maneira.
- Eu sei.
Cybil sentiu que teria de perdo-lo. Isso seria inevitvel, j que seu corao comeara a se enternecer s pelo fato de Preston estar ali,  sua frente, tentando 
se explicar.
-- Eu a amei - repetiu ele, virando-se e se aproximando dela. - Mas o que eu senti por Pamela no  nem a sombra daquilo que sinto por voc. Do que eu sinto quando 
penso em voc e quando olho para voc, Cybil. Esse sentimento preenche meu ser, me d esperana.
Os lbios entreabertos de Cybil comearam a tremer. Seu corao acelerou., preenchido por algo que ela identificou primeiramente como esperana. Estava vendo no 
semblante de Preston algo que nunca imaginara ver. Lutando para capturar e compreender aquilo em toda sua amplitude, desviou o olhar por um instante.
- Esperana de qu? - conseguiu dizer.
- Esperana de que um milagre seja possvel. Sei que a magoei muito, e que no mereo desculpa pela forma como fiz isso. Disse aquelas tolices quando pensei que 
voc estava grvida porque estava aborrecido comigo mesmo. Aborrecido pelo fato de que uma parte de mim estava pensando que ter um filho com voc seria uma maneira, 
de mant-la junto de mim.
Quando Cybil voltou a fit-lo, seus olhos estavam arregalados de surpresa. Preston passou a mo por entre os cabelos.
- Sabia que voc no queria se casar, mas se estivesse... Pelo menos eu poderia for-la a se casar comigo de alguma maneira. E minha nica defesa contra esse tipo 
de pensamento foi me voltar contra voc.
- Me forar a casar? - foi tudo que Cybil conseguir dizer.
Aturdida, ficou de p e deu alguns passos. Observando a paisagem com olhar vago, perguntou-se como deveria lidar com tudo aquilo. Como a situao pudera mudar to 
rapidamente?
- Sei que isso no  desculpa, mas voc tem o direito de saber que, em nenhum momento, eu achei que voc havia me enganado ou montado uma armadilha para mim. Nunca 
conheci uma pessoa to humana e generosa quanto voc, Cybil. T-la na minha vida foi... Voc me fez feliz, e acho que eu havia esquecido o que era sentir felicidade.
- Preston. - Ela se virou para ele com os olhos marejados de lgrimas.
- Por favor, deixe-me terminar. Apenas oua. - Preston segurou as mos dela. - Eu te amo. E voc disse que me amava. Sei que voc no mente, ento pensei que pudesse 
haver uma chance...
- No, eu no minto.
Cybil distinguiu os traos de cansao no rosto dele. Preston parecia haver sofrido tanto quanto ela naquelas ltimas horas.
- Eu preciso de voc, Cybil. Muito mais do que voc precisa de mim. Sei que pode continuar a viver sem mim.  uma mulher independente e aberta para a vida, e ningum 
a impedir de ser quem voc . Sei que minha ausncia no far diferena em sua vida e que isso no a impedir de ser feliz. Voc nasceu para ser feliz.
Enquanto falava, Preston observava cada detalhe do rosto dela, como se quisesse guardar aquela iInagem na lembrana.
- Nunca conseguirei esquec-la - continuou eie. - Nunca deixarei de am-la ou de lamentar o que fiz para perd-la. Eu irei embora, se voc quiser. Mas se houver 
uma nica chance de recomearmos... Por favor, no me mande embora.
- Voc acredita nisso? - perguntou ela, em um fio de voz. - Acredita mesmo que eu conseguiria ser feliz sem voc? Alm disso, por que eu o mandaria embora se quero 
que fique?
Preston soltou o flego que estivera contendo. Antes mesmo que um sorriso se formasse nos lbios de Cybil, Preston a puxou para si, em um abrao cheio de alvio.
- Pensei que a havia perdido, Cybil. Pensei...
Os lbios dele cobriram os dela em um beijo apaixonado. Quando eles se afastaram, ela estava com os olhos marejados de lgrimas.
- No chore.
- No consegue mesmo se acostumar, no ? - Ela sorriu. 
- Ns, da famlia Campbell, somos muito emotivos.
- Eu imagino. Seu pai me olhou com um ar de quem estava querendo torcer meu pescoo "emotivamente" ainda h pouco.
- Quando ele vir que voc me deixou feliz, ele o deixar viver. - Cybil riu. 
- Ele vai ador-lo, Preston, e minha me tambm. Primeiro porque eu j o adoro e depois por quem voc .
- Ranzinza, rude e temperamental?
- Isso mesmo. - Ela riu alto quando Preston fez uma careta de desagrado. 
- Eu poderia tentar mentir, mas voc sabe que eu sou pssima nisso. - Os dois comearam a andar de mos dadas. 
- Eu adoro este lugar. Foi aqui que meus pais se conheceram e se apaixonaram. Papai vivia no farol naquela poca, como um eremita, guardando o trabalho e irritando-se 
com a mulher que aparecia para distra-lo. - Cybil olhou-o de soslaio. 
- Ele  ranzinza, rude e temperamental.
Preston riu.
- Parece um homem bastante sensato. - Levou a mo dela aos lbios. - Cybil, quer ir a Newport comigo e conhecer minha famlia?
- Vou adorar. - Ela o olhou mais uma vez e franziu o cenho ao notar um brilho diferente nos olhos dele. 
- O que foi?
Preston parou e a virou de frente para si, segurando-a pelos ombros.
- Sei que voc no quer se casar agora e que prefere se dedicar  sua carreira e  vida agitada de Nova York... Nem espero que goste da minha casa, que fica em um 
lugar afastado da cidade, sem muito barulho. Ainda assim... - Ele hesitou. 
- No quero que mude seu estilo de vida, Cybil, mas se algum dia decidir que quer se casar comigo e ter um lar e uma famlia tranqilos, no se esquea de me avisar, 
est bem?
Cybil sentiu uma onda de felicidade que ameaou explodir em seu peito, mas se limitou a assentir.
- Pode deixar. Voc ser o primeiro a saber.
Dizendo a si mesmo que deveria se sentir satisfeito com aquilo, Preston beijou a mo dela.
- Est bem.
Fez meno de recomear a andar, mas surpreendeu-se quando Cybil o fez parar de repente. 
- Preston?
- Sim?
- Quero me casar com voc e ter um lar e uma famlia. - O sorriso que surgiu no rosto dele foi um reflexo do dela.
 - Est vendo? Cumpri a promessa de avis-lo.
Ele a tomou nos braos e rodopiou com ela, dando um grito de felicidade. Quem disse que sonhos no se realizavam?
Muito tempo depois, os dois se encaminharam de mos dadas para a casa dos Campbell. Havia ainda toda uma famlia que precisava ser avisada da novidade. Principalmente 
um av muito, muito especial...

F I M
